Impacto das possíveis manifestações durante a Copa

Revista ihu on-line

Diálogo interconvicções. A multiplicidade no pano da vida

Edição: 546

Leia mais

Cultura Pop. Na dobra do óbvio, a emergência de um mundo complexo

Edição: 545

Leia mais

Revolução 4.0. Novas fronteiras para a vida e a educação

Edição: 544

Leia mais

Mais Lidos

  • Papa lança ataque frontal ao nepotismo e ao feudalismo no Vaticano

    LER MAIS
  • Basta! Manifesto de juristas contra o governo Bolsonaro

    LER MAIS
  • “Deus, Pátria e Família”: um retorno ao futuro dentro da globalização

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


05 Mai 2014

"Dependerá do desempenho da seleção brasileira. Se vencer, os protestos serão localizados, violentos e relativamente pequenos, como ocorreram depois de junho. Se o Brasil perder, em especial, antes da final da Copa, as manifestações que estão programadas poderão servir de canal de expressão da frustração e humilhação. E com uma economia morna como a atual, o cenário estaria montado", opina Rudá Ricci, sociólogo, em entrevista concedida a Melina Christian, do jornalismo da UNI-BH, e publicada no blog De esquerda em esquerda, 04-05-2014.

Eis a entrevista.

Você acredita que as manifestações só alcançaram grande escala devido ao uso das redes sociais?

Sim, mas não foi o único fator. Houve uma conjunção. As redes sociais foram o veículo de comunicação que tinha mais identidade com a juventude. Por que? Porque estamos lidando com uma juventude (e adolescência) contemporânea que a literatura especializada identifica como a que menos tempo de convivência familiar teve, desde o século XVII, quando as famílias passaram a acolher e educar seus filhos.

A formação de valores e até comportamento foram definidos em tribos urbanas ou o que os ingleses denominam de "pares de idade". São comunidades fechadas, de autoproteção. Ora, o modo como a juventude posta nas redes sociais fortalece o contato afetivo, comunitário. Cria-se uma rede de proteção e confiança e é por este motivo que alguém posta tristezas e os tais "selfie": não para o mundo saber, mas para receber algum comentário de sua "família virtual", sua comunidade fechada. Daí que os protestos de junho terem sido um mosaico, um quebra cabeças de demandas, porque somavam inúmeras demandas individuais, grupais e comunitárias.

Mas também é preciso destacar outro fator: o lulismo retirou entidades populares e de apoio (ONGs, sindicatos e pastorais) das ruas (para terceirizar ações e programas estatais ou para participarem de fóruns de elaboração de políticas públicas) que mediavam as demandas difusas espalhadas pelos bairros, locais de trabalho e grotões. Foi se formando um vazio entre as frustrações cotidianas e a ação estatal. Sem este vazio, os protestos de junho não teriam como atingir corações e mentes de gente que não havia saído às ruas.

Quais os reflexos das manifestações que já podem ser percebidos em relação à Copa do Mundo?

Será uma ameaça ou promessa permanente. Dependerá do desempenho da seleção brasileira. Se vencer, os protestos serão localizados, violentos e relativamente pequenos, como ocorreram depois de junho. Se o Brasil perder, em especial, antes da final da Copa, as manifestações que estão programadas poderão servir de canal de expressão da frustração e humilhação. E com uma economia morna como a atual, o cenário estaria montado.

Há algum reflexo das manifestações de junho de 2013 nas eleições desse ano? A pesquisa de intenção de voto publicada pelo Estado de Minas no dia 20/04/2014, apontou que votos brancos e nulos totalizam 24% e ainda segundo a matéria, existe uma expectativa de que esse número aumente. Isso poderia ser considerado um reflexo das manifestações?

O reflexo que me parece mais visível é o aumento de votos brancos, nulos e abstenções (que já atingiram 30% do total, em várias pesquisas recém divulgadas, acima do índice histórico de 20%). O cinismo eleitoral tradicional (eleitor que vota, mas não se compromete, cumprindo uma mera obrigação) parece ter evoluído para um julgamento ou posicionamento mais ácido sobre o sistema partidário e político. Uma espécie de transição de uma postura apática e inercial para algo mais agressivo, não necessariamente ativo, mas muito crítico.

De que forma as manifestações abalaram a visão internacional em relação ao Brasil?

As manifestações são efeito, não causa, para o olhar externo sobre nosso país. Chamaram a atenção da imprensa internacional que não entendia o motivo de protestos num país em franca prosperidade. A partir daí, perceberam que havia algo que se movia por debaixo das mudanças aparentes. Em seguida, vieram os rolezinhos, que confirmaram que a mobilidade social verificada no Brasil nos últimos dez anos gerava novos agrupamentos sociais, novas expressões culturais que se formavam na penumbra. E ainda não tivemos nenhuma ação coletiva dos beneficiários do Bolsa Família, outra lógica social não tradicional que se formou no último período. Surpreendentemente, imaginava-se que um país desigual poderia sofrer forte ascensão social (pelo consumo) sem nenhuma repercussão no comportamento social e político. Engano que as ruas deixaram claro.

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

Impacto das possíveis manifestações durante a Copa - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

##CHILD
picture
ASAV
Fechar

Deixe seu Comentário

profile picture
ASAV