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07 Abril 2014

Carlos Ñáñez, arcebispo de Córdoba, a segunda maior cidade argentina, está cansado de repetir as mesmas coisas. E também um pouco amargurado sobre como elas são reportadas depois: muitos meios de comunicação "distorcem a realidade dos fatos", suspira. Mas ele sabe que tem que repetir as coisas e que tem que refazer os fatos, porque o caso, mesmo se se quer minimizá-lo, não é comum.

A reportagem é de Alver Metalli, publicada no sítio Vatican Insider, 06-04-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Há poucas horas, na bela catedral da qual Dom Ñáñez é o primaz, o pároco Carlos Varas batizou, por sua ordem, Umma Azul, uma nenê de dois meses (nascida no dia 27 de janeiro), filha biológica de Carina Villarroel (31 anos), ex-policial que há um ano se uniu a Soledad Ortiz (28 anos), com base na lei sobre o "casamento igualitário", aprovada pelo Congresso argentino em julho de 2010. O primeiro casal gay a usar a lei na Argentina, a primeira lei desse tipo em toda a América Latina.

Dom Ñáñez não quer comentar a lei neste momento, mais tencionado a repetir com paciência cristã que o caso é como o de qualquer outra pessoa que pede o batismo: "O batismo é dado à criança. É um direito seu, um direito da pequena".

E não é verdade, repete ele mais uma vez, que tenha havido uma reunião com as duas mulheres e se tenha concordado em lhes dar a crisma. "Primeiro, eu não falei com essas pessoas; segundo, de fato, não deu autorização sobre a crisma; terceiro, elas (as duas mulheres) vieram aqui e, sem falar comigo, com indicações específicas, foram encaminhadas a uma paróquia onde deviam cumprir os requisitos necessários para a preparação para o Batismo. Tanto a mãe como os padrinhos". "Ponto final", conclui o arcebispo cordobês, sabendo que não será a última vez que ele vai ter que dar explicações.

Os padrinhos são outro capítulo da história. Porque, a pedido do casal, um dos três "testemunhas" foi nada menos do que Cristina Fernández de Kirchner, não em carne e osso, mas com delegação presidencial conferida ao oficial da guarda presidencial Claudia Fenoccio, que, em uniforme de gala, posicionou-se ao lado da pequena Umma em representação da presidente da Argentina.

O costume do "apadrinhamento presidencial" remonta aos anos da primeira imigração russa na Argentina, e Cristina Kirchner o exerceu por 400 vezes. Mas o caso de Umma é o primeiro fora do decreto presidencial que o prevê quando a mãe do sétimo filho o solicita. Outra singularidade que Dom Carlos Ñáñez não acha necessário comentar.

Ao contrário, ele volta a falar sobre o dever de dar o batismo quando as obrigações dos requerentes – mas é mais exato falar no singular – foram bem cumpridas, e o compromisso de educar o filho na fé cristã é aceito explicitamente. "Nisso, eu acredito que a boa fé das pessoas tem o seu papel", acrescenta.

De agora em diante, o terreno se torna movediço. "Muitos vêm ao nosso encontro pedir o batismo para seus filhos, e nós confiamos na sua boa disposição, mas não temos a certeza absoluta de que, de um lado, vão respeitar os deveres e, de outro, que a sua vida está totalmente em consonância com os princípios evangélicos".

Dom Carlos Ñáñez também não quer pôr o papa em causa. Não houve consulta com ele sobre o caso de Umma Azul. Mas, depois, a referência vem sozinha: "A Igreja se mostra como uma mãe misericordiosa e generosa ao abrir as portas da salvação. O batismo é um direito de toda pessoa humana, e eu acredito que o Santo Padre, nesse sentido, quando era arcebispo de Buenos Aires, sempre impulsionou uma atitude de abertura na administração desses sacramentos".

Por outro lado, o caso do batismo da filha de uma mulher unida a outra em um "casamento igualitário" não foi uma iniciativa pessoal, tomada em uma espécie de clandestinidade em relação ao resto da Igreja: "Eu falei a respeito disso e expliquei ao cardeal (Antonio) Cañizares, prefeito da Congregação para a Disciplina dos Sacramentos, de modo que a Santa Sé está ciente do caso".