''O papa também tem limites''

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10 Março 2014

"Não se deve mudar nada no ensinamento católico" em matéria de moral sexual, uma vez que ela tem a ver "com o verbo de Jesus e os preceitos divinos. E isso marca claros limites a todo papa, a todo Sínodo e a todo bispo". O cardeal Rainer Maria Woelki, arcebispo de Berlim, falou nas colunas do jornal alemão Frankfurter Allgemeine Zeitung sobre as questões que estarão no foco dos próximos sínodos sobre a família, o extraordinário de outubro e o ordinário do próximo ano.

A reportagem é de Matteo Matzuzzi, publicada no jornal Il Foglio, 05-03-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Ele relê as passagens da douta e profunda conferência proferida na abertura do consistório pelo cardeal e teólogo Walter Kasper, detém-se na questão relativa aos divorciados em segunda união a serem readmitidos à comunhão e diz que "na decisão em favor do matrimônio sacramental se manifesta o 'sim' inabalável do Senhor com relação ao ser humano e à sua criação, no amor entre mulher e homem. Eu – explica Woelki – assumo a escolha em favor de uma pessoa, aqui, agora e para sempre. Cada um de nós deseja ser aceito e amado incondicionalmente, e o matrimônio cristão deseja transformar isso em vivência e em uma experiência sacramental".

O que a Igreja deve fazer, na opinião do arcebispo de Berlim, "é intensificar a ajuda para os casais em dificuldades. A Igreja deve se esforçar para comunicar melhor", o que, contudo, não significa se adequar ao Zeitgeist, o espírito do tempo, como invocado por alguns bispos alemães decididos a fazer do Sínodo o campo para se subverter a doutrina e a pastoral católica sobre ética e moral sexual.

"Não podemos simplesmente adaptar as normas às realidades da vida. Se, no passado, estivemos convencidos da validade de alguma coisa, não significa que essa coisa, hoje, automaticamente, possa estar errada. No máximo, devemos nos perguntar por que outros não conseguem reconhecer a validade disso".

A missão é clara para o prelado que foi durante anos bispo auxiliar, em Colônia, do conservador Joachim Meisner – cuja renúncia à frente da diocese foi aceita pelo Papa Francisco na semana passada, depois de cinco anos de prorrogação: "Devemos nos comprometer para difundir um estilo de vida que se diferencie do habitual hoje. Como cristãos, devemos favorecer a formação de uma sociedade alternativa. Faz parte do credo cristão não o fato de dizer 'nós também', mas sim 'nós pensamos diferente'". E sobre as críticas veementes à Humanae vitae – que, de acordo com o resumo dos questionários sobre a família apresentado pela Conferência Episcopal Alemã, criaria agora "apenas confusão" –, Woelki rebate que o que está contido na encíclica de Paulo VI "ainda é válido. Não se pode dizer que seja positivo o fato de que uma mulher, graças à pílula, esteja sempre disponível para o homem. Um conceito com o qual até mesmo o movimento feminista concordo".

O discurso é diferente, acrescenta o purpurado criado cardeal por Bento XVI no seu penúltimo consistório de 2012, com fama de homem piedoso e capaz de se mover com grande equilíbrio entre as pedras mais insidiosas com as quais teve que lidar em Berlim (ateísmo militante, gênero, facções em conflito entre si na diocese).

"A Humanae vitae desenha um quadro do amor e da sexualidade que exalta a dignidade do indivíduo". Não tem nada a ver, destaca, o fato de ser "guardiões da religião que controlam o que acontece nos quartos. Isso é preconceito".

A Igreja Católica "não é inimiga da corporeidade", e, para compreender isso, basta "pensar nas estupendas declarações do Vaticano II sobre o amor conjugal contidas na Gaudium et spes. Não só nela, mas também na Humanae vitae e na Familiaris consortio de João Paulo II".

As bússolas para se orientar, portanto, existem. O que falta é "o esforço para nos fazer entender melhor", reconhece Woelki, que admite que "no passado nem sempre foi explicado de modo claro o ponto de vista da Igreja sobre tais questões".

Isso também diz respeito a todas aquelas situações inéditas, que, até poucos anos atrás, levaram eminentes expoentes da hierarquia católica – do influente cardeal Oscar Maradiaga, arcebispo de Tegucigalpa e coordenador da consulta dos oito purpurados que aconselha o papa sobre o governo da Igreja universal, ao arcebispo de Munique e Freising, Reinhard Marx – a afirmar a necessidade de uma atualização da Familiaris consortio de João Paulo II, texto que, como observava o cardeal hondurenho, "remonta a 30 anos atrás".

Uma dessas situações é a coabitação pré-matrimonial, sobre a qual Woelki – dentre os potenciais sucessores de Dom Robert Zollitsch à frente do episcopado alemão – diz que, "embora muitos casais já vivam juntos antes do matrimônio, isso não é nenhuma garantia para um casamento bem sucedido. Certamente, é muito importante se conhecer verdadeiramente, para que chegue o dia em que se possa dizer, responsavelmente, o sim em favor do outro". Um sim, no entanto, "que dure no tempo".