21 Fevereiro 2014
É um pouco bizarro consultar os fiéis em matéria de doutrina e, em seguida, não dizer a eles o que a consulta totalizou. Mas esse é o impasse em que os bispos da Inglaterra e do País de Gales parecem estar.
Publicamos aqui o editorial da revista católica britânica The Tablet, 13-02-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Eis o texto.
É um pouco bizarro consultar os fiéis em matéria de doutrina e, em seguida, não dizer a eles o que a consulta totalizou - particularmente quando os assuntos em questão são de extrema importância, afetando as vidas e a felicidade de milhões.
Mas esse é o impasse em que os bispos da Inglaterra e do País de Gales parecem estar. Eles foram uns dos primeiros a perceber que a consulta solicitada pelo Vaticano, em preparação para uma reunião especial do Sínodo Internacional dos Bispos em outubro, não poderia ser conduzida em sigilo. Então, eles colocaram o texto do Lineamenta, o questionário do Vaticano, à disposição na internet e convidaram as pessoas a enviarem suas respostas. Diz-se que o Vaticano ficou insatisfeito com essa demonstração perversa de abertura, e, consequentemente, os bispos decidiram tratar o resumo oficial das respostas como extremamente confidencial.
Isso levanta a suspeita de que o conteúdo é altamente constrangedor. De fato, pesquisas independentes realizadas sobre essa consulta em muitos países ocidentais chamaram a atenção para a grande disparidade entre o que os católicos devem crer e fazer, e o que eles realmente acreditam e fazem. Se o resumo das respostas à consulta é honesto, esse fato deve estar refletido nele. Felizmente, a inibição que tem se apoderado dos bispos da Inglaterra e País de Gales não assustou a Conferência dos Bispos da Alemanha, que publicou os resultados da sua semelhante consulta - com comentários construtivos - na internet. Assim, qualquer pessoa que queira ter uma ideia de como seriam as respostas dos ingleses e galeses precisa apenas olhar a versão em inglês das respostas alemãs chamada de Fragebogen Die pastoralen Herausforderungen der Familie (disponível aqui, em inglês). Várias hierarquias de outros países também emitiram resumos de suas próprias consultas, e são muito semelhantes.
Isso não é satisfatório. A falha em informar os católicos ingleses e galeses em como seus pontos de vista foram resumidos chega a beirar uma quebra de confiança. Ainda mais lamentável é a ausência de qualquer reação, qualquer evidência de liderança. O que os bispos acham? Será que eles acreditam que a linha oficial sobre todos os assuntos examinados ainda é sustentável, agora que eles possuem provas indiscutíveis de que os leigos se rebelaram em massa em praticamente todos os temas? Será que esse fato não tem peso teológico? Os bispos estão discutindo isso entre si, ou apenas esperando que o assunto se dissipe? O que John Henry Newman diria?
As respostas dos alemães e de outros têm coisas positivas a oferecer. Por exemplo, ao mesmo em que são favoráveis à admissão dos divorciados em segunda união à Santa Comunhão, os católicos alemães também apoiam a ideia do casamento como um compromisso de vida e que "os valores cristãos, como amor e fidelidade, bem como a responsabilidade de um para com o outro e para as crianças", também são encontrados no segundo casamento.
Esses princípios podem ser reforçados através do ensino católico, uma vez que esse ensino recupere a credibilidade. A sociedade precisa desesperadamente ouvir essa voz católica. Mas, primeiro, a ênfase na ética católica sexual e familiar precisa se deslocar das proibições fundadas sobre uma interpretação restritiva da lei natural, ao estímulo da virtude, à promoção de relacionamentos amorosos e saudáveis, e ao apoio da família como um pilar fundamental do bem comum. Essa é a direção para a qual esse exercício deve apontar. Seria maravilhoso ouvir um bispo da Inglaterra e do País de Gales dizer isso.