A ousada renúncia papal deu início ao ano das mudanças no Vaticano

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12 Fevereiro 2014


O Papa Francisco está sacudindo tudo na Igreja Católica a tal ponto que muitos falam de uma “Revolução de Francisco”. No entanto, o ato singular mais revolucionário feito por um papa nos últimos 600 anos ocorreu há exatamente um ano, e não foi Francisco quem o fez.

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada pelo jornal The Boston Globe, 11-02-2014. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

No dia 11-02-2013 o Papa Bento XVI usou um encontro dos cardeais – que discutiam sobre a criação de novos santos – para apresentar sua surpreendente decisão segundo a qual ele planejava renunciar, o que foi feito em 28-02-2013 às 20h00 em Roma. A notícia foi uma surpresa total para todos, exceto para alguns poucos confidentes papais. Ela dispôs o palco para todo o drama que daí se seguiu.

Depois, um cardeal disse que se sentou na sala após ter terminado o encontro, ainda incapaz de compreender o que tinha acontecido. Ele ficou repetindo as palavras de Bento XVI em latim repetidas vezes para ter certeza de que havia entendido.

Sim, um punhado de papas renunciaram antes, o mais recente foi Gregório XII, em 1415. Entretanto, as circunstâncias eram tão diferentes que fazem com que a decisão do Papa Bento seja essencialmente inédita: um papa que não estava enfrentando exércitos inimigos ou cisma interno que decidiu voluntariamente se afastar, enquanto que continua a viver em razão do Vaticano e prometendo “obediência incondicional” a quem quer que possa sucedê-lo.

Francisco ganha elogios por sua natureza humilde, porém o ato de Bento foi, sem dúvida, o zênite da humildade papal. Ele foi da infalibilidade à quase invisibilidade, tendo sido fotografado apenas quatro vezes desde a sua renúncia, sendo a mais recente num recital em 15-01-2014, marcando o 90º aniversário de seu irmão.

Na esteira imediata do anúncio, a questão era identificar a “verdadeira” razão por que Bento saiu. Mesmo tendo o pontífice citado idade e saúde, alguns analistas se perguntaram se ele havia ficado tão desmoralizado com o caso de vazamento do Vaticano – que resultou com a prisão de seu próprio mordomo – a tal ponto de não conseguir continuar. Outros especularam dizendo se tratar de um nebuloso “lobby gay” no Vaticano como sendo o fator decisivo.

A maior parte deste fermento circulou na imprensa italiana, onde teorias conspiratórias têm o seu lugar reservado.

Independentemente de quais sejam as razões, hoje podemos ver com mais clareza como a abdicação de Bento preparou o caminho para a escolha do cardeal Jorge Mario Bergoglio como o novo papa.

Em primeiro lugar, ao fazer da renúncia uma possibilidade tirou, efetivamente, a idade e a saúde como questões relevantes na hora de votar. No passado, a sabedoria convencional fora aquela em que os cardeais prefeririam um candidato com 65 a 70 anos. Candidatos mais velhos, e eles correriam o risco de um papado curto ou com alguém imediatamente imerso em questões de saúde; candidatos mais novos, e o perigo seria ficar preso a um líder durante muitos e muitos anos.

A renúncia fornece uma estratégia de saída para ambas as possibilidades. Se um candidato mais velho ficar doente, ele pode se afastar e dar fim à paralisia que vem com um papa enfraquecido. Um candidato mais jovem pode renunciar depois que o arco criativo de seu papado terminou, dando caminho para uma nova direção.

Sem uma tal válvula de escape, os cardeais poderiam hesitar diante da eleição de uma parte faltante de 76 anos de idade com poucas energias, especialmente após terem escolhido um de 78 anos, Bento, que às vezes parecia não ter a força para tomar o controle do Vaticano.

Em segundo lugar, o fato de que os cardeais estavam elegendo um papa após uma renúncia, e não após a morte, mudou a psicologia do processo.

Não houve manifestação de pesar e tributos a um falecido pontífice, pela razão óbvia de que o papa não estava morto. Não havia grandes multidões em luto, nem obituários elogiosos na imprensa global, tampouco emoção de uma missa fúnebre: nenhuma das forças que podem dificultar aos cardeais em optar por uma ruptura com o papado que acabara. Há oito anos, o “efeito fúnebre” massivo em torno da morte do Papa João Paulo II constituiu fator muito importante na formação para votos de continuidade.

Renunciar permitiu aos cardeais terem uma opinião mais crítica, o que ajuda a explicar por que o conclave de 2013 foi a eleição papal mais anti-establishment dos últimos 100 anos. Nesse caso, os cardeais não estavam rejeitando o ensino, a doutrina, de Bento XVI, o que muitos deles admiravam, mas sim os padrões de gestão de negócios no Vaticano que acreditavam estar corrompidos e serem disfuncionais.

Eles quiseram mudar e Francisco está fazendo isso, talvez num nível mais alto do que aquele que alguns esperavam.

Por fim, a renúncia encorajou os cardeais a apostarem num estrangeiro latino-americano sem experiência alguma no Vaticano porque, francamente, alguns tinham consigo que se o novo papa viesse a ser um fracasso, poderiam voltar em poucos anos e escolher um outro líder.

Tradicionalmente, os católicos creem que o Santo Espírito guia, orienta, o processo de escolha de um papa. No entanto, num nível mais próximo o motor primário na cadeia de eventos que levou ao Papa Francisco foi Bento XVI, o revolucionário improvável, que colocou as rodas em movimento um ano atrás.