Família de jovem homossexual morto com sinais de tortura não aceita hipótese de suicídio

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17 Janeiro 2014

A família de Kaique Augusto Batista dos Santos, cujo corpo foi encontrado por policiais militares próximo a um viaduto na avenida Nove de Julho no sábado passado (11), vai pressionar a Polícia Civil para que a morte do adolescente de 17 anos não seja considerada suicídio, como consta no Boletim de Ocorrência.

Segundo Tayna Innocencia Chididebere Uzor, 19, irmã do jovem, Kaique tinha uma barra de ferro atravessada na perna e teve todos os dentes arrancados da boca pela raiz, além de demonstrar hematomas pelo corpo que sinalizariam espancamento. Os policiais que o encontraram consideraram que, por estar próximo de um viaduto, os ferimentos poderiam ter sido causados pela queda. Um inquérito para apurar o caso foi instaurado hoje (16) no 3º DP (República).

A reportagem é de Diego Sartorato e publicada por Rede Brasil Atual, 16-01-2014.

A família teme que Kaique possa ter sido vítima de um crime de ódio – o jovem era negro e homossexual, e desapareceu na sexta-feira passada (10) após sair de uma festa na boate Pzá, na qual atuou como promoter.

"Ele estava em uma festa perto da praça da República (centro de São Paulo) com os amigos. Teve uma hora que eles se separaram, e quando se encontraram novamente, o Kaique disse que tinha perdido a carteira e o celular. Eles se separaram novamente para procurar as coisas dele e o Kaique foi visto pela última vez na frente do palco", conta a irmã.

Em princípio, os amigos acharam que ele havia saído mais cedo porque tinha de trabalhar no dia seguinte; Kaique era higienizador em um lava-rápido. Quando ele não compareceu ao trabalho, começou a busca da família por informações.

Tayna e a mãe percorreram as ruas na região da República, delegacias e o Instituto Médico Legal, que disse não ter informações. Na noite do sábado, elas foram avisadas que haviam chegado novos corpos, mas que eles não haviam sido fotografados e só poderiam ser reconhecidos na terça-feira. Até então, como não portava documentos, Kaique estava classificado como indigente.

"Um amigo nosso reconheceu o corpo, que estava muito desfigurado. O buraco na perna era muito grande e todos os dentes foram removidos pela raiz. Não havia nenhum pedaço. Esse ferimento não é de se jogar de um viaduto, ele foi torturado. Não aceitamos que a polícia feche esse caso como suicídio", diz Tayna.

O enterro ocorreu ontem (15) pela manhã, sem velório. De acordo com Tayna, o IML ficou sem energia elétrica e o corpo de Kaique estava em estado avançado de decomposição.

"Ele ficou na sala do velório por dois minutos, e o cheiro estava forte. A essa altura, ele já estava sem pele, e o corpo chegou a pesar 150 quilos. Ele pesava 70 quilos", lamenta a irmã. O estado de putrefação do corpo pode ainda inviabilizar uma exumação para uma nova investigação sobre os ferimentos.

Um protesto está sendo convocado por amigos, familiares e militantes da causa LGBT para amanhã (17), a partir das 18h30, no Largo do Arouche, na região central, onde o garoto gostava de se reunir com os amigos para fumar narguilê. O ato quer a investigação da morte de Kaique e a criminalização da homofobia.