Francisco "manipulado" tanto pela esquerda quanto pela direita, diz confidente

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09 Janeiro 2014

Um comentário recente feito pelo Papa Francisco sobre a educação dos filhos de casais homossexuais está sendo distorcido tanto pela direita quanto pela esquerda política para dar a entender que o pontífice entrou num debate sobre uniões homoafetivas, de acordo com um confidente do papa.

A reportagem é de John. L. Allen Jr, publicada por National Catholic Reporter, 07-01-2014. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

O padre jesuíta Antonio Spadaro, editor da influente revista Civiltà Cattolica, publicou um ensaio na edição de terça-feira do jornal Corriere della Sera, o principal da Itália, respondendo a afirmações apressadas presentes na mídia italiana quanto a uma “abertura” por parte de Francisco para o reconhecimento legal de relações homoafetivas.

Na verdade, escreveu Spadaro, o Papa Francisco não tem a intenção de “legitimar qualquer comportamento que não esteja compatível com a doutrina da Igreja”.

O esforço para distorcer as palavras do papa, continua Spadaro, vem tanto de “seus detratores” da direta quanto daqueles que o exaltam para tirarem vantagem para o lado esquerdo do espectro político.

Spadaro insistiu que comentários feitos pela papa no sentido de que os filhos de casais gays não deveriam receber uma “vacina contra a fé” que possuem não implicam em qualquer revisão no ensino da Igreja sobre o casamento.

“Misericórdia não significa justificar o pecado, mas alcançar com ternura a humanidade pela qual Cristo foi levado à Cruz”, escreveu.

Antonio Spadaro foi o ator principal de uma entrevista importante feita, em setembro, com o Papa Francisco trazida a público em edições jesuítas ao redor do mundo; foi também ele quem recentemente lançou extensas notas a partir do encontro, no dia 29-11-2013, do papa com os Superiores Gerais das ordens religiosas católicas masculinas.

Spadaro, 47 anos, que lidera a revista Civiltà Cattolica desde 2011, tem sido amplamente citado como um possível sucessor do padre jesuíta Federico Lombardi para ser o porta-voz mais importante do papa.

A controvérsia atual começou no sábado, quando Spadaro publicou suas notas tomadas a partir do encontro do papa com os religiosos. Entre outros destaques, Francisco identificou vários desafios relativos à educação que emergem das mudanças nas estruturas familiares.

De acordo com as anotações de Spadaro, o papa descreveu uma situação que enfrentou como arcebispo de Buenos Aires: “Lembro-me do caso de uma menina triste”, citou Spadaro as palavras do papa, “que, ao final, confiou à sua professora a razão de seu estado de espírito: a namorada de minha mãe não gosta de mim”.

Em sua fala, Francisco destacou o sufixo italiano para mercar o gênero feminino ao usar a palavra “namorada”, deixando claro que fazia referência a um casal de lésbicas.

Ao pensar sobre como chegar aos filhos que vivem em estruturas familiares semelhantes, disse o papa que “é necessário estarmos atentos a não ministrar vacinas contra a fé que possuem”.

Coincidentemente, a Itália está se preparando para um debate nacional sobre uniões homoafetivas após o novo líder do Partido Democrata, de centro-esquerda, anunciar que o apoio para o reconhecimento legal destas uniões será um componente da plataforma eleitoral do partido.

Nesse contexto, vários meios de comunicação indicaram que os comentários do papa equivaleriam a uma “abertura” indireta a esta ideia.

Em seu ensaio publicado no jornal, Spadaro se referiu a estas afirmações como “enganadoras na compreensão do que o papa disse de fato e do grande desafio que ele colocou”.

A questão que o Papa Francisco quer trazer, escreve Spadaro, é que a “Igreja está chamada a responder a um enorme desafio antropológico” criado pelas mudanças nas estruturas e normas sociais.

Spadaro escreveu que “o desafio educacional cristão consiste em evitar que a luz de Cristo permaneça apenas como uma memória distante para muitas pessoas ou, o que é pior, que ela permaneça nas mãos de uma pequena e seleta multidão de ‘pessoas puras’, que transformariam a Igreja numa seita”.

O texto de Spadaro pareceu dizer que o papa não pretende mudar a doutrina, e sim encontrar novas linguagens para expressar tal doutrina a pessoas que não mais respondem à fórmula tradicional.

Esta não é a primeira vez que Spadaro tentou esclarecer uma observação papal que se originou em algo que ele mesmo publicou.

Quando a entrevista da Civiltà Cattólica apareceu, em setembro último, uma citação amplamente citada foi a da insistência do papa de que “eu jamais fui um direitista”.

Mais tarde, Spadaro foi forçado explicar que aquilo que o Papa Francisco quis dizer foi que ele nunca havia sido um apoiador do regime militar da Argentina nas décadas de 1970 e 1980. O papa não quis se localizar, disse Spadaro à época, no espectro ideológico contemporâneo.