Francisco, o papa dos ''de fora''. Artigo de Massimo Faggioli

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13 Novembro 2013

Bergoglio está desmantelando uma ideia de Igreja caracterizada pela divisão entre quem está dentro e quem está fora, e está misturando novamente aquela delicada receita que é o catolicismo.

A opinião é do historiador italiano Massimo Faggioli, professor de história do cristianismo da University of St. Thomas, em Saint Paul, nos EUA. O artigo foi publicado no sítio da revista Treccani, 12-11-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

O Papa Francisco, como estilo e como teologia, não tem nada de imperial, muito pelo contrário. Mas, para aqueles que olham para o efeito Bergoglio, que já dura há muito tempo, oito meses desde a sua eleição, é fácil voltar à autodefinição que o imperador Constantino, no início do século IV, dava de si mesmo (ao menos segundo o seu biógrafo oficial, Eusébio de Cesareia): episkopos ton ektos, isto é, "bispo dos de fora", no sentido de "bispo dos leigos", ou "bispo dos de fora da hierarquia".

O fascínio do Papa Francisco não se deve a pronunciamentos dogmáticos particulares, ou a ações particularmente sensacionais. Nesse sentido, a lua de mel entre o papa eleito no dia 13 de março de 2013 e aqueles que tiveram o tempo e a vontade de olhar e ouvir é fruto de um período de grandes mudanças, mais esperadas do que prometidas, mais encarnadas do que ditadas.

Isso foi o suficiente para abalar as inclinações, consolidadas há muito tempo dentro da Igreja, ao longo das trincheiras das questões de moral sexual e defesa da vida. Esse fenômeno é amplamente visível nos Estados Unidos, onde faixas significativas de católicos conservadores (seja na hierarquia, seja entre os leigos comprometidos na Igreja) se sentem postos para fora do jogo pelo novo registro do Papa Francisco, não suficientemente repetitivo sobre as questões como aborto, contracepção, homossexualidade.

Mas esse efeito Bergoglio dentro da Igreja deve ser compreendido à luz daquilo que o Papa Francisco está fazendo com relação aos "de fora". Mais uma vez, nos Estados Unidos (que representa um dos pontos críticos para o futuro do pontificado de Francisco), esse fenômeno é claramente perceptível.

Nos últimos dias, entre o anúncio do questionário para a preparação do Sínodo dos Bispos de 2014 sobre a família e a foto do papa que abraça e beija um dos leprosos do nosso tempo, a Igreja do Papa Francisco voltou a ser objeto de atenção e de reflexão, mesmo por parte daqueles que, nas últimas décadas, se desfizeram dela como antiquaria, ou como agente do pensamento reacionário e conservador, ou, pior ainda, como lobby em defesa dos padres pedófilos.

Uma revista muito laica e símbolo do glamour dos Estados Unidos cosmopolita, The New Yorker, notou a diferença entre um papa professoral e um papa que toca com a mãe as pessoas de verdade, como elas são e não como se espera que elas sejam. Uma das mais importantes revistas culturais e literárias norte-americanas, The Atlantic, indagou sobre a cultura e a mentalidade do Papa Francisco, papa de uma "religião para adultos". Um dos intelectuais gays mais famosos dos Estados Unidos, Andrew Sullivan (católico e republicano), no seu blog muito lido, falou do papa como da verdadeira chance para uma Igreja que quer ouvir, embora já sabendo o que os católicos pensam sobre as questões de moral sexual.

Esses artigos são apenas uma amostra daquilo que muitos dos "de fora", em um país católico à sua própria maneira como os Estados Unidos, disseram sobre a Igreja e o cristianismo depois e graças à eleição do Papa Francisco, nesses últimos oito meses.

Na Itália, se poderia dar muitos outros exemplos. Entre as muitas diferenças entre os dois "bispos dos de fora" tão diferentes como o imperador Constantino e o Papa Francisco, em termos de percepção, está a de que ninguém acusaria Constantino (que se converteu ao cristianismo apenas no momento da morte) de ser um arrivista do catolicismo, um populista, um liberal ou um teólogo perigosamente próximo da heresia.

Bergoglio está desmantelando uma ideia de Igreja caracterizada pela divisão entre quem está dentro e quem está fora, e está misturando novamente aquela delicada receita que é o catolicismo. O fato de que muitos dos "de fora" (ideológica, cultural, geograficamente) estejam se aproximando novamente do limiar da Igreja irrita muitos daqueles que veem, na atenção secular à Igreja de Francisco, o retorno do filho pródigo: desde sempre a cólera do filho mais velho faz parte da história.