Como a Igreja pode voltar a entrar no discurso público a partir de Francisco

Mais Lidos

  • De Rerum Novarum a Leão XIV: não era o vapor, mas a ética; não são os dados, mas a dignidade. O que vale não é mensurável. Artigo de Paolo Benanti

    LER MAIS
  • Deus Trindade: circularidade-encontro-amor. Comentário de Adroaldo Palaoro

    LER MAIS
  • Juventude e novas direitas, para além dos estereótipos e dos extremos. Entrevista com Beatriz Besen

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Aceleracionismo Amazônico

Edição: 559

Leia mais

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

01 Novembro 2013

A implacável ênfase do Papa Francisco nos pobres e a sua insistência de que a Igreja se torne uma Igreja dos pobres "demanda", nas palavras de um bispo dos EUA, "uma transformação do debate político católico existente na nossa nação", segundo afirma o editorial do National Catholic Reporter, 28-10-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O bispo auxiliar Robert McElroy, de San Francisco, em um importante artigo na edição do dia 14 de outubro da revista America, delineia um convincente argumento para recalibrar o envolvimento da Igreja na praça pública e a forma como ela aborda questões importantes para os católicos.

O texto de McElroy talvez seja tanto uma indicação do tipo de espaço que Francisco abriu para a discussão de questões, quanto uma avaliação há muito tempo esperada de dentro da Conferência dos Bispos dos EUA de que os bispos precisam de um marco mais consistente para discutir o bem comum do que o dos últimos anos.

A transformação que McElroy vislumbra é construída sobre três considerações: "priorizar a questão da pobreza, focando não apenas nos males intrínsecos, mas também no pecado estrutural, e agir com prudência ao aplicar os princípios morais católicos a decretos legais específicos".

Esse marco surge a partir do que ele percebe como um apelo papal a três níveis de conversão: a reforma individual, cultural e estrutural do mundo.

Francisco, escreve McElroy, fala "poderosamente a cada um de nós sobre como nós podemos deixar que padrões de materialismo cativem as nossas vidas e distorçam a nossa humanidade". O papa, de forma desarmante, nos deixa "profundamente desconfortáveis" de uma forma que nos permite "reconhecer e enfrentar a alienação da nossa própria humanidade que ocorre quando buscamos a felicidade em objetos, em vez da relação com Deus e com os outros", escreve McElroy.

Ele escreve que o papa também busca a conversão da "cultura do conforto que nos faz pensar apenas em nós mesmos; da cultura do desperdício que aproveita os dons da ordem criada apenas para saboreá-los por um momento e depois descartá-los; e da cultura da indiferença que nos dessensibiliza ao sofrimento dos outros, não importa o quão intenso, não importa o quão sustentado".

E, finalmente, o papa busca uma transformação global – nas palavras de Francisco, um novo "vigor à ação internacional em favor dos pobres, animados não só pela boa vontade, ou, o que é pior, por promessas que, muitas vezes, não são mantidas".

Para ser uma "Igreja dos pobres", argumenta McElroy, a Igreja dos Estados Unidos "deve elevar a questão da pobreza ao topo da sua agenda política, situando a pobreza ao lado do aborto como as questões morais preeminentes que a comunidade católica acompanha neste momento da história da nossa nação".

Cada uma dessas questões, pobreza e aborto, "constituem um ataque ao próprio coração da dignidade da pessoa humana", escreveu McElroy.

A transformação do debate político deve envolver um "foco renovado no pecado estrutural", que, em muitos aspectos, escreve ele, "é realmente mais relevante" para a busca do bem comum "do que os pecados do mal intrínseco".

Embora os atos intrinsecamente maus "sejam sempre e em todo lugar errados", escreve ele, nem todos os atos intrinsecamente maus (pensemos no adultério ou na blasfêmia) "encontram-se dentro da jurisdição do governo". O desequilíbrio nos últimos anos, segundo McElroy, ocorreu quando as questões foram amplamente propostas na esfera política com base na sua maldade intrínseca com o raciocínio implícito de que "os atos intrinsecamente maus automaticamente têm prioridade na ordem pública sobre todas as outras questões de grave maldade, como a pobreza, a guerra, as leis de imigração injustas e a falta de justiça restaurativa no sistema de justiça criminal. Isso tem o efeito de rotular essas outras questões cruciais da doutrina social da Igreja como 'opcionais' nas mentes de muitos católicos".

Finalmente, tal transformação também exigiria que se repensasse o papel da prudência, "um dos elementos mais mal utilizados" no debate político católico dos últimos anos, diz McElroy. Ele vê uma falha ao se separar as questões de "mal intrínseco", para as quais apenas um caminho político é possível, dos outros males como a guerra e a pobreza ou a imigração, que são vistos como abertos para interpretação ou para um "juízo prudencial".

"A verdade é que a prudência é um elemento necessário de qualquer esforço para promover o bem comum através da ação governamental", escreve ele. Não existe nenhuma estratégia única e absoluta que funcione para traduzir "o princípio moral original" em ação legal ou administrativa.

Caracterizar o ensaio refletindo sobre os seus destaques é causar-lhe uma injustiça. Ele é um convite sofisticado e sutil a uma discussão que tem faltado notoriamente entre os bispos dos Estados Unidos. É uma discussão oportuna para os bispos, cujas aventuras na discussão política mais ampla dos últimos anos, infelizmente, foram dominadas muito frequentemente pelos elementos mais extremos, usando linguagens e levantando posições que acabaram por alinhar a Conferência com posições irracionais das quais havia pouco espaço para escapar. O resultado foi uma Conferência com credibilidade em diminuição que é largamente ineficiente na realização dos seus objetivos na arena pública.

A abordagem de McElroy oferece uma forma para que a Igreja volte a entrar no discurso público com uma defesa a plenos pulmões do bem comum, que se eleva acima das amargas divisões partidárias.