Limburg, os divorciados e relação da hierarquia com os jornalistas

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24 Outubro 2013

"Os jornalistas e a hierarquia eclesiástica não são facilmente aliados, e embora tenham objetivos diversos, deveriam estar unidos no respeito à verdade – a serviço da qual podem ser úteis comentários corretos. Em relação a isto, os críticos da imprensa deveriam notar que não foi um jornalista que chamou alguns subalternos do Vaticano de “corvos e víboras”, mas, o ex-secretário de Estado, cardeal Tarcísio Bertone. E, que não foi um jornalista que chamou a corte que circunda o Papa de “a lepra do papado”, mas o próprio Papa Francisco", escreve editorial da revista católica inglesa The Tablet, 19-10-2013. A tradução da versão italiana do editorial é de Benno Dischinger.

Eis o texto.

Para o arcebispo Gerhard Müller, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé (CDF), parece ter-se tornado hábito por em embaraço o papado. Embora o Papa Francisco tenha feito da misericórdia de Deus um dos temas centrais de seu pontificado, a arcebispo declarou que os católicos divorciados recasados não podem ser admitidos à comunhão – não podem, disse, “fazer apelo à misericórdia de Deus”.

Agora, o Papa Francisco expressou claramente sua intenção de reabrir o inteiro dossiê, que será objeto de um Sínodo dos bispos extraordinário no próximo ano. Isto colocou o arcebispo Müller numa posição extremamente difícil.

Agora litigou com algumas das mais eminentes figuras da Igreja católica alemã, entre as quais o cardeal Reinhard Marx, um dos cardeais do “Conselho do Papa”, sobre o caso do bispo de Limburgo, Franz-Peter Tebartz-van-Elst. Este bispo desencadeou um notável protesto na Alemanha, gastando aproximadamente 31 milhões de euros para uma nova residência oficial, incluindo 15.000 euros para uma banheira. Além disso, está enfrentando duas injunções legais por perjúrio da parte de um tribunal alemão e nove por abuso de confiança de outro tribunal. Diz-se que os católicos alemães estejam abandonando em massa a Igreja católica vendo que seu imposto para a Igreja tenha sido usada para semelhantes extravagâncias. O Papa Francisco, que claramente toma tudo isto muito a sério, lhes solicitou de irem a Roma. Mas, o arcebispo Müller, que foi bispo de Regensburg e que, como tal, trabalhou sob o então cardeal Joseph Ratzinger na CDF, foi em defesa do bispo Tebartz, declarando que a questão era “uma invenção jornalística” e “um castelo de mentiras”.

Já enfrentamos casos como este. Um dos piores aspectos do Vaticano durante o papado de Bento XVI e aquele de seu predecessor João Paulo II foi a tendência de considerar maliciosas mentiras as denúncias de más ações do clero. Isto foi indubitavelmente um dos maiores fatores que por muito tempo impediram a Igreja de compreender e controlar o problema dos abusos, com o resultado que abusos sexuais com menores da parte do clero tenham continuado por mais tempo do que poderia ter sido de outro modo, e que prelados incompetentes ou mesmo corruptos tenham permanecido no cargo enquanto deveriam ter sido despedidos por desonra ou entregues à polícia.

O bom nome da Igreja católica empregará gerações para refazer-se desta ferida que se auto-infligiu. Embora alguns desabafos jornalísticos tivessem exagerado o alcance do problema, praticamente a cobertura dos fatos foi confirmada por eventos sucessivos. Os jornais até podem exagerar o escândalo, mas os funcionários do Vaticano devem aprender que os mesmos raramente mentem. E mentir é precisamente aquilo de que o arcebispo Müller acusou a imprensa de fazer no caso da diocese de Limburg. Continuou a fazer valer a velha desacreditada defesa do Vaticano empregada pelo Vaticano cada vez que os jornalistas atraem a atenção sobre fatos embaraçosos, e deste modo prejudicou sua reputação.

Os jornalistas e a hierarquia eclesiástica não são facilmente aliados, e embora tenham objetivos diversos, deveriam estar unidos no respeito à verdade – a serviço da qual podem ser úteis comentários corretos. Em relação a isto, os críticos da imprensa deveriam notar que não foi um jornalista que chamou alguns subalternos do Vaticano de “corvos e víboras”, mas, o ex-secretário de Estado, cardeal Tarcísio Bertone. E, que não foi um jornalista que chamou a corte que circunda o Papa de “a lepra do papado”, mas o próprio Papa Francisco