A questão dos bispos. Artigo de Massimo Faggioli

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22 Outubro 2013

Os católicos de 2013, lidando com um início seu pontificado cujo caráter pastoral é mais evidente do que nos antecessores, não podem deixar de notar uma falta de sintonia entre a pastoralidade do bispo de Roma e a de muitos pastores de muitas dioceses católicas.

A opinião é do historiador italiano Massimo Faggioli, professor de história do cristianismo da University of St. Thomas, em St. Paul, nos EUA. O artigo foi publicado no sítio HuffingtonPost.it, 21-10-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

A Igreja Católica é feita de muitas coisas diferentes. Há um nível espiritual, de comunhão entre os fiéis; há um nível institucional que preside alguns mecanismos necessários para a manifestação dessa comunhão; há o nível organizativo, que fornece meios e instrumentos ao rosto institucional da Igreja, que, por sua vez, serve à comunhão.

Um ponto crucial entre esses três níveis é a hierarquia eclesiástica e, especialmente, o papel dos bispos, que ocupam uma posição insubstituível na teologia de uma Igreja, como a católica, articulada ao longo de uma diretriz vertical (os bispos em relação com o papa e com Roma) e uma diretriz horizontal (os bispos pastores de Igrejas locais, ou seja, as dioceses que lhes são confiadas).

Esse é um dos pontos críticos do pontificado do Papa Francisco e do futuro da Igreja Católica em geral. Os católicos de 2013, lidando com um início seu pontificado cujo caráter pastoral é mais evidente do que nos antecessores (a longuíssima entrevista publicada pela Civiltà Cattolica há algumas semanas confirma as impressões dos primeiros meses de Francisco), não podem deixar de notar uma falta de sintonia entre a pastoralidade do bispo de Roma e a de muitos pastores de muitas dioceses católicas.

As duas Igrejas católicas a que eu pertenço (de várias maneiras: uma predominantemente por nascimento, a outra por vocação), ou seja, a Igreja Católica da Itália e a dos Estados Unidos, são exemplos eminentes dessa questão. Por pelo menos 30 anos, os bispos norte-americanos e italianos foram nomeados, por João Paulo II antes e por Bento XVI depois, segundo um critério que visava a formar um corpo episcopal coeso do ponto de vista doutrinal, especialmente nas questões de moral sexual e de defesa da Igreja da teologia feminista.

A dimensão pastoral quase sempre foi vista como um opcional no currículo dos bispos: bastaria estudar quantos deles eram pastores antes de serem nomeados bispos.

Durante os pontificados anteriores, tal situação não era menos dolorosa do que a atual, especialmente para algumas dioceses: para dar um exemplo, a minha Ferrara nativa tem sido, nas últimas décadas, destino de nomeações episcopais desprovidas de um projeto pastoral, para uma diocese que ainda parece se deixar tratar como a cidade "infectada" pela protestante Renata de França na corte dos Estensi no século XVI. Mas essa situação dolorosa chamava menos a atenção há alguns anos atrás, antes da chegada do Papa Francisco.

Hoje, a diferença é claramente perceptível, até porque a opinião pública se tornou particularmente exigente, se poderia dizer até vingativa com tudo o que tem a ver com a Igreja – até mesmo aquela opinião pública que não bebe do fel administrado por programas como Le Iene [programa satírico da TV italiana, ao estilo do CQC brasileiro].

O procedimento de nomeação é muito complicado na Igreja Católica – uma Igreja que já conta com 5.000 bispos. Nominalmente, cabe ao papa a "provisão da Igreja" para todas as dioceses da Igreja Católica mundial (salvo raríssimas exceções), mas, de fato, as nomeações, em muitos casos, são preparadas, instruídas e canalizadas por outros: os antecessores e as Conferências Episcopais nacionais, os núncios apostólicos, a Cúria Romana, filiações de vários tipos (incluindo alguns "movimentos católicos").

Por esse motivo, toda mudança no tipo de bispos católicos vai levar tempo. O que se pode esperar do Papa Francisco é uma reforma dos procedimentos que permita que a Igreja volte ao menos aos tempos do Concílio de Trento (1545-1563), quando as nomeações episcopais, em comparação com hoje – que não pareça paradoxal –, eram menos influenciadas por filtros ideológicos e menos centralizadas no Vaticano.