18 Outubro 2013
Um dia serão investigados bem a fundo os motivos da renúncia de Bento XVI. Um passo corajoso e epocal, considerando o seu porte, mas certamente ainda ainda não compreendido nas razões reais e profundas, que levaram o papa alemão a se retirar, motivando a sua decisão com a idade avançada e as forças que não lhe permitiam mais gerir plenamente a Igreja. Foi realmente só isso?
A reportagem é de Marco Ansaldo, publicada no jornal La Repubblica, 17-10-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
À espera de saber e de entender melhor, é bom se concentrar na novidade cheia de frescor constituída pela figura do seu sucessor. E na bagunça de livros dedicados nos últimos meses a Jorge Mario Bergoglio (alguns de ótima feitura, como o de Andrea Tornielli, Francesco. Insieme, editora Piemme) é útil, então, confiar nas mãos seguras de um historiador como Andrea Riccardi. Um autor que, fortalecido pela sua marca católica, pelo diálogo inter-religioso constantemente entretecido pela sua Comunidade de Santo Egídio e pela recente experiência amadurecida à frente de um ministério de clara marca social, tem há muito tempo um diálogo direto com os papas. Com muitos papas. E, apesar disso, ele nunca se portou como Sólon, como algum trombone irritado pela chegada de um pontífice reformador, capaz até de disseminar – escrevendo, porém, com o conclave acabado – que previra o cardeal chamado a substituir Joseph Ratzinger.
Que papa Bergoglio vai ser? Riccardi o prefigura analisando como estudioso o passado do purpurado argentino e seguindo os primeiros seis meses de pontificado do homem "que veio do outro lado do mundo". Ele faz isso concentrando-se nas novidades trazidas e nas declarações feitas pelo pontífice argentino (La sorpresa di Papa Francesco, editora Mondadori).
"Uma verdadeira surpresa – escreve –: não só pela escolha do homem, mas também pelo impacto feliz e imediato da sua personalidade entre os católicos e os não católicos. Percebeu-se imediatamente uma mudança de relevo".
Riccardi, autor de uma biografia de sucesso de João Paulo II, não ignora aquilo que ele define como "um período muito delicado, este 2012-2013, tempo da crise". Ele parte precisamente da data de 11 de fevereiro, com o anúncio feito em latim por Bento XVI da sua decisão clamorosa. Mas, depois, afunda o olhar na "proposta" apresentada pelo novo papa, com a constatação que ainda não se encontra, obviamente, em um documento programático, mas reside na comunicação estabelecida com a Igreja e com as pessoas. Destacando que o "laboratório" da sua abordagem diferente foi a Argentina, com as dificuldades e as contradições de um continente inteiro, o latino-americano, já enfrentadas pelo arcebispo de Buenos Aires.
É por isso que Francisco é outra coisa, no Vaticano, com relação ao passado recente. Não é um acadêmico, mas sim um homem que possui uma visão articulada do mundo global. E capaz, desde o início, de instaurar uma relação empática tanto com os fiéis, quanto com os não crentes. Quem vai à Praça de São Pedro sabe disso.
Há uma corrente de simpatia imediata que flui. Isso é demonstrado pelas multidões aos domingos no Ângelus, o afluxo das audiências geral às quartas-feiras, as paróquias italianas quem voltam a se animar. O que aconteceu com a sua eleição? Que a Igreja – é a opinião de Riccardi – parece ter saído do clima de declínio. Que algo novo pode acontecer na vida de quem crê. Que há esperança, em suma, para o futuro.
Hoje, todas as organizações gostariam de ter um Francisco para si mesmas. E as mídias já entenderam que algo profundo e novo chegou no universo – apenas aparentemente estático – da Igreja. Se somarmos a isso o projeto administrativo de reforma da Cúria Romana sobre o qual Bergoglio está colocando uma mão pesada, não é pouco. A história está cheia de surpresas. E, seguramente, Francisco ainda continuará a nos surpreender.