''Capelão de Jesus'', João XXIII será santo sem o milagre exigido. Entrevista com Loris Capovilla

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04 Outubro 2013

"Logo percebi a sua santidade. Eu o conheci há 17 anos e estive ao seu lado até o instante da morte". Quem se deu conta "imediatamente" de que estava vivendo "ao lado de um santo" é o arcebispo Loris Capovilla, histórico secretário de Angelo Roncalli.

A reportagem é de Giacomo Galeazzi, publicada no jornal La Stampa, 30-09-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

No início de uma semana que irá afetar o curso próximo da história da Igreja, com a reunião da consulta para a reforma da Cúria e a viagem de Bergoglio a Assis, Francisco realizou outro ato, um dos mais significativos dos seus primeiros meses de pontificado. No Palácio Apostólico, ocorreu o consistório para a canonização de João XXIII e de João Paulo II. Nessa ocasião, o pontífice oficializou a data da cerimônia em que serão "promovidos" a santos os seus dois antecessores bem-aventurados: o dia 27 de abril de 2014, o Domingo da Divina Misericórdia.

Chegam assim a cumprimento, juntas, as histórias de santidade de dois papas que Bergoglio também quis reunir no imaginário dos católicos, com o decreto de canonização assinado no dia 5 de julho, como exemplos brilhantes da própria instituição do papado.

Eis a entrevista.

Qual é a maior emoção ?

Ouvir a proclamação de santidade de Roncalli pelo seu sucessor mais semelhante a ele. Quando ele me telefonou, Francisco definiu como um "banquete da memória" os 50 anos do Concílio e da encíclica Pacem in terris. Eu estava tão emocionado que eu não conseguia dizer uma palavra. Ele me lembra João XXIII em tudo: na gestualidade, na atenção aos pobres. Eu entendi isso quando, há seis meses, ele se assomou à Loggia das Bênçãos, de como ele ajustava a estola, de como se ajoelhou. Lia-se no seu rosto a grande paz. Ele tem a mesma humildade e mansidão de coração de João XXIII que, como padre sábio e iluminado, se dirigia à família humana dilacerada por interesses conflitantes e por aversões insensatas e às vezes implacáveis.

Como foi colaborar com um santo?

Eu tenho impressos na mente situações e sentimentos. Roncalli enfrentava até as coisas mais pesadas com serenidade e simplicidade indescritíveis. Uma vez, eu me esforçava para representar-lhe uma situação complicada, e ele me deslocou: "Para obter algo, eu não mato nem uma mosca. Não quero forçar, mas sim convencer". Uma postura evangélica que ele já colocava em prática em Sotto il Monte, o vilarejo da modesta família, depois como professor no seminário e como núncio. Ele nunca mudou durante toda a sua vida. Aos 14 anos, ele escreveu no seu diário espiritual que a prudência é o ápice da vida cristã.

Quem foi Roncalli realmente?

O mestre inesperado. Ele foi eleito aos 77 anos de idade. Ninguém esperava um papa assim. Ele convocou a Roma todos os bispos do mundo e, no momento mais solene da sua vida, disse : "A minha pessoa não importa nada". E, com humildade, acrescentou: "O Concilio é presidido por Jesus. Eu sou apenas o seu capelão". Ele confiava em Deus e repetia: "Não é o Evangelho que está mudando, somos nós que começamos a entendê-lo melhor". Ele não era o homem das ilusões fáceis. Ele não via como imediata a unidade dos cristãos, mas se encaminhou para essa direção. O Vaticano II foi uma tomada de consciência histórica, o sinal de que a Igreja amadurece, caso contrário ainda estaríamos na época das Cruzadas e do processo contra Savonarola. Costumo repetir as últimas palavras de João XXIII: "Temos muitos amigos, teremos ainda mais". O que é impossível aos homens é possível para Deus.

Com ele, João Paulo II também será proclamado santo. Que lembranças o senhor tem dele?

Eu o conheci durante o Concílio, juntamente com o primaz da Polônia, Wyszynski. Em agosto de 1979, ele fui recebido em Castel Gandolfo e definiu Roncalli como um "profeta". Depois, acrescentou: "Os profetas sofrem, mas ele tinha razão, e agora vivemos uma época nova inaugurada por ele". Agora, eles vão nos proteger juntos do céu.