30 Setembro 2013
No livro de Nello Scavo La lista di Bergoglio, à venda na Itália a partir do dia 3 de outubro, é relatada pela primeira vez é a transcrição completa do interrogatório ao qual Bergoglio foi submetido pela magistratura argentina no dia 8 de novembro de 2010, portanto, em uma data muito próxima da sua eleição a papa. Nela, há algumas passagens em que ele diz, breve mas claramente, o que ele pensa da teologia da libertação.
A nota é de Sandro Magister, publicada no blog Settimo Cielo, 27-09-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
A primeiro passagem do seu argumento é a seguinte:
"A escolha dos pobres remonta aos primeiros séculos do cristianismo. Está no próprio Evangelho. Se eu hoje lesse como homilia alguns dos sermões dos primeiros Padres da Igreja, dos séculos II e III, sobre como os pobres devem ser tratados, você diria que a minha homilia é de maoísta ou trotskista. A Igreja sempre honrou a opção de preferir os pobres. Ela considerava os pobres como tesouro da Igreja. Durante a perseguição do diácono Lourenço, que era administrador da diocese, quando lhe pediram para trazer todos os tesouros da Igreja, ele se apresentou com uma maré de pobres e disse: 'Estes são os tesouros da Igreja'. E eu estou falando dos séculos II e III. A opção pelos pobres vem do Evangelho. Durante o Concílio Vaticano II, reformula-se a definição de Igreja como povo de Deus, e é aí que esse conceito se reforça e, na segunda Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano em Medellín, ele se transforma na forte identidade da América Latina".
Mais adiante, quando lhe pediram para dizer o que pensa dos sacerdotes comprometidos nas favelas, Bergoglio responde:
"É diferente para todos os países da América Latina. Em alguns países, eles se envolveram em mediações políticas: por exemplo, uma leitura do Evangelho com uma hermenêutica marxista. Isso deu origem à teologia da libertação. Em outros países, eles se aproximaram mais da piedade popular e se afastaram de todos os compromissos políticos, se não optando pela Política com 'P' maiúsculo, pela promoção e assistência dos pobres. A Santa Sé expressou dois pareceres, naquele momento, sobre a teologia da libertação, em que explicava bem as diferenças. Eram pareceres muito abertos, que encorajavam o trabalho com os pobres, mas dentro de uma hermenêutica cristã, não tomada de empréstimo de uma visão política qualquer".
E, finalmente, depois de ter dito que os padres Jalics e Yorio, que ele conseguira arrancar da prisão, "tinham uma posição equilibrada, ortodoxa e alinhada com as duas diretrizes da Santa Sé", e perguntado para dizer como era vista a teologia da libertação pelos generais no poder, ele diz:
"Havia personagens latino-americanos de referência que as pessoas da ditadura consideravam como baluartes do demônio, por exemplo Camilo Torres, o padre colombiano. A ditadura tinha a tendência de considerar essas referências como algo puramente revolucionário, marxista, de esquerda, como uma rendição do Evangelho à esquerda. Como eu declarei antes, sim, houve alguns que ensinavam teologia com uma hermenêutica marxista, algo que a Santa Sé nunca aceitou; e outros que não, que buscavam, ao invés, uma presença pastoral entre os pobres a partir de uma hermenêutica do Evangelho. Os dirigentes da ditadura demonizavam toda a teologia da libertação, tanto os padres que seguiam a interpretação marxista – que eram poucos na Argentina, se comparada a outros países –, quanto os padres que simplesmente viviam a sua vocação sacerdotal entre os pobres. Eles colocavam todos no mesmo balaio"