''Francisco abraça a todos como Jesus, mas não vai abrir mão dos princípios''. Entrevista com Luis Antonio Tagle

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24 Setembro 2013

"O cristianismo não é um conjunto de princípios. É o rosto de Deus que se encarna para acolher todo homem. Francisco pretende trazer esse rosto ao mundo. Portanto, é um erro defender que existe nele uma fratura entre anúncio do Evangelho e defesa dos valores ou dos princípios chamados inegociáveis. Essa não é a intenção do papa".

A reportagem é de Paolo Rodari, publicada no jornal La Repubblica, 22-09-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Luis Antonio Tagle, 56 anos, arcebispo de Manila e principal expoente da Igreja asiática, segundo cardeal mais jovem presente no último conclave, autor de Gente di Pasqua (Editrice Missionaria Italiana), comenta a primeira entrevista concedida por Francisco à imprensa (na Civiltà Cattolica).

Eis a entrevista.

Eminência, o pontificado em curso soa para muitos como uma revolução. Jorge Mario Bergoglio é o papa destinado a levar a Igreja a aberturas impensáveis há apenas alguns meses?

Na entrevista concedida ao padre Antonio Spadaro, Francisco explica que a fé é uma realidade complexa, que mantém unidos anúncio e valores, acolhida e moral. Certamente, a pergunta é: o que vem primeiro? Francisco, e nós seguimos o seu exemplo, naturalmente está inclinado a mostrar acima de tudo o rosto bom de Deus. E, mostrando esse rosto antes do que os princípios, ele faz com que quase naturalmente todos estejam mais dispostos a compreender também os ensinamentos da Igreja. Trata-se mais do que relativismo, em suma.

Nesse sentido, a sua abordagem é missionária de verdade. Se, ao contrário, ele partisse apenas dos princípios, as pessoas às quais ele se dirige se fechariam como uma ostra. Ao contrário, é encontrando o rosto do mistério que se pode compreender, sem fraturas e ressentimentos, o que é certo e o que é errado. A abertura de Francisco, portanto, existe, mas não no sentido de uma subversão do ensinamento da Igreja. É uma abertura de estilo, um modo de se apresentar que não esquece a moral, mas que, podemos dizer, a precede. As pessoas buscam o contato com Deus. Jesus abraçava a todos, assim como Francisco.

A Igreja saiu de meses difíceis, uma estagnação que parecia fatigá-la. Por que vocês escolheram Bergoglio nesse conclave? Era necessário romper com o passado e começar algo totalmente novo?

Como você bem sabe, durante o conclave, não houve nenhuma campanha ou propaganda a favor ou contra alguém. Os cardeais elegeram como papa o cardeal Bergoglio depois de um processo de escuta recíproca e de oração. O seu apelo por uma Igreja mais missionária, que se concentre na "periferia" em vez de em si mesma, foi compartilhado por muitos cardeais.

Entre os papáveis, também estava o senhor, ao menos para a mídia. O senhor se sentia assim?

Eu sabia que a mídia me incluía entre os papáveis, mas isso só me fazia rir. Não é algo que eu levei a sério. Eu tinha clareza de que a minha missão era a de me unir aos outros cardeais para eleger um novo papa, não para me fazer eleger. Antes e durante o conclave, eu não tive a impressão de que houvesse facções em conflito. Ao contrário, edificou-me o amor comum pela Igreja e pela humanidade que motivou a escolha dos cardeais. Todos desejavam apenas o bem da Igreja e uma renovada fidelidade à missão da Igreja no mundo de hoje.

A impressão é de que ainda hoje, diante de uma Igreja cansada na Europa, há uma outra Igreja, longe do Ocidente, mais viva. É isso mesmo?

O "cansaço" da Igreja em algumas partes do mundo, como se expressou no Sínodo dos Bispos passado, muitas vezes provinha de uma sincera preocupação com o estado da fé nas culturas, que não são mais abertas à religião como antes. Eu acho que, em parte, isso também deriva de um sentimento de incerteza ou de tristeza por causa da queda numérica dos católicos praticantes por causa da "hostilidade" de alguns setores com relação à Igreja. Eu entendo perfeitamente como essas situações são pesadas. As Igrejas da Ásia e de outros continentes vivem há séculos uma situação de minorias e de perseguição. É por isso que nós nos alegramos mesmo quando duas ou três pessoas se reúnem em nome de Jesus. Esses minúsculos rebanhos são a verdadeira presença da Igreja. A Igreja é viva. Como o fermento que é misturado na massa de pão para fazê-la crescer, acreditamos que a secreta influência da Igreja em muitas partes da Ásia contribui para o bem comum e para a presença do reino de Deus.

Fala-se com insistência sobre uma viagem do papa à Ásia. Estamos perto de uma mudança nas relações entre Pequim e Roma?

O meu avô (o pai da minha mãe) nasceu na China e imigrou, quando jovem, para as Filipinas. Casou-se com uma mulher filipino-chinesa. Assim, desse ponto de vista, sou próximo da China. Mas, francamente, não me envolvi diretamente nas questões essenciais que dizem respeito às relações sino-vaticanas. Eu acredito que a longa história do compromisso missionário dos jesuítas na China possa ajudar o Papa Francisco a identificar a resposta adequada e necessária para o nosso tempo. Nas Filipinas, vemos a Igreja na China sobretudo através da educação e da formação dos seminaristas chineses, dos sacerdotes e dos religiosos que estudam nas várias universidades e centros de aprendizagem.