A carta de Francisco ao papa do liberalismo italiano. Artigo de Massimo Faggioli

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13 Setembro 2013

O ponto central da carta de Francisco no debate com um jornalista como Eugenio Scalfari atém-se ao conceito de verdade. O Papa Francisco fala da verdade como relacional e não relativa.

A opinião é do historiador italiano Massimo Faggioli, professor de história do cristianismo da University of St. Thomas, em Saint Paul, nos EUA. O artigo foi publicado no sítio HuffingtonPost.it, 11-09-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Francisco, bispo de Roma e papa da Igreja Católica, escreve ao "papa" do liberalismo italiano, o fundador do jornal La Repubblica, Eugenio Scalfari. É uma carta interessante, porque revela muito sobre Bergoglio: não só da sua disponibilidade para conversar em público com o fundador de um dos jornais italianos mais lidos e mais críticos com o catolicismo como instituição, mas também sobre o seu modo de pensar e de viver a fé cristã no mundo contemporâneo.

O Papa Francisco cita a encíclica escrita "a quatro mãos" com Bento XVI, Lumen fidei, mas as passagens e os temas mais evidentes provêm do Concílio Vaticano II e, em particular, a assunção do "diálogo" (palavra que tinha sido praticamente banida do vocabulário do magistério católico durante o pontificado anterior) não como algo que se dirige "a quem está fora" (como na iniciativa do "Átrio dos Gentios"), mas como algo conatural à fé no Deus da revelação bíblica: "O diálogo não é um acessório secundário da existência do crente: ao invés, é uma expressão íntima e indispensável dela".

A carta do Papa Francisco é solidamente "católica" e tradicional ao abordar a questão eterna da relação entre Jesus e a Igreja, que o liberalismo (seja a teologia liberal, seja a cultura liberal tout court) geralmente conjugou em uma aceitação do ensino moral do Nazareno e em uma rejeição da Igreja. O Papa Francisco, mais do que argumentar, testemunha pessoalmente na carta que Jesus não é cognoscível na sua integralidade e radicalidade fora do testemunho que a Igreja dá dele, porque é da Igreja primitiva que recebemos, por meio da tradição, as Escrituras que revelam Jesus.

Outro ponto nodal da crítica liberal à Igreja e ao catolicismo é a relação entre política e religião, com a Igreja acusada de reivindicar uma autoridade sobre a política e de ingerir na autonomia da esfera pública. O Papa Francisco fala de "distinção" entre esfera religiosa e esfera política: "Para quem vive a fé cristã, isso não significa fuga do mundo ou busca de qualquer hegemonia, mas sim serviço ao ser humano, a todo o ser humano e a todos os seres humanos, a partir das periferias da história e mantendo desperto o senso da esperança que impulsiona a fazer o bem apesar de tudo e olhando sempre além". A ideia de uma Igreja "serviço ao ser humano, a todo o ser humano e a todos os seres humanos" provém diretamente do Concílio Vaticano II e de João XXIII, em particular. Outra ideia-chave para compreender o Papa Bergoglio é a relação com os judeus: mais uma vez, na carta, o papa faz suas as palavras do Concílio Vaticano II e do magistério pontifício pós-conciliar sobre a relação entre os dois Testamentos, entre Igreja e Israel.

O ponto central da carta, no debate com um jornalista como Scalfari, que escreveu sobre filosofia e que vê no Iluminismo o momento de passagem a uma modernidade irreconciliável com a fé cristã, atém-se ao conceito de verdade. O Papa Francisco fala da verdade como relacional e não relativa: "Isso não significa que a verdade é variável e subjetiva, longe disso. Mas significa que ela se dá a nós sempre e somente como um caminho e uma vida". Vê-se combinar aqui em Bergoglio um catolicismo intelectual de marca jesuíta, sempre em busca, por ser consciente de estar sempre incompleto, e uma espiritualidade que alimenta a experiência de fé como relacionalidade concreta com os homens e as mulheres do nosso tempo.

O apelo à consciência, na carta, não é uma concessão ao individualismo contemporâneo, mas sim uma citação implícita do documento do Vaticano II, Gaudium et Spes: "No fundo da própria consciência, o homem descobre uma lei que não se impôs a si mesmo, mas à qual deve obedecer. Essa voz, que sempre o chama a amar, a fazer o bem e a fugir do mal, soa no momento oportuno na intimidade do coração: faze isto, evita aquilo. O homem tem no coração uma lei escrita pelo próprio Deus; a sua dignidade está em obedecer-lhe, e por ela é que será julgado. A consciência é o centro mais secreto e o santuário do homem, no qual se encontra a sós com Deus, cuja voz se faz ouvir na intimidade do seu ser" (Concílio Vaticano II, Constituição Gaudium et Spes, 1965, parágrafo 16).

A conclusão, com a citação do Evangelho de Lucas (o Evangelho dos pobres) e a citação da "libertação", diz muito sobre o que está acontecendo no Vaticano nestes dias: o papa que visita o centro para refugiados, a reabilitação pública do fundador da teologia da libertação, Gustavo Gutiérrez, e todo o restante do Papa Francisco ao qual já é difícil seguir. O papa fala de Jesus: "Ele que foi enviado pelo Abbá "para levar aos pobres o alegre anúncio, para proclamar aos presos a libertação e aos cegos a recuperação da vista, para libertar os oprimidos, para proclamar o ano de graça do Senhor" (Lc 4, 18-9)".

O Evangelho de Lucas citado por Bergoglio fala de Jesus. Mas hoje, neste extraordinário 2013, também fala do efeito de um papa que assumiu o nome de São Francisco de Assis, alter Christus, sobre o nosso hoje, sobre os crentes e não crentes que têm a possibilidade e a vontade de ouvi-lo e de vê-lo. Um efeito que não se mede em audiências, em presenças excelentes, em best-sellers vendidos. Mede-se em lágrimas e sorrisos.