Indisciplina social em Cuba

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Por: Jonas | 10 Setembro 2013

Alarme em Cuba. Não pelo bloqueio estadunidense, que assedia a ilha há meio século; tampouco pelas penúrias econômicas crônicas e aquelas que o governo procura enfrentar com uma mistura inédita de socialismo de estado e iniciativa privada, nas quais se integram cooperativas e mercados livres. O alarme é pela indisciplina social.

A reportagem é de Alver Metalli, publicada no sítio Vatican Insider, 09-09-2013. A tradução é do Cepat.

Raúl Castro, muito mais do que Fidel, há tempo acionou o alarme por meio da tribuna da Aula Magna, na Universidade de Havana, diante de um público de estudantes e professores, mas para que a mensagem chegasse ao partido comunista e a seus quadros, incapazes de frear ou de dar uma resposta ao mal-estar que se esconde por trás da fragilização do civismo e da consequente “vitória” da vulgaridade, da marginalidade, do boato. A revolução, apontou o general Castro (Raúl), com seu otimismo de sempre, nunca será destruída por um inimigo exterior, mas por “nós, seu filhos”, que podem desfazê-la como um pedaço de história que já não serve para nada.

A análise do número um cubano foi clara. “Parecia que estávamos no confessionário diante de um sacerdote desses exigentes”, indicou-nos em tom de brincadeira um dos presentes. E não se trata de “furto de estado” ou de “desinteresse pelos instrumentos coletivos de trabalho”, que sempre foram fustigados pelos chefes da revolução. “Com relativa impunidade, propagaram-se construções ilegais, a ocupação não autorizada de casas, o comércio ilícito de bens e serviços, o não respeitar os horários de trabalho, o roubo e a matança de gado, a captura de espécies marinhas em perigo de extinção, o corte dos recursos florestais, incluindo nisto o magnífico jardim botânico de Havana, a acumulação de produtos e a venda a preços mais elevados dos mesmos”, até “condutas próprias da marginalidade, como gritar pelas ruas, o uso indiscriminado de palavras obscenas, jogar lixo pelas ruas, fazer as próprias necessidades fisiológicas nos parques, sujar as paredes de edifícios públicos...”.

Coisas bastante conhecidas em outros lugares e debaixo de outros céus... Contudo, justamente aqui, no final de uma interminável lista de “pecados”, surgiu uma palavra antiga (virtude) nos lábios do líder comunista, que em seguida encheu as páginas das revistas teóricas do partido, como “Catauro”, “Temas”, “Bohemia”... Virtude, ou seja, “decoro”, “amor à verdade”, “sinceridade”, “civismo e sentido do outro”. A virtude, tão imprescindível para José Martí, mas, sobretudo, virtude humana e cristã.

Ou seja, a revolução cubana, uma força moral mais do que subversiva ou uma mudança ética de consequências sociais (parafraseando Martí), por fim, diminuída justamente no moral. Após meio século, deixa de ser um fator de civilização. E justamente agora, deposita-se a esperança na Igreja, relegada durante muito tempo como fonte de uma duvidosa moralidade.

A revista católica “Espacio laical”, expressão do arcebispo de Havana, o cardeal Ortega, entendeu muito bem o que está em jogo e reflete a respeito em suas páginas; o centro cultural Félix Varela (nome do prelado e filósofo católico cujo processo de beatificação está em curso), incentivado pelo cardeal Ortega e inaugurado precisamente por Raúl Castro, também participa ativa e intensamente no debate. Assim, um comunista como o professor Jesús Guanche lançou dessa tribuna o seu convite aos católicos e à Igreja para unir forças para dar uma alma à revolução e salvá-la. Porque, como estava escrito num cartaz atrás dele, “Não há Pátria sem virtude, nem virtude com impiedade”.