Síria: o castigo e o esquecimento

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30 Agosto 2013

Acusado de ter perpetrado um massacre com armas químicas, na quarta-feira passada, em dois subúrbios de Damasco, e de talvez ter bombardeado o seu próprio povo com gás de nervos, o presidente sírio, Bashar al-Assad, voltou-se aos Estados Unidos e aos governos europeus com palavras de desprezo, repletas de escárnio.

A reportagem é de Barbara Spinelli, publicada no jornal La Repubblica, 28-08-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Ele lembrou-lhes os desastres das recentes guerras contra o terrorismo global e disse: "É verdade, as grandes potências podem conduzir as guerras. Mas podem vencê-las?". Eis o dilema que está diante dos ocidentais, no momento em que levantam a voz contra Damasco, denunciam a "obscenidade moral" das armas químicas contra cidadãos desarmados (as palavras são de John Kerry, secretário de Estado) e afiam as suas facas na convicção de que uma intervenção punitiva é necessária neste ponto e, portanto, legítima.

O dilema existe porque ninguém parece ter ideias claras sobre as consequências de uma ofensiva. Na verdade, não existe clareza nem mesmo existe sobre o objetivo, o que inquieta ainda mais: em nome de que projeto é preciso agredir Assad? E há provas confiáveis de que ele usou os gases, ou Kerry deduziu as suas certezas consultando, como admitiu na segunda-feira, as redes sociais?

Esse é o motivo pelo qual, mesmo quando as provas surgirem (nessa terça-feira, o porta-voz de Obama as prometeu para em breve), não é em uma guerra que se pensa nos Estados Unidos, mas sim em um gesto simbólico, em uma afirmação de força. Justamente para dizer: "Estamos aqui", e depois ir embora. Evitando, em palavras, a mudança de regime em Damasco.

É isso que leva a entender o ex- chefe do Estado Maior dos Estados Unidos, Jack Keane, que há meses prevê intervenções mais decisivas, mas que as considera improváveis. Entrevistado pela BBC, depois das palavras de Kerry, o general especificou que um simples sinal castigador, um tiro de advertência, deixaria as coisas como estão.

"No dia seguinte, Assad vai recomeçar os bombardeios sobre as populações civis, com ou sem armas químicas. As relações de força entre regime e rebeldes não vão mudar substancialmente". A coalizão dos voluntariosos que Obama está tentando reagrupar pode ter dito a sua palavra, mas a última palavra, muito provavelmente, não vai ser dele, nem o controle sobre o que vai acontecer depois.

O próprio Keane disse no passado que a Síria de Assad não é a Líbia de Gaddafi. Ele dispõe de armas mais sofisticadas, as suas tropas terrestres e aéreas combatem os rebeldes com considerável sucesso há dois anos. E ele tem aliados poderosos: o Irã, a Rússia, e, nos bastidores, a China, como sempre, está olhando, gigante que espera infinitamente paciente que os Estados Unidos quebre um osso depois do outro.

Nem mesmo a comparação com Kosovo é pertinente. É verdade, estamos diante de um desastre humanitário cuja obscenidade é evidente. Mas o obsceno ocorre, por sua natureza, "fora das cenas": não é visível como foi no Kosovo, e segurança exibida por Kerry é mais do que nunca instável, pelo menos por enquanto.

Os inspetores da ONU estão lá para verificar, como antes tentaram verificar no Iraque a existência de armas de destruição em massa detidas por Saddam Hussein. Em um certo momento, os Estados Unidos decidiram entrar na guerra mesmo assim, e os inspetores foram descartados sem serem ouvidos. Hans Blix, que chefiava a equipe da ONU, nunca deixou de evocar com amargura a surdez do governo Bush. Fala-se de uma operação semelhante no Kosovo, porque então começou a prática da coalizão dos voluntariosos, arquitetada sob a liderança de Washington para contornar o Conselho de Segurança da ONU e, portanto, Moscou. Mas Milosevic já estava vencido quando estalou a ofensiva, enquanto Assad, não.

No sábado, o New York Times interveio com um artigo singular do estudioso de história militar Edward Luttwak, antigamente defensor das guerras antiterroristas. Hoje, ele escreve que é melhor ficar olhando a Síria de fora, esperando que os concorrentes se degolem uns aos outros. É melhor a pane, prolongada, mas mantida em estado de contínua incandescência: ajudando maciçamente os rebeldes anti-Assad, mas parando a ajuda tão logo que eles se tornem fortes demais e estejam por vencer.

O raciocínio finge ser astuto, prudente. Na realidade, é perverso e patentemente desprovido de ambição política. "Os Estados Unidos perdem em ambos os casos", conclui Luttwak. Nenhum ocidental, e muito menos Paris e Londres, têm ambições políticas nesse episódio, além de objetivos inteligíveis. E, além disso, quanto Paris e Londres estão blefando? Estariam prontos para intervir sem os Estados Unidos e ao lado de Israel, repetindo a desastrosa expedição contra Nasser em Suez, que Eisenhower providencialmente impediu em 1956?

Isso significa que a Síria é um vespeiro, antes ainda que estoure o eventual ataque euro-americano. A questão moral, que se abriu com o uso do sarin, é inegável, mas a catástrofe humanitária não pode ser combatida como foi combatida em Kosovo ou, pior, no Iraque. E não só porque faltam provas conclusivas que atestem a responsabilidade de Assad, não só porque os mais fortes entre os rebeldes são, neste momento, as milícias da Al Qaeda, e a escolha é entre a peste e o cólera.

Só forças de interposição da ONU poderiam proteger os civis sírios de novos ataques (desencadeados por Assad ou pelos rebeldes) e agir em nome da proibição do uso de armas químicas. A coalizão dos voluntariosos é incompatível com o caminho da ONU e se propõe outras coisas. O que, exatamente? Talvez seja por isso que a ministra [italiana] Bonino se mostra duvidosa: "A Itália não tomaria parte em soluções militares fora de um mandato do Conselho de Segurança da ONU".

O analista Yagil Levy, estudioso do peso exercido pelos militares na edificação do Estado israelense, enumera as três razões pelas quais a questão moral não pode ser resolvida por intervenções militares (Haaretz 26-8). Em primeiro lugar, porque faria um grande número de vítimas e destruiria a infraestrutura do país, como já ocorreu no Kosovo e na Líbia. Em segundo lugar, porque não apaziguaria a guerra entre regime e rebeldes, mas a exacerbaria. Terceiro motivo, a intervenção tenderia a "favorecer uma mudança de regime artificial". Dependente de ajudas externas, o futuro poder seria sem raízes.

A história das guerras nos últimos 14 anos (Iugoslávia, Afeganistão, Iraque, Líbia) confirma as inquietações de Yagil Levy. Nenhuma delas criou novas ordens estáveis, todas acabaram em pântanos diabolicamente gelatinosos, nos quais não se distinguem as pessoas confiáveis das não confiáveis. Os custos em termos de vidas humanas, uma vez derrotado Gaddafi, já são enormes: os mortos do pós-guerra são quase equivalentes à metade dos mortos antes do assassinato do líder.

As democracias fazem bem, Paris e Londres fazem bem ao se indignar pelo eventual uso de gás. Mas a indignação moral soa falsa quando não calcula as consequências das próprias ações e nem sequer sabe quem é o culpado. Quando o passado não ensina nada, e caem no esquecimento as falsas provas dadas por Colin Powell contra Saddam, e perdem o peso as derrotas das guerras humanitárias ao longo dos anos.

A democracia e a estabilidade não se exportam quando um Estado falimentar é substituído por um Estado ainda mais esmagado do que antes. Não se exporta nem a moral com ataques simbólicos que satisfazem apenas o orgulho daqueles que os lançam e não ajudam os verdadeiramente ameaçados.

Se o perigo no Oriente Médio é a degeneração síria, e ao mesmo tempo o poder exercido na região pelo Irã ou pelo Hezbollah no Líbano, se é a decadência do reino jordaniano, a rigidez de Israel, o retorno ao Egito de um regime corrupto que se gloria por abater com o sangue o integralismo da Irmandade Muçulmana: se tão vasto é o nó que se pensa nos Estados Unidos e na Europa, não é com grande e mortífero gesto contra Assad que ele vai ser desfeito.