Londres está determinada a intervir na Síria, apesar do precedente iraquiano

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30 Agosto 2013

O Reino Unido está se preparando psicologicamente para ataques aéreos iminentes na Síria. É só uma "questão de dias", segundo uma porta-voz do gabinete do premiê. "Não acho que possamos não fazer nada", avisou David Cameron. O primeiro-ministro britânico agora fala em "utilização de armas químicas pelo regime de Assad", não deixando nenhuma dúvida sobre o autor do ataque do dia 21 de agosto em Damasco.

A reportagem é de Eric Albert, publicada no Le Monde e reproduzida pelo Portal Uol, 29-08-2013.

David Cameron anunciou que o Reino Unido apresentaria, na quarta-feira (28), um texto de resolução sobre a Síria ao Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas.

"Nós sempre dissemos que queríamos que o Conselho de Segurança da ONU estivesse à altura de suas responsabilidades", escreveu o primeiro-ministro no Twitter. "Hoje, temos a oportunidade para isso. O Reino Unido redigiu uma resolução condenando o ataque com armas químicas pelo presidente sírio Assad e autorizando as medidas necessárias para proteger os civis."

O Parlamento Britânico, que deveria retomar os trabalhos na segunda-feira, 2 de setembro, teve uma convocação de emergência para um debate na quinta-feira (29) (Nota da IHU On-Line: O Parlamento não autorizou, no dia de ontem, uma resposta militar da Inglaterra). O simples fato de que o debate não possa esperar nem mais quatro dias dá uma ideia relativamente precisa do cronograma que está em jogo. A Câmara dos Comuns deverá votar uma moção, cujo teor exato não foi revelado, mas que deverá, em termos gerais, autorizar - ou não - uma réplica militar. Do ponto de vista legal, Cameron não precisa de aval da Câmara dos Comuns para agir, mas, do ponto de vista político, é uma prática importante.

Embora o poder Executivo britânico pareça ter tomado sua decisão, ele precisa enfrentar uma opinião pública e parlamentares muito reticentes. Uma pesquisa da YouGov indica que a grande maioria dos britânicos é contra os ataques aéreos: 50% são contra e 25% são a favor.

Essa cautela é uma consequência direta da guerra no Iraque, de dez anos atrás, que traumatizou o Reino Unido. "É preciso aprender com o que aconteceu no Iraque. Isso não deve nos paralisar, mas as pessoas agora têm uma exigência maior para se convencerem de sua legitimidade", acredita Douglas Alexander, o ministro "paralelo" das Relações Exteriores entre os trabalhistas.

Um artigo de Tony Blair publicado na terça-feira veio reforçar esse fantasma iraquiano. O ex-premiê defendeu uma intervenção na Síria: "Depois das longas e dolorosas campanhas no Iraque e no Afeganistão, eu entendo a vontade de se ficar longe do turbilhão. (...) Mas precisamos entender coletivamente as consequências de um comportamento que consiste em não fazer nada em vez de agir."

"Ações proporcionais"

Essa declaração do homem que levou o Reino Unido para a guerra no Iraque provocou reações exaltadas. "E eis que Tony Blair reaparece do nada. Se ele ainda estivesse no poder, provavelmente já teríamos invadido", ironiza Adam Holloway, um deputado conservador.

O debate de quinta-feira na Câmara dos Comuns promete ser turbulento. Além da oposição, que está hesitante, boa parte dos conservadores não se empolga muito com a ideia de um ataque militar.

Holloway, um ex-soldado que combateu durante a guerra do Golfo, questiona o objetivo de um possível ataque aéreo. "Qual é a estratégia? Reagir a um horror não é uma estratégia. Eu seria a favor de um ataque se me dissessem qual deveria ser o resultado depois. Mas ninguém fala disso."

Diante dessas profundas reticências, o governo insiste nos contornos reduzidos da ação que ele pretende conduzir. Ele não cogita enviar soldados britânicos para a Síria, nem mesmo considera armar os rebeldes, ao contrário do que Cameron desejava antes do verão. E tampouco se trata de uma tentativa de derrubar o conflito sírio: trata-se simplesmente de não deixar impune o uso de armas químicas, proibido por leis internacionais.

"É claro, todas as ações que efetuamos ou que outros efetuarem deverão ser legais e proporcionais", afirma Cameron. "Elas deverão procurar especificamente desencorajar o uso futuro de armas químicas. Não se trata de se envolver em uma guerra no Oriente Médio ou de mudar nossa posição quanto à Síria (...) Trata-se de armas químicas: seu uso é um erro e o mundo não pode só olhar sem reagir."