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Por: André | 28 Agosto 2013

A hipótese sobre a intervenção militar ocidental na Síria é cada vez mais real, apesar da oposição da Rússia e da prudência da China. Poderia ocorrer sem o aval do Conselho de Segurança das Nações Unidas.

A reportagem é de Eduardo Febbro e publicada no jornal argentino Página/12, 27-08-2013. A tradução é de André Langer.

Com o passar das horas, a hipótese sobre uma intervenção militar ocidental na Síria é cada vez mais real, apesar da oposição frontal da Rússia. O argumento desta ação é o suposto uso de armas químicas contra a população civil por parte das tropas fiéis ao presidente Bashar al Assad. Com espantosas imagens de apoio aos seus argumentos, a oposição síria denunciou a utilização de armas químicas em um ataque lançado pelas tropas de Al Assad, em 21 de agosto passado, em Ghuta oriental e Muadamiyet al-sham, dois setores situados na periferia de Damasco e controlados pelos rebeldes. Segundo estes, a ofensiva deixou um saldo de mais de 1.300 mortos. Do total de treze ataques com armas químicas, denunciados tanto pela oposição como pelo regime – ambas as partes se acusam mutuamente –, a missão da ONU, dirigida pelo cientista sueco Aake Sellström, só foi autorizada a verificar três. Os inspetores, 11 no total, já recolheram as primeiras provas sobre a existência de gases químicos empregados na semana passada.

Paris, Londres e Washington apontaram sem ambiguidade para o presidente sírio. O secretário de Estado norte-americano, John Kerry, disse que o ataque “deve sacudir a consciência do mundo” e recalcou que Al Assad deve “responder por essa atrocidade”. Kerry também esclareceu que o governo sírio é o único que detém esse tipo de arma. Mais direto, o chefe da diplomacia francesa, Laurent Fabius, disse que “é evidente que a chacina teve sua origem no regime de Bashar al Assad. Há uma chacina química estabelecida, há a responsabilidade de Bashar al Assad; falta uma reação e estamos nesse ínterim”.

Não há, até o momento, nenhuma decisão formal que tenha sido adotada, mas as trombetas da guerra ressoam nas principais capitais ocidentais cujos países são membros do Conselho de Segurança da ONU: Estados Unidos, França e Grã-Bretanha. Dos outros dois membros, China e Rússia, Beijing preconizou a prudência, enquanto que Moscou fechou fileiras atrás de Damasco. O ministro russo de Relações Exteriores, Sergey Lavrov, disse: “Estou preocupado com as declarações de Paris e Londres, de acordo com as quais a OTAN poderia intervir para destruir as armas químicas na Síria sem a autorização do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Trata-se de um terreno movediço e perigoso, assim como de uma grosseira violação do direito internacional”. Com respeito a este ponto, ou seja, intervir sem o aval da ONU, o chanceler francês disse que isto é possível “em determinadas circunstâncias”.

A Alemanha também se somou ao coro da guerra. O chefe da diplomacia alemã, Guido Westerwelle, declarou: “a utilização de armas químicas de destruição em massa seria um crime contra a civilização. Caso o emprego dessas armas se confirmar, a comunidade internacional deve agir. Nesse caso, a Alemanha fará parte daqueles que apóiam as consequências”.

Cabe assinalar que as potências ocidentais não são as únicas que promovem sanções militares contra a Síria. A Turquia também se somaria a uma eventual coalizão. As razões são óbvias: hostil ao presidente sírio Al Assad, a Turquia está na primeira linha do conflito. Desde que este eclodiu, em 2011, centenas de milhares de sírios se refugiaram em território turco. Segundo o ministro turco de Relações Exteriores, Ahmet Davutoglu, seu governo está disposto a apoiar uma coalizão internacional contra a Síria, inclusive se esta não contar com o aval da ONU. Davutoglu assegurou que “outros 36 ou 37 países estão discutindo, atualmente, essa eventualidade”.

As modalidades dessa intervenção são uma cópia de exemplos passados, como o de Kosovo. Em 1999, em nome da “urgência humanitária”, a administração norte-americana de Bill Clinton lançou um ataque sob o amparo da OTAN contra o regime do presidente sérvio Slobodan Milosevic, e isso sem a prévia autorização do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Em virtude do artigo VII da Carta da ONU, o Conselho é o único que pode autorizar o recurso à força. A operação em Kosovo durou 78 dias e deixou um saldo controvertido do que depois se chamou de “danos colaterais”, isto é, a morte de inocentes.

O procedimento da guerra sem a permissão da ONU foi utilizado vários vezes, especialmente pelo ex-presidente norte-americano George W. Bush quando invadiu o Iraque, em 2003. Em um dos exemplos mais degradantes e mentirosos da história mundial, Bush e a coalizão que o apoiou atacaram o Iraque em base a falsos documentos que supostamente provavam que o presidente Saddam Hussein, morto, teria depósitos de armas de destruição em massa. Essas armas passaram a ser, depois, “armas de desaparecimento em massa”, porque nunca foram encontradas.

No que diz respeito à Síria, os partidários da intervenção militar cirúrgica têm vários argumentos ao alcance, entre eles o Protocolo de Genebra, de 1925, que proíbe o emprego de gases asfixiantes. Os observadores militares alegam que a operação na Síria deveria ser breve e sem o emprego de tropas. Seu ponto de partida seria um dos quatro barcos norte-americanos que estão no Mediterrâneo, apoiados depois pelos mísseis cruzeiro franceses e britânicos. O esquema parece estar armado. Só falta que alguém aperte o gatilho por primeiro.

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