12 Agosto 2013
Uma "nova atitude" da cooperação e de equidade deve reger as relações entre o Vaticano e as irmãs católicas de todo o mundo, disse um eminente cardeal do Vaticano em maio.
A reportagem é de Joshua J. McElwee e Biagio Mazza, publicada no sítio National Catholic Reporter, 08-08-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Essa atitude, afirmou o cardeal João Braz de Aviz, deve ser fundamentada no entendimento de que tanto a hierarquia da Igreja quanto as irmãs "são duas dimensões essenciais na Igreja".
"Nenhuma é maior do que a outra", disse Braz de Aviz. "Tanto a dimensão profética quanto a dimensão de governo formam a Igreja".
Braz de Aviz, prefeito da Congregação para os Religiosos do Vaticano, fez os seus comentários em maio, em Roma, durante uma conferência no encontro trienal da União Internacional de Superioras Gerais (UISG), um grupo de cerca de 2.000 lideranças religiosas femininas católicas de todo o mundo.
Embora as declarações do cardeal às irmãs receberam uma grande atenção na época, o texto completo da conferência de Braz de Aviz nunca foi tornado público.
Entre outros pontos abordados pelo cardeal encontram-se:
• Como as ordens religiosas que enfrentam a falta de vocações devem responder: "Devemos nos preparar para a morte apenas quando Deus quer que morramos, não quando nós pensamos que deveríamos".
• A dificuldade de continuar os ministérios com números reduzidos de irmãs: "Entre carismas e obras, devemos optar pelos carismas e abrir mão das obras".
• Um sistema de classes na Igreja que separa homens ordenados de irmãs e leigos: "Quando nos tornamos cristãos no batismo, adquirimos uma dignidade, uma dignidade única de filhos e filhas de Deus e de irmãos e irmãs uns dos outros. Essa é a nossa dignidade. Não há nenhuma outra dignidade".
• Sua compreensão sobre a ética cristã básica: "A vida cristã é essencialmente isto: amar primeiro, amar a todos, amar sem fim".
Braz de Aviz está na Congregação vaticana, oficialmente conhecida como a Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica, desde 2011. Ele supervisiona o trabalho de cerca de 1,5 milhão de irmãs, irmãos e padres de todo o mundo em ordens religiosas.
O cardeal respondeu a perguntas da assembleia no dia 5 de maio, durante um encontro com cerca de 800 membros da UISG, todas líderes das comunidades religiosas de todo o mundo, que se reuniram em Roma entre os dias 3 a 7 de maio para se focar no tema da liderança servidora.
Falando na parte da tarde, depois de celebrar a missa com as irmãs no início do dia, Braz de Aviz frequentemente fez pausas durante as suas respostas para rir e para acolher os vários aplausos constantes.
O que segue é a primeira parte da conversa em maio de Braz de Aviz com as religiosas de Roma, com pequenas edições devido ao contexto. Braz de Aviz, natural do Brasil, falou em italiano. Biagio Mazza, um italiano que atua como associado pastoral em uma paróquia da região de Kansas City, providenciou a tradução para o NCR.
Uma representante da UISG fez perguntas a Braz de Aviz em nome das irmãs, que criaram as perguntas em grupos de discussão no dia anterior. Ela fez várias perguntas ao mesmo tempo e deixou que o cardeal respondesse longamente.
Eis o diálogo.
Vamos começar com uma pergunta com a qual estamos todos muito familiarizados. Como você vê a vida religiosa hoje? Como você vê o seu futuro? Qual é a sua experiência e a sua perspectiva sobre a vida religiosa?
Antes de começar, quero lhes agradecer por esta oportunidade que vocês me deram para dialogar com vocês, com a coordenação da UISG. Temos visto essa coordenação acontecendo, trabalhando juntos e mostrando interesse da sua parte, e não apenas da minha. Isso é bom – algo muito bom.
Agrada-me o fato de que não foram estabelecidos limites para o que coração de vocês deseja me dizer – o que vocês realmente estão pensando –, para verdadeiramente abordar aquelas coisas que são do nosso interesse, e não apenas para passar um tempo juntos.
As minhas respostas e considerações vêm de mim tanto como ser humano, uma pessoa como vocês, quanto como bispo da Igreja, alguém que colabora de perto com o Papa Francisco pelo bem de todo o mundo.
Pelo que sabemos, existem 1,5 milhão de homens e mulheres consagrados no mundo – ao menos pelo que sabemos. O Espírito Santo, no entanto, sabe mais do que nós. Há, mais ou menos, 2.000 congregações que são institutos pontifícios. O cuidado por todos eles é a principal preocupação de todos nós. Eles são da nossa casa, da nossa competência, e nos preocupamos com eles como se fossem a nossa vida.
Estamos em um momento em que muitas coisas estão vindo à luz, dando vida e crescendo. Mas há muitas coisas que estão morrendo. Por exemplo, nesta semana, recebemos o aviso do nosso núncio apostólico na Holanda de que, dentro de uma década, não haverá mais nenhuma vida consagrada na Holanda.
Estou muito entristecido com essa perda da vida consagrada – me desculpem, eu quis dizer vida consagrada contemplativa, contemplativa. Graças a Deus, nós acabamos de salvar inúmeras congregações da extinção. O foco do relatório era sobre a vida consagrada contemplativa.
A vida consagrada tem um futuro. Eu acho que Deus traz carismas para a Igreja não para deixá-los morrer, mas para lhes permitir que estejam a serviço e amem o povo de Deus. Se os carismas vêm de Deus, então eles são as palavras de Deus doadas ao longo da história.
Os carismas grandes e pequenos certamente devem viver. Eles vivem através das nossas vidas de testemunho ao longo dos tempos e no tempo. Aqui reside a dificuldade. Depois que cada carisma conquista um grande número de seguidores – três mil, dois mil, cinco mil, nove mil pessoas –, eles se tornam, depois, menores em termos de número e quase sempre desaparecem. Pensamos que, se há apenas uma pessoa que vive sinceramente esse carisma, o carisma existe.
A questão da ars moriendi – a arte de morrer – é verdade, mas deve ser bem compreendida. Devemos nos preparar para a morte somente quando Deus quer que morramos, não quando nós pensamos que deveríamos. É importante saber disso, pois não somos os donos do carisma. Os carismas são dados a nós por Deus. Eles não são nossos. Nenhum de nós inventou um carisma. Não é verdade?
Os nossos fundadores sofreram muito quando começaram o seu trabalho, mesmo que não tenham percebido que estavam começando algo novo. Dessa forma, o mesmo dinamismo e sintonia deveria nos dirigir hoje com relação aos nossos carismas. É essencial que não tenhamos medo de voltar para a intuição fundamental central do nosso carisma, não tendo medo de voltar para essa intuição, olhando claramente para ela e abrindo o nosso coração para o que nossos fundadores queriam dizer e fazer. Voltemos a essa intuição sem medo.
Hoje, isso é muito necessário, e há muita ajuda disponível para vocês: o magistério, o Santo Padre, o Concílio, tantas coisas. Mas devemos prestar atenção ao nosso fundador e não nos afastarmos ou perdermos os nossos carismas. Afastando-nos do nosso carisma, nós declaramos a morte desse carisma. Nós decretamos essa morte, e não Deus.
Também é necessário olhar para o caminho já tomado pela ordem naqueles pontos de referência mais importantes: a Palavra de Deus, a intuição dos fundadores, os momentos ou tempos de maior fidelidade aos carismas. Tudo isso nos ajuda a ver as coisas mais claramente. Em tempos de crise, olhem para o que aconteceu e olhem para aqueles momentos como uma oportunidade de aprendizagem, de renascimento para hoje, enquanto caminhamos na nossa jornada.
Entre carismas e obras, devemos optar pelos carismas e abrir mão das obras. Não todas as obras, mas apenas aquelas que não conseguimos mais dar continuidade, porque somos menos em número. Por isso, abram mão delas. Abram mão. Para quem devemos abrir mão delas? Para a comunidade eclesial, para outros carismas, para que não percamos essas boas obras que foram acontecendo.
As obras vieram depois dos fundadores, mas não os carismas. Os carismas vieram com o fundador. Se mantivermos as obras e fugirmos dos carismas, em poucos anos eles deixarão de existir. Vemos isso todos os dias.
Vemos algo muito significativo no espírito de comunhão. É um princípio fundamental que devemos adquirir. Faltam-nos alguns pontos claros de compreensão do verdadeiro significado dessa espiritualidade de comunhão. Eu espero esclarecer isso hoje neste diálogo que estamos tendo. Temos que pensar e olhar para isso de perto. Esse é o caminho que devemos tomar juntos.
A UISG é totalmente moderna, ativa e real. Vocês devem continuar assim e ainda mais, se possível, porque é uma jornada de comunhão. Isso é extraordinário.
Vocês devem aprender a sabedoria da fraqueza/vulnerabilidade. O nosso esposo é um esposo crucificado. A sabedoria da fraqueza/vulnerabilidade é a sabedoria da cruz, escândalo para alguns, loucura para outros. Mas, para nós, é a sabedoria de Deus. É necessário entrar nesse estranho caminho que nós não entendemos completa ou claramente. Mas esse é o caminho para a sabedoria. Voltaremos sobre isso mais tarde.
Em meio aos nossos problemas, devemos dar um exemplo extraordinário: devemos ser profetas da esperança. Existem muitas dificuldades e problemas. Sabemos nos nossos corações as muitas dificuldades e problemas que vocês têm como madres gerais. Sabemos disso graças aos contatos que temos com vocês. É necessário manter a esperança.
Nos nossos escritórios, emitimos ao menos de três mil a quatro mil documentos de afastamento das comunidades a cada ano. O nosso coração está muito ferido e entristecido com isso. As razões para o afastamento são sempre semelhantes: "Estou saindo porque não estou mais feliz".
Eles não dizem: "Eu já não tenho uma vocação". Ao contrário: "Eu não estou feliz". Eu sei que existem muitas outras razões além dessa, mas isso é um sinal.
Nas nossas perguntas, havia muito sobre a relação entre a vida religiosa e os bispos. Algumas perguntavam: 'Quais poderia ser as causas do fato de que essas relações entre os nossos pastores e a nossa vida religiosa são tão difíceis? Qual pode ser a causa?'. E, em segundo lugar: algumas pessoas pensam que parece haver mais confiança nos novos movimentos leigos do que na vida religiosa. E a tensão entre as conferências episcopais e as conferências dos religiosos é muito bem conhecida. Você tem sugestões sobre como resolver essas questões para alcançar a comunhão? Às vezes, pensamos que a construção da comunhão implica submissão. O dicastério pode fazer alguma coisa para pressionar por uma teologia da vida religiosa na formação dos seminários?
A primeira coisa necessária é voltar ao Concílio] Vaticano II, a fim de voltar ao Evangelho. O Concílio não é meramente uma sugestão, uma boa intenção. É algo muito significativo que ainda precisamos realizar plenamente.
A Igreja é o povo de Deus reunido em assembleia na unidade do Pai, do Filho e do Espírito Santo.
1. Em primeiro lugar, se olharmos para a Igreja, ela geralmente parece ser uma estrutura de classes. Bem organizada, mas, no entanto, uma estrutura de classes.
2. Nós falamos bem da Trindade, mas é algo que está longe de nós. É essencial entender o que o mistério trinitário significa.
Quando nos tornamos cristãos no batismo, adquirimos uma dignidade, uma dignidade única de filhos e filhas de Deus e de irmãos e irmãs uns dos outros. Essa é a nossa dignidade. Não há outra dignidade. O papa, os cardeais, os religiosos não têm mais dignidade ou valor do que uma mãe ou um pai de família, do que aqueles que trabalham nos escritórios ou nas nossas fazendas.
Esse é um problema sério para nós, porque nós transformamos a Igreja, e até mesmo as nossas congregações, em algo que não está de acordo com Deus. Muitas vezes, eu sou cumprimentado por outras pessoas, mas os outros que estão comigo não são cumprimentados, simplesmente porque não são cardeais. Isso não deveria ser assim.
Quando eu vou visitar as suas congregações e vocês, como madres gerais, eu também gosto de ir até a cozinha para ver quem está trabalhando lá, para abraçá-los, para tirar uma foto com eles. Há aqueles que são muito tímidos e podem optar por fugir de mim, mas eu vou atrás deles para vê-los, para abraçá-los. Alguns veem essas minhas ações como malvadas, destrutivas, que fazem mal e não o bem.
Às vezes, acontece que algumas pessoas aparecem para nos ver nos nossos escritórios, mas, pelo fato de não serem superioras, são mandadas embora. Isso não deveria ser assim. Talvez ela fosse alguém que realmente precisava de ajuda.
Talvez, neste momento particular, vocês não podem vê-las, mas talvez em 30 minutos vocês possam. Sempre há uma forma de resolver a situação com um sorriso, ao invés de uma atitude de cima para baixo. Vocês podem lhes explicar o que vocês precisam fazer depois de ouvi-las, e não antes.
Precisamos criar essa sensação de cuidado e de preocupação pelos nossos irmãos e irmãs. É um esforço que devemos fazer. Nunca digam que vocês não têm tempo. O problema existe lá naquele momento. Precisamos estar lá para a pessoa. São coisas que precisamos mudar entre nós mesmos.
Ordens e congregações ricas dedicadas à pobreza devem se tornar congregações que distribuem mais os seus bens. Isso forma comunidades que fazem o bem não apenas nas suas próprias congregações, mas com os outros, com a Igreja. Onde há abundância, por que não fazê-la circular?
Se somássemos todo o nosso dinheiro, formaríamos o banco central de um país. Há muito dinheiro entre nós.
Temos membros das nossas congregações que vêm de outros países, porque precisamos deles para continuar o trabalho necessário. Nós os colocamos para trabalhar, embora não lhes permitamos participar na definição da direção da ordem, porque eles têm que cuidar da cozinha, do escritório, da lavanderia, mas não da direção da ordem, porque nós dizemos que eles não são maduros o suficiente.
Geralmente, nós agimos dessa forma. Isso está certo ou é preconceito? Há muita coisa que precisamos mudar. Isso também se aplica a mim mesmo. Eu também preciso mudar.
Com relação à construção da comunidade entre nós: isso é o mais importante. Nessa área, existe uma grande dificuldade entre as congregações e os bispos. Está melhorando. As coisas ficariam ainda melhores se tivéssemos duas coisas:
1. Um vigário episcopal para os religiosos em cada diocese. Isso ajuda muito a manter a estabilidade na diocese, porque essa pessoa se torna um ponto de referência, já que os bispos normalmente não conseguem fazer isso muito bem.
2. Uma comissão à qual todos os problemas sejam levados e sejam tratados conjuntamente. Isso ajudaria muito e seria algo muito concreto.
Quando os problemas surgem, é essencial ouvir os pontos de vista dos outros, a fim de chegar a uma boa decisão. Muitas vezes há coisas muito complicadas. Há outras coisas às quais estamos apegados. Nessas situações, eu prefiro as palavras de Jesus: "Se alguém te pede o casado, dá-lhe ainda mais".
Precisamos ter um coração mais aberto. Tudo deve ser feito com justiça. Devemos sempre infundir essa jornada com o espírito de comunhão, porque servimos à Igreja.
Para entender isso, temos que refletir sobre o fato de que tanto o carisma quanto a hierarquia são duas dimensões essenciais na Igreja. Nenhuma é maior do que a outra. Tanto a dimensão profética quanto a dimensão de governo formam a Igreja.
Mas uma nova atitude deve nos reger – não a competição, mas sim uma atitude de acolhida. Isso é algo que podemos aprender com o Papa Francisco: a capacidade de ouvir e de fazer gestos de acolhida.
Os bebês agora estão muito felizes, e os guardas vaticanos nunca carregaram ou seguraram tantos bebês quanto agora. O seu olhar atento [do papa] é algo extraordinário. Ele se certifica de que as pessoas não sejam negligenciadas. Esse modo de agir também deve ser a nossa forma de nos comportarmos, seja o bispo ou qualquer outra pessoa. Isso deve ser feito com todos aqueles com os quais interagimos, não importa a diferença ou a diversidade.
Às vezes, no esforço das nossas congregações de resolver um problema, nós recebemos uma carta forte de alguém. Eu peço que essa carta seja devolvida e seja reescrita de uma forma mais fraterna – o mesmo problema, mas expressado com uma linguagem mais fraterna. A mesma coisa que muitas vezes nós dizemos gritando, nós podemos dizer sorrindo. Por que não escolher sorrindo? Você vai viver mais se preferir sorrir, pois isso lhe torna mais descontraído e mais em paz.
A natureza e as relações fraternas entre nós devem ser reconquistadas. Mas vocês dirão: "Essa pessoa não vai agir dessa forma". Saibam que aquele que ama é o primeiro a agir. A vida cristã é essencialmente isto: amar primeiro, amar a todos, amar sem fim.
Não é fácil, mas vamos conseguir. Amar, amar, amar. Ponham mãos ardentes de amor sobre a cabeça dos outros e, no fim, eles ficarão ardendo e serão tocados pelo amor.