A reviravolta ''neutra'' de Francisco: chega de intervencionismo na política italiana

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09 Julho 2013

Não é mais hora de raios bioéticos. O papa oferece às instituições italianas uma aliança sobre as emergências sociais. Uma agenda apertada de medidas em apoio às camadas mais necessitadas e contra a ausência de futuro das novas gerações. Não mais testes de catolicidade para os inquilinos dos palácios romanos, mas sim colaboração sobre os temas quentes da crise atual. O que está em ação é uma mudança de estratégia, um retorno à grande tradição diplomática da Santa Sé que foi de todos os pontífices da segunda metade do século XX.

A reportagem é de Paolo Rodari, publicada no jornal La Repubblica, 05-07-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

As duas audiências que Francisco concedeu nessa quinta-feira ao primeiro-ministro italiano, Enrico Letta, e ao prefeito de Roma, Ignazio Marino, evidenciaram bem o que, a partir do dia 13 de março passado, com o encerramento do conclave, iniciou novamente nas relações entre a Igreja e o mundo da política e das instituições.

Uma tática diferente, que mostra um primeiro e principal sinal de descontinuidade entre Francisco e o seu antecessor, Bento XVI, que, quando recebeu no Vaticano Walter Veltroni, prefeito de Roma, o repreendeu publicamente pelos "ataques insistentes e ameaçadores" contra a família tradicional. Enquanto o secretário de Estado, Tarcisio Bertone, fez o mesmo com o "católico adulto" Romano Prodi à época dos Pacs [Pactos Civis de Solidariedade]. Um "modus operandi" ao qual todos, em primeiro lugar a Conferência Episcopal Italiana, estão tentando se adequar.

Francisco pediu a Letta luzes em torno das "principais provas" de que a Itália e a União Europeia estão apoiando a propósito da adoção de medidas que criem e protejam os empregos, principalmente juvenis. E, ao mesmo tempo, também as preocupações com o Oriente Médio.

Enquanto com Marino – dias atrás, na Praça de São Pedro, o prefeito já havia se encontrado com o papa e havia lhe presentado deu o livro escrito com o amigo comum Carlo Maria Martini – ele falou de fragilidade social, do desconforto das periferias, "do nosso compromisso com uma cidade que ofereça as mesmas oportunidades de estudo a um menino ou a uma menina, independentemente da classe social a que pertence".

Aquilo sobre o qual o papa não se deteve em nada foram as chamadas questões "inegociáveis", aqueles problemas que há muito tempo contrapõem a Igreja Católica à cultura dominante: aborto, eutanásia, casamento homossexual. Temas presentes nas agendas políticas de governo e administração local, assim como os temas sociais. Porém, nenhuma referência.

Por quê? No Vaticano, explicam assim: é uma questão de estratégia. O papa prefere manter a reserva sobre as questões que afetam sensivelmente a esfera política, em vez de expressar fortemente os pontos de vista da Igreja, chegando, de fato, a agravar as distâncias.

Certamente, o católico Letta não assusta a Igreja nesse quesito. Porém, o Partido Democrático, do qual até poucos meses atrás ele era vice-secretário, tem ideias precisas acerca da maior parte dessas questões sensíveis. Marino, ao invés, no papel, parece se preocupar mais. Era o dia 2 de junho quando, no jornal Avvenire, o jornal dos bispos, apareceu um apelo dirigido a Marino e a Gianni Alemanno, assinado por representantes de associações católicas romanas e nacionais (pela Scienza e Vita e pelo Forum Famiglie, passando pela Retinopera, até o Rinnovamento nello Spirito e o MCL; ma com as ausências da Ação Católica, das Acli, de Santo Egídio, dos Focolarinos), no qual se pediu que os dois tomassem posição no que diz respeito à liberdade de escolha educativa para os pais e para as escolas paritárias, o tema da vida nascente, o dos registros dos testamentos biológicos, e também sobre a proteção da família, com um pedido para dizer se eles querem instituir registros "para as uniões civis homossexuais". Marino não respondeu a esse apelo. Tanto é que, poucos dias depois da eleição, foi ainda o Avvenire que insistiu na questão, intitulando-se assim: "Campidoglio, risco de desvio nos valores".

O papa e os bispos italianos pensam de forma diferente? Certamente não. Mas talvez estes últimos estão compreendendo só agora, a passos lentos, a nova estratégia papal. Nessa quinta-feira, Letta e Marino foram recebidos com suas respectivas famílias. O abraço dado ao prefeito de Roma foi caloroso, quase incomum. Tudo correu bem. Por enquanto, nada parece ser como antes.