03 Junho 2013
Os ganhos dos trabalhadores nas negociações salariais diminuíram no Sul mesmo num cenário de expansão do emprego. Um levantamento preliminar do escritório do Departamento Intersindical de Estudos e Estatísticas Socioeconômicas no Rio Grande do Sul (Dieese/RS) com sete categorias que têm data-base entre janeiro e maio indica que o índice médio de aumento real neste ano caiu para 1,1%, ante 2,1% obtidos pelos mesmos sindicatos em 2012. Em Minas, os acordos deste início de 2013 também estão pagando reajustes reais menores.
A reportagem é de Sérgio Ruck Bueno e Marcos de Moura e Souza e publicada pelo jornal Valor, 03-06-2013.
Os reajustes dos pisos salariais em geral também caíram, embora ainda superem os índices concedidos para as faixas superiores. Segundo o supervisor técnico do Dieese em Santa Catarina (Dieese/SC), José Álvaro Cardoso, isso acontece porque o aumento mais acentuado do salário mínimo acaba "empurrando" os pisos para cima, mas na opinião de sindicalistas eles continuam "vergonhosos".
O levantamento do Dieese/RS inclui securitários, motoristas de ônibus, professores da rede privada e trabalhadores em indústrias moveleiras, gráficas, metalúrgicas e de material plástico. Conforme o supervisor técnico da entidade, Ricardo Franzoi, o argumento recorrente dos sindicatos patronais para endurecer na mesa de negociação é que os ganhos reais foram elevados nos últimos anos e por isso a média salarial alta pesa sobre o caixa das empresas.
Para Cardoso, do Dieese/SC, o desempenho tímido da economia favorece a posição das empresas e a inflação mais alta reduz os ganhos reais porque os empregadores relutam em conceder índices brutos maiores. As justificativas para os aumentos reais menores incluem a alta do preço das matérias-primas, lucros em queda, mercados retraídos, desindustrialização devido ao aumento das importações, inadimplência dos clientes e até os reflexos do baixo crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) em 2012, de apenas 0,9%.
"A negociação foi bem mais difícil neste ano", afirma o presidente do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias Químicas, Farmacêuticas e de Material Plástico de Caxias do Sul, Adão Rodrigues. Com data-base em maio, os 2 mil funcionários das indústrias plásticas do município vizinho de Bento Gonçalves, representados pela entidade, conseguiram neste mês um reajuste total de 8,25%, ante 7,5% no ano passado, mas com o aumento do INPC nos últimos 12 meses, o ganho real caiu de 2,5% para 1% no período.
Segundo o presidente do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias da Construção e do Mobiliário de Caxias do Sul (data-base em março), Antônio Olírio Silva, apesar da falta de mão de obra, o aumento real caiu para 1,4% em 2013, ante 3,6% no ano passado. "As empresas alegam a desaceleração da economia e dizem que já deram muito aumento real nos últimos anos", diz o sindicalista. Os operários da construção civil da cidade até conseguiram um ganho real de 4,9% no piso, ante 3,8% em 2012, mas os moveleiros tiveram queda de 1,7% para 1,1%.
Os 32 mil professores do ensino privado do Rio Grande do Sul, com data-base em março, também amargaram uma queda no aumento real de 1% para 0,23%, mesmo índice concedido neste ano para o piso, que em 2012 subiu 5% acima da inflação.
Em Santa Catarina, o Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias Mecânicas de Joinville, com data-base em abril, viram o aumento real minguar de 1,9% em 2012 para 1% neste ano, embora o aumento do piso tenha avançado de 3,4% para 4,9% acima do INPC acumulado no período. "Continua faltando mão de obra e as empresas continuam dizendo que estão quebradas", reclama o presidente do sindicato, Evangelista dos Santos.
Para o Sindicato dos Metalúrgicos de Joinville, a queda no ganho real foi maior, de 3% em 2012 para 1% em abril neste ano, relata o secretário geral da entidade, Vítor Zavodini. "As empresas sempre reclamam, mas neste ano foi mais difícil porque elas alegaram que 2012 foi muito complicado", explica. Em Brusque, o Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias de Fiação e Tecelagem conseguiu, em maio, apenas 0,78% de aumento real, ante 0,95% em 2012.
Em Minas Gerais, duas categorias importantes com data-base em março fecharam acordos com ganho acima da inflação inferior a 1%. Os comerciários de Belo Horizonte e de parte da região metropolitana receberam 7,5%, sem descontar a inflação acumulada de 6,63%. Segundo o presidente do sindicato, José Alves Paixão, foi um ganho semelhante ao de 2012.
Os trabalhadores dos setores de transportes de passageiros, também com data-base em março, conseguiram um reajuste de 7,14%, abaixo dos 9% obtidos em 2012, segundo o Sindicato dos Trabalhadores de Transportes Rodoviários de Belo Horizonte.
Quem tem data-base em maio, no entanto, tem enfrentado mais dificuldade. "Nosso pedido inicial foi de aumento real de 10%, acima do INPC, mas tivemos que enxugá-lo nas negociações porque as empresas falam em crise, em dificuldades financeiras", diz Jefferson Rufino, da diretoria colegiada do Sindicato dos Gráficos de Minas Gerais. A proposta (ainda em negociação) caiu para 2%. No ano passado, diz ele, o aumento real foi de pouco mais de 1%.
Os metroviários de Belo Horizonte pedem 10% além do IPCA de 6,14%. "A CBTU está oferecendo 4,7%, sem descontar a inflação. No ano passado já não tivemos a reposição da inflação e agora eles querem isso de novo", disse Vicente de Paula Silva, diretor intersindical do Sindicato dos Metroviários.