Seita com 6 mil adeptos em Minas cai na mira da PF

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29 Abril 2013

Uma seita que arrebanha integrantes na capital paulista para trabalhar sem salário em fazendas e indústrias no interior de Minas Gerais já reúne cerca de 6 mil pessoas. Para ser aceito no "mundo paralelo" do grupo Jesus A Verdade que Marca, é preciso, segundo a polícia e ex-integrantes, doar casa, carro e os demais bens para os líderes e obedecê-los cegamente. As regras incluem a proibição do marido dormir com a mulher, o confinamento em fazendas e alojamentos e o veto a TV e internet.

A reportagem é Artur Rodrigues e Marcio Fernandes e publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, 28-04-2013.

Durante a Operação Canaã, deflagrada pela Polícia Federal na terça-feira, dois líderes da seita - cujos nomes não foram revelados - acabaram presos por apropriação indébita ao serem flagrados com cartões do Bolsa-Família de integrantes do grupo. Para a PF, o discurso religioso é um atrativo para cooptar mão de obra escrava. "É um grupo extremamente fechado, que busca pessoas em situação vulnerável e as mantém nas propriedades com uma alta carga de doutrinação", diz o delegado João Carlos Girotto.

O advogado do grupo, Leonardo Carvalho de Campos, argumenta que as fazendas nas cidades de Minduri, São Vicente de Minas, Madre de Deus e Andrelândia são apenas associações de agricultura comunitária.

Depoimentos de ex-integrantes destoam do que ele diz. Um aposentado de 72 anos conta que o pastor Cícero Vicente de Araújo, líder da seita, o convenceu a doar tudo o que tinha porque "todas as estradas iam se fechar e colocariam chips na cabeça das pessoas". "O pastor disse que só quem fosse para aquela região de Minas conseguiria viver bem." Há três anos, o homem tenta reaver na Justiça os R$ 32 mil de um carro e parte do dinheiro de uma casa que vendeu para aderir à seita. Para manter os fiéis, o ex-adepto conta que os pastores afirmavam que as pessoas que saíssem seriam amaldiçoadas. "Eles diziam que os demônios destruiriam aqueles que saíssem e passavam uns filmes da inquisição."

Carne

Apesar de todos se tratarem por irmã ou irmão, os ex-membros relatam disparidade de tratamento. "Eu passava as noites limpando tripa, cabeça e pé de boi para comermos. A carne ia para os líderes", contou uma ex-adepta da seita, de 42 anos, que vendeu a casa e doou para o grupo. A vigilância é outra característica, diz ela. "Minhas duas filhas, de 20 e 22 anos, ficaram lá e há dois anos não as vejo." Um médico do Programa de Saúde da Família conta que os integrantes não ficam desacompanhados nem durante as consultas.

A PF não localizou o pastor Araújo. A suspeita é de que ele esteja articulando a expansão da seita para a cidade de Ibotirama (BA). Publicamente, o grupo tenta se desvincular do caráter religioso e formou seis associações de agricultores. A polícia crê que as entidades, com fazendas arrendadas, sirvam como fachada para um esquema de lavagem de dinheiro, supressão de direitos trabalhistas e formação de quadrilha. Uma lista com nome dos eleitores fará a investigação verificar a possibilidade de manejo político. Dois vereadores da região são identificados com a seita. Ex-fiéis afirmam que Araújo os arrebanhou em igrejas na Lapa, zona oeste da capital, e Osasco. Os templos mudam constantemente de endereço. A PF averigua a existência de um novo na região da Sé.

'Para entrar, doei duas casas e um carro'

Carlos (nome fictício), de 48 anos, diz ter entrado no grupo Jesus A Marca da Verdade após ouvir os "bonitos ensinamentos" do pastor Cícero Araújo. Vendeu o que tinha e mudou de São Paulo com a família para o interior de Minas. Por três anos, viveu sob regras duras e trabalhou como pintor sem receber um centavo. Até perceber que havia caído "numa fria".

Qual é a filosofia da seita?

A filosofia era... todo mundo entrou achando que fosse uma coisa e era outra.

Como era?

Na igreja, era muito bom. O pastor falava direitinho, ensinava a ser honesto, ensinava a não negar a verdade. Era um ensinamento bonito, não vou negar para você. Contagiava a pessoa.

Como o senhor decidiu mudar para a comunidade?

A gente fez reunião, decidiu dar o que tinha.

O pastor pediu?

Ele falava tanta coisa...

O senhor vendeu tudo?

Tinha duas casas e um carro, né? Deu R$ 39 mil. Doei. Aí trabalhei lá como pintor.

E o senhor não ganhava nada?

Não. Só casa e comida. Para ganhar um par de calçado, era um sacrifício...

Como eram as regras?

Homem dormia separado de mulher, diziam que sexo era pecado.

É permitido sair da casa?

Tem de pedir autorização. E só acompanhado.

Por que não saiu antes?

A gente fica impactado.

Como foi quando o senhor avisou que ia sair?

Disseram que eu estava amaldiçoado, que iria para o inferno.

Pediu suas coisas de volta?

Pedi. O pastor Araújo disse para eu ir à Justiça.

O senhor conseguiu algo?

Passaram uma casa para o meu nome... O carro eu trabalhei para comprar outro.

Há quem não consiga sair?

Tem. Imagina uma pessoa com 50 anos, com 15 lá dentro, sem contato com parente. Já deu tudo que tinha...

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