A verdadeira Igreja dos pobres. Artigo de Michael Löwy

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01 Abril 2013

É difícil prever qual será o futuro do cristianismo da libertação na América Latina. O seu enraizamento sociorreligioso lhe permitiu se manter, apesar da oposição ativa dos dois últimos pontífices.

A opinião é do sociólogo franco-brasileiro Michael Löwy, pesquisador emérito do CNRS. Seus livros e artigos são dedicados à atualização do pensamento marxista e à sua relação com o espírito da utopia e do messianismo religioso. Entre suas obras: La Guerre des dieux. Religion et politique en Amérique latine (Ed. du Felin, 1998); Rédemption et utopie. Le judaïsme libertaire em Europe centrale. Une étude d'affinité élective (Ed. du Sandre, 2009); La Cage d'acier. Max Weber et le marxiste wébérien (Ed. Stock).

O artigo foi publicado no jornal Le Monde, 31-03-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

O primeiro papa latino-americano, Francisco, parece querer se distinguir das ideias e das práticas do seu antecessor, referindo-se a São Francisco de Assis e colocando a pobreza no centro do seu pontificado. Tendo a mesma origem sul-americana, o Papa Francisco é próximo da teologia da libertação? Podemos duvidar disso...

O que é normalmente designado como teologia da libertação – um corpus de textos produzidos desde 1971 por figuras como Gustavo Gutiérrez, Hugo Assmann, Frei Betto, Leonardo Boff, Pablo Richard, Enrique Dussel, Jon Sobrino, Ignacio Ellacuría, para citar apenas os mais conhecidos – nada mais é do que a expressão intelectual e espiritual de um vasto movimento social, nascido ao menos uma década antes, que se manifesta através de uma estreita rede de pastorais populares (da terra, operária, urbana, indígena, da mulher), de comunidades eclesiais de base, de grupos de bairro, de comissões de justiça e paz, de formações da Ação Católica, que assumiram de maneira ativa a opção preferencial pelos pobres.

Não na forma tradicional da caridade, mas como solidariedade concreta com a luta dos pobres pela sua libertação. Sem a prática desse movimento social – que poderíamos chamar de cristianismo da libertação – não se pode compreender fenômenos sociopolíticos importantes na história recente da América Latina como o avanço da revolução na América Central Nicarágua, El Salvador –, o surgimento de um novo movimento operário e agrícola no Brasil, ou a sublevação zapatista em Chiapas.

Uma religião comunitária de salvação

O cristianismo da libertação e, em particular, as comunidades eclesiais de base não se enquadram nem no paradigma de "Igreja", nem no de "seita", mas, ao contrário, do que o sociólogo Max Weber (1864-1920) chamava, em 1915, de uma religião comunitária de salvação, isto é, uma forma de religiosidade fundamentada em uma ética religiosa de fraternidade – cuja fonte é a antiga ética econômica de vizinhança – e que pode desembocar, em certos casos, em certos casos, em um "comunismo de amor fraterno".

Se fosse preciso resumir a ideia central do cristianismo da libertação em uma única fórmula, poder-se-ia referir à expressão consagrada pela Conferência Episcopal Latino-Americana de Puebla (1979): "opção preferencial pelos pobres". Qual é a novidade? A Igreja não esteve sempre atenta caritativamente ao sofrimento dos pobres? A diferença – capital – é que, para o cristianismo da libertação, os pobres não são mais percebidos como simples objetos (de ajuda, de compaixão, de caridade), mas como os sujeitos da sua história, os atores da sua libertação.

O papel dos cristãos socialmente engajados é de participar nessa longa marcha dos oprimidos rumo à Terra prometida, a liberdade, dando-lhes a sua contribuição à sua auto-organização e autoemancipação social. A outra diferença com a posição caridosa e a tradição de assistência da Igreja – bem representada pelo novo papa argentino – foi formulada há anos pelo cardeal brasileiro Dom Helder Câmara: "Quando dou comida aos pobres, me chamam de santo. Quando pergunto porque eles são pobres, chamam-me de comunista...".

O principal adversário da ditadura

Ao longo dos anos 1960 e 1970, regimes militares se impuseram em muitos países da América Latina: Brasil, Chile, Argentina etc. Os militantes do cristianismo da libertação participaram ativamente da resistência a essas ditaduras e contribuíram muito com o seu declínio a partir dos anos 1980. Foram um fator importante, e às vezes até decisivo, da democratização desses países. No Brasil, ao longo dos anos 1970, a Igreja dos pobres apareceu, diante dos olhos da sociedade civil e dos próprios militares, como o principal adversário da ditadura, um inimigo mais poderoso (e radical) do que a oposição parlamentar tolerada (e dócil).

Ao contrário do caso brasileiro, na Argentina, a Igreja, historicamente próxima do autoritarismo do Exército, apoiou majoritariamente a atroz ditadura militar responsável, ao longo dos anos, de 1976 a 1983, por 30 mil mortos ou "desaparecidos".

Muitos cristãos, membros do clero ou leigos, pagaram com a vida pelo seu engajamento na resistência aos regimes autoritários na América Latina, ou simplesmente pela sua denúncia das torturas, dos assassinatos e das violações aos direitos humanos. Isso aconteceu em El Salvador com o arcebispo Oscar Romero, morto por paramilitares em março de 1980, e com Ignacio Ellacuría e seus cinco colegas jesuítas da Universidade Centro-Americana de El Salvador, assassinados em novembro de 1989 pelo Exército.

O Vaticano condenou em 1985, mediante a Congregação para a Doutrina da Fé (cujo prefeito era o cardeal Joseph Ratzinger, futuro Bento XVI), a teologia da libertação como uma heresia "ainda mais perigosa por estar perto da Verdade"... Para o Vaticano, a regra continua sendo: Roma locuta, causa finita (Roma falou, o caso está encerrado).

Mas os teólogos da libertação continuaram, cada um do seu modo, defendendo a sua interpretação do cristianismo. Alguns, como Leonardo Boff, preferiram deixar a Igreja para manter a sua liberdade de expressão; outros, como Gustavo Gutiérrez, evitam os conflitos intraeclesiásticos, sem, porém, renunciar às suas convicções e ao seu compromisso.

Integrar os desafios do multiculturalismo

Isso não significa que o seu pensamento não evoluiu. Ao contrário, ela abriu novos canteiros de obras, analisando a opressão das mulheres, das comunidades negras, dos indígenas, acolheu os desafios do multiculturalismo e da ecologia, do pluralismo religioso e do diálogo interconfessional.

E, para começar, submeteu à crítica, teológica e política, o neoliberalismo, a nova forma que, na América Latina, esse sistema assumiu, aos seus olhos intrinsecamente perverso, que é o capitalismo.

Nesse contexto, certos teólogos desenvolveram uma nova relação com o pensamento de Marx, para criticar o capitalismo neoliberal como uma falsa religião, fundamentada na idolatria do mercado e do deus Mammon. Para esses teólogos, como Hugo Assmann ou Franz Hinkelammert, os novos ídolos capitalistas que são o lucro, o dinheiro, a dívida externa, como aqueles denunciados pelos profetas do Antigo Testamento, são Molochs que exigem sacrifícios humanos, uma imagem usada pelo próprio Marx em O Capital. A luta do cristianismo da libertação contra a idolatria mercantil é, aos seus olhos, um confronto entre deuses, entre o Deus da vida e os ídolos da morte (Jon Sobrino) ou entre o Deus de Jesus Cristo e a multiplicidade dos deuses do Olimpo capitalista (Pablo Richard).

Novo paradigma civilizatório

Ao longo dos últimos anos, a crítica do capitalismo está cada vez mais associada, para os teólogos da libertação, com a problemática ecológica. O pioneiro nesse campo foi Leonardo Boff, há muito tempo preocupado com o ambiente, que aborda, tanto em um espírito de amor místico e franciscano pela natureza, quanto em uma perspectiva de crítica radical do sistema capitalista. O novo paradigma civilizatório deverá se fundamentar em uma ética da vida e em uma solidariedade planetária.

Sem dúvida, a influência da teologia da libertação recuou em muitos países do continente. Após a nomeação de bispos por Wojtyla (João Paulo II) e por Ratzinger (Bento XVI), o episcopado latino-americano se tornou muito mais conservador. Mesmo aqueles que adotam posições progressistas em nível social compartilham as opções conservadoras do Vaticano contra o direito das mulheres de dispor do seu próprio corpo (divórcio, contracepção, aborto).

Dito isso, em um país como o Brasil, o cristianismo da libertação mantém uma presença importante, dentro das comunidades de base, das pastorais populares, dos movimentos leigos ou das redes como o Fé e Política, animado pelo teólogo dominicano Frei Betto, que reúne milhares de membros em todo o país.

Além disso, os cristãos socialmente comprometidos são um dos componentes mais ativos do movimento altermundista dos anos 2000, em particular, mas não só, no Brasil, ou seja, no país que acolheu as primeiras reuniões do Fórum Social Mundial. Um dos iniciadores do Fórum, Chico Whitaker, membro da Comissão Justiça e Paz da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, pertence a essa tendência.

É difícil prever qual será o futuro do cristianismo da libertação na América Latina. O seu enraizamento sociorreligioso lhe permitiu se manter, apesar da oposição ativa dos dois últimos pontífices. Independentemente da atitude do Papa Francisco com relação a ela, é provável que ele continue praticando obstinadamente aquele "comunismo do amor fraterno" do qual falava Max Weber...

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