Colômbia. Fome no rio dos milhões

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Por: André | 01 Abril 2013

Camponeses e mineiros marcharam 170 quilômetros até Medellín em protesto contra a construção de um megaprojeto energético, em decorrência do qual devem abandonar suas casas. Moram em casas emprestadas por uma Ong.

A reportagem é de Katalina Vásquez Gusmán e publicada no jornal argentino Página/12, 01-04-2013. A tradução é do Cepat.

Em um corredor escuro estão as panelas, as malas, as faixas e as pessoas deitadas no chão: alguns estão em colchonetes, outros em barracas, e alguns outros sobre cobertores ou deitados diretamente sobre o chão frio. Há mulheres, crianças menores de 10 anos, uma jovem grávida e, sobretudo, homens de corpos robustos e peles morenas, camponeses e mineiros que chegaram a Medellín em protesto contra a construção da hidrelétrica mais ambiciosa da história da Colômbia: a Hidroituango. Caminharam cerca de 170 quilômetros vindos dos vales e das montanhas que serão inundados, completamente, em 2018.

A represa terá capacidade para 2,7 bilhões de metros cúbicos de água e custará 5,5 bilhões de dólares. Embora se trate de uma obra pública, pois é financiada pela Empresas Públicas de Medellín (EPM), será construída por empreiteiras privadas. A empresa brasileira Camargo Correa é responsável por 55% das operações desse que será o maior projeto energético do país. Não é o primeiro negócio bilionário da Camargo Correa com a EPM: a Porce III foi outro megaprojeto de vultosos lucros para o Brasil. “É por nosso rio, pela defesa do território, porque queremos trabalhar a terra e viver no campo que estamos aqui. Eles nos oferecem oito milhões de pesos (cerca de 4.000 dólares) para renunciar a tudo, a tudo, para deixar para poucos, para trazer isso que chamam desenvolvimento. Desenvolvimento para quem? Para as empreiteiras? Para a EPM? Eu quero é trabalhar o rio como me ensinou meu pai e herdar isso aos meus filhos. Quando os oito milhões acabarem, já sem terra, sem rio, não há nada, apenas vir morar na miséria na cidade”, conta Jesús, tirando o chapéu e sacudindo os sapatos, dispondo-se a dormir em um plástico preto.

Há fome, dor de cabeça, bolhas nos pés e superpopulação nesta casa do centro de Medellín que lhes foi emprestada por uma ONG, quando, em 22 de março passado, tiveram que abandonar o campus da Universidade de Antioquia. Após cinco dias de marcha, juntaram-se aos estudantes para se mobilizar pelas ruas, exigir o diálogo com Sergio Fajardo, governador de Antioquia, com os funcionários da EPM (que, em 13 de março, não participaram do debate público sobre o tema) e denunciar à imprensa os ataques da polícia antimotim aos seus acampamentos na montanha. “Jogaram fora os nossos alimentos, os 'cambuches', as nossas coisas, tudo, e lançaram gases sobre nós; feriram um testículo de um familiar com uma esquírola. Foi quando saímos em disparada com idosos e tudo o mais por uns desfiladeiros e nos machucamos, e quando o tiroteio parou - porque o exército respondeu, ao princípio, pensando que era a guerrilha que estava explodindo essas coisas –, aí sim foi que saímos e decidimos andar mais um quilômetro”, conta Genaro “cansado, mas motivado, porque se tiram tudo de nós e protestamos, e nos atacam, então com mais indignação e vontade seguimos resistindo pacificamente”. A este respeito, o secretário de Governo de Antioquia, Santiago Londoño, disse que a força antimotins só agiu quando os que protestavam estavam obstruindo a via pública – que “é um crime” –, mas que desconhece os ataques aos acampamentos e os excessos de autoridade ao lhes tirar os alimentos. Genaro vivia das migalhas que as minas de ouro jogavam no rio Cauca. “Semanalmente, podíamos ganhar 500.000 pesos (250 dólares), ou caso não houvesse dinheiro, íamos pescar, colher bananas, e isso sem estresse. Hoje, sente-se a fome no rio”, acrescenta o homem.

A mídia local, no entanto, informou que a marcha em Medellín foi um simples protesto estudantil, e a longa caminhada do norte da província de Antioquia até chegar à capital apareceu apenas em um jornal nacional. “Sabemos que o correspondente do Teleantioquia (canal público) tem ordens para não veicular informações sobre a Hidroituango. Telefonamos e escrevemos ao El Espectador sem resposta. A EPM visita as salas de redação para controlar a informação a ser publicada. O nosso protesto foi invisibilizado e criminalizado. À EPM não convém que se divulguem as múltiplas irregularidades e descumprimentos no desenvolvimento do projeto”, disse ao Página/12 Isabel Zuleta, líder do Movimento Rios Vivos, que se opõe ao gigante hidrelétrico não apenas pelos impactos ambientais, “mas pela clara violação dos direitos humanos, do trabalho, da vida, dos protestos e da organização social”. Zuleta e outros 11 manifestantes foram vítimas de prisão ilegal em 16 de março passado. Foi quando os camponeses nos acampamentos decidiram ir até Medellín. Um dia depois, foram soltos.

Para Zuleta, uma das explicações que o Estado, e particularmente a EPM, deve à comunidade é por que o conflito armado (o deslocamento, os homicídios, as ameaças, os massacres) aumenta quando se anuncia o interesse de construir a super-represa nesta zona rica e biodiversa, nos anos 1980. Nas décadas seguintes houve sangrentas tomadas guerrilheiras e massacres paramilitares nessa região, deixando milhares de deslocados, que aumentam com a construção da represa. O governador de Antioquia, Sergio Fajardo, disse ao jornal El Tiempo que essa zona do país tem uma presença histórica das FARC, e também vínculos e relações sociais dos rebeldes com a comunidade. “Nós vamos romper essas relações, primeiro com um projeto desta envergadura e com todos os investimentos sociais”, declarou ao jornal. Isabel Zuleta reclama: “Se a Hidroituango é uma arma de guerra, então que o digam claramente, e que o Estado assuma as consequências sociais, culturais, políticas e a restauração dos direitos que isso implica”.

Atualmente, cerca de 130 camponeses continuam amontoados em uma casa de Medellín, enquanto três famílias se declararam deslocadas à força para ter acesso a ajudas outorgadas pelo Estado às vítimas. As autoridades locais não prestam ajuda humanitária ao grupo de civis, apesar das requisições feitas por escrito ao Dapard e ao prefeito de Medellín. Jaime Carrión, subsecretário de Direitos Humanos da cidade, disse a este jornal, que por lei os camponeses devem declarar ao Ministério Público para receber ajudas. Do contrário, devem financiar as necessidades ocasionadas por sua decisão autônoma de mover-se e protestar. A aventura dos marchantes continuará até Bogotá, caso amanhã [hoje] o governador Fajardo se negar, outra vez, a falar com eles.