15 Março 2013
"Não faz muito tempo, o hoje papa Francisco marcou uma posição importante frente aos seus conterrâneos. Disse ele que a dívida social na Argentina é imoral, injusta, e que o país deveria pagar por isso. Bergoglio cresceu em uma Argentina de classe média e, com o passar dos anos, assistiu ao cenário se transformar com o crescimento da pobreza, a expansão da periferia e a disseminação do contraste social na sociedade", escreve Rodrigo Cardoso, jornalista da Revista IstoÉ, em artigo que nos foi enviado e publicamos a seguir.
Segundo o jornalista, "No Brasil, vivemos problemas idênticos ao que Bergoglio viu em sua terra natal – a Argentina, nos anos 1990, assistiu a pobreza que assolava 4% da sua população saltar para quase 30%. A desigualdade social brasileira é igualmente escandalosa. Contra ela o governo tenta fazer a sua parte, mas ainda está longe de solucioná-la".
Eis o artigo.
Os brasileiros devem deixar a rivalidade de lado em relação aos Hermanos argentinos e dar graças a Deus pela ascensão do cardeal Jorge Mario Bergoglio ao sumo pontificado da Igreja Católica. Não faz muito tempo, o hoje papa Francisco marcou uma posição importante frente aos seus conterrâneos. Disse ele que a dívida social na Argentina é imoral, injusta, e que o país deveria pagar por isso. Bergoglio cresceu em uma Argentina de classe média e, com o passar dos anos, assistiu ao cenário se transformar com o crescimento da pobreza, a expansão da periferia e a disseminação do contraste social na sociedade. Agora, depois de sua trajetória mostrar a sua opção por uma vida simples longe das benesses que o requinte do seu cargo eclesiástico poderia lhe proporcionar, Francisco quer presidir a Santa Sé sob o manto da caridade e não a partir do poder. A igreja católica brasileira não poderia esperar um aceno melhor.
“A Igreja precisava de uma primavera, porque vivemos em um inverno há muito tempo”. É que afirma o teólogo Leonardo Boff, ex-padre franciscano, fazendo uma analogia à Primavera Árabe, uma onda revolucionária de protestos que mudou a configuração política em países do Oriente Médio e da África.
No Brasil, a Igreja carrega em sua história, principalmente depois dos anos 1950, o compromisso de viver para estar ao lado dos pobres, dos vulneráveis, dos socialmente enfraquecidos. Em menor quantidade do que antigamente, é verdade, mas hoje temos por aqui bispos com raízes populares, que dialogam com autoridades de outras crenças, que fazem greve de fome e não recuam frente a ameaças de morte. “É certo, portanto, que vamos assistir a um fortalecimento do trabalho social feito pela Igreja no Brasil”, acredita Francisco Borba, coordenador do Núcleo Fé e Cultura da Pontifícia Universidade Católica (PUC), de São Paulo.
No Brasil, vivemos problemas idênticos ao que Bergoglio viu em sua terra natal – a Argentina, nos anos 1990, assistiu a pobreza que assolava 4% da sua população saltar para quase 30%. A desigualdade social brasileira é igualmente escandalosa. Contra ela o governo tenta fazer a sua parte, mas ainda está longe de solucioná-la. Enquanto isso, as autoridades católicas não conservadoras ou reacionárias daqui sofreram, principalmente nos dois últimos pontificados, com a opção da Cúria romana pelo cristianismo europeu e a pouca preocupação com o modo de fazer teologia na América Latina. Daí a má-vontade com a teologia da libertação, como opina o teólogo Jorge Claudio Ribeiro, da Pontifícia Universidade Católica (PUC), de São Paulo, vista como algo exótico pela sociedade européia.
É provável, então, que com um papa que abdicou da abundância de um palacete para tropeçar nos pobres nas ruas, a Conferencia Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), cujas campanhas de fraternidade demonstram uma forte faceta em torno da preocupação com os problemas sociais, receba maior apoio para as suas batalhas diárias. O perfil mais pastoral e menos filosófico do papa Francisco pode, também, contribuir para a Igreja nacional tentar estancar a crise institucional causada pela baixa ordenação de padres. Considerando-se o número de fiéis no Brasil – 123 milhões se assumem católicos – seria razoável que existisse por aqui pelo menos 120 mil sacerdotes – 1 para cada mil católicos. Atualmente, porém, o país conta com 22 mil padres, dos quais sete mil são estrangeiros. Muito pouco para atender as demandas da multidão de fiéis.
Esse vazio institucional permitiu a ascensão de outras denominações religiosas – o grupo dos evangélicos, principalmente. E é assim porque o cristão brasileiro é mais místico do que doutrinário e, dessa forma, procura – quando está à procura, já que cresce os que viram as costas para as religiões – quem mais fala de Jesus, de Deus, da Bíblia. “Precisamos estar presentes para dialogar e não ter embates com outras religiões”, diz o padre e teólogo jesuíta João Batista Libânio. Para ele, a expansão dessa ou daquela denominação não é o problema. Muito mais preocupante é um líder religioso que explora o povo “Temos, então, de pensar no povo e não na Igreja Católica, porque ela, assim como qualquer outra, não é o céu, mas sim o povo”, conclui.
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