O fascínio do papado

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06 Março 2013

Em qualquer caminhada da vida, a temporada de campanha sempre traz as pessoas para fora da toca com algo a dizer ou a se queixar, e Roma, na corrida para o iminente conclave, certamente não é nenhuma exceção.

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada no sítio National Catholic Reporter, 05-03-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Ao longo dos últimos dias, pessoas de uma desconcertante variedade de origens e perspectivas têm tentado fazer-se ouvir acima do barulho, alguns de forma bastante eficaz, outros de um modo francamente estranho.

Dentre os primeiros, a Rede de Sobreviventes de Abusados por Padres [SNAP, na sigla em inglês], o principal grupo de defesa das vítimas de abuso clerical nos Estados Unidos, tem realizado de coletivas de imprensa regulares no Hotel Orange, em Roma, e divulgado declarações sobre as questões à medida em que elas surgem, como a renúncia do cardeal Keith Patrick O'Brien, da Escócia. A SNAP está gerindo uma operação midiática inteligente e rápida e tem se destacado como a voz crítica mais importante sobre a crise dos abusos sexuais no período pré-conclave.

Mais descarado foi um ativista italiano de cerca de 20 anos que se mostrou na última quinta-feira em frente a uma grande plataforma de TV no fim da Via della Conciliazione, a grande rua que leva até a Praça de São Pedro, pouco antes que o papa decolasse em seu helicóptero e se dirigisse para Castel Gandolfo.

Naquele momento, a plataforma estava cheia de âncoras e de convidados de várias redes globais, todos comentando a partida do papa. Eles tiveram uma surpresa quando o jovem tirou a roupa, ficando de cueca (apesar das temperaturas muito frias), levantou um megafone e começou a gritar: "Ratzinger encobre pedófilos!".

O manifestante gritava tão forte que a maioria dos comentaristas teve que fechar os seus microfones por alguns minutos, até que a polícia italiana gentilmente tirou o seu megafone. Ele não foi preso, mas ele não voltou para a plataforma desde então.

A corrida ao papado sofreu uma reviravolta incomum no fim de semana, quando cartazes de campanha começaram a pipocar ao redor de Roma divulgando a candidatura do cardeal de Gana, Peter Turkson, com um retrato do prelado rezando com as palavras: "Vote Peter Kodwo Appiah Turkson".

Os cartazes, basicamente, são uma paródia das eleições nacionais italianas, que acabaram coincidindo com a renúncia de Bento XVI, mas há ao menos uma pessoa que os está levando a sério: o próprio Turkson, que silenciosamente está avisando que ele não tem absolutamente nada a ver com eles.

Assim como em outras eleições, há também alguma campanha negativa no ar. Recentemente, eu recebi um e-mail de um canadense que queria chamar a minha atenção para uma carta aberta ao cardeal Marc Ouellet, publicada na mídia canadense em 2005 e assinada por um grupo de leigos que acusou Ouellet de tornar o catolicismo do Quebec um "motivo de chacota", porque, sob a sua supervisão, ele havia sido "sequestrado pelo fundamentalismo".

Obviamente, essa pessoa não espera que Ouellet surja da Capela Sistina como o próximo papa.

Depois, existem os excêntricos que um grande evento da Igreja sempre atrai.

Há dois dias, por exemplo, eu notei um senhor mais velho, vestido elegantemente, esperando por mim assim que saí da plataforma da CNN. Ele perguntou se havia algum lugar privado onde pudéssemos conversar, e eu o levei a uma das cabines improvisadas que as equipes de TV montaram.

Ele me entregou um envelope marrom sobre o qual ele havia escrito "Top Secret" e extraiu alguns papéis. Em resumo, ele alegava que havia apresentado as suas revelações privadas ao Papa João Paulo II no início dos anos 1990 que o papa havia baseado nelas todas as decisões posteriores do seu papado – a nova evangelização, o ano do Jubileu, a aproximação aos ortodoxos, tudo isso.

Naturalmente, o que esse homem, que era romeno, queria fazer era oferecer o seu ponto de vista sobre o próximo papa, que ele está convencido de que vem com o mesmo certificado de sobrenaturalidade. (Eu vou pular os detalhes, porque nem eu tenho certeza de ter entendido – tem algo a ver com a Grande Pirâmide de Gizé.)

Na segunda-feira, o clima entre os cardeais parecia jogar um balde de água fria sobre qualquer percepção de uma corrida rumo ao conclave. À noite, a Sala de Imprensa do Vaticano anunciou que os cardeais não se reuniriam nas tardes de terça e quarta-feira.

Entre agora e quando quer que seja que eles realmente entrarão na Capela Sistina, Roma provavelmente continuará se enchendo de ativistas, especialistas e visionários, todos competindo por atenção. A atmosfera beira o caos, mas também é um lembrete da inacreditável diversidade da Igreja e o fascínio singular exercido pelo papado.