O índice de miséria e a popularidade de Dilma

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23 Novembro 2012

O crescimento vai mal, mas a sensação de bem-estar da população vai bem, obrigado. A combinação do desemprego com a inflação acumulada em 12 meses - o chamado índice de miséria - oscila desde março em níveis muito baixos para padrões brasileiros. Em agosto, ficou em 10,3 pontos, resultado de uma taxa de desocupação de 5,1%, com ajuste sazonal, e de um Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) em 12 meses de 5,2%, segundo números da MB Associados. Essa foi a mínima da série que se iniciou em março de 2002, quando entrou em vigor a nova Pesquisa Mensal de Emprego (PME), do IBGE. Em outubro, o indicador ficou um pouco mais alto, atingindo 10,8 pontos, ainda assim um nível confortável, com o desemprego em 5,3% e a inflação em 5,5%.

A reportagem é de Sergio Lamucci e publicada pelo jornal Valor, 23-11-2012.

A trajetória do indicador ajuda a explicar a popularidade altíssima da presidente Dilma Rousseff, mesmo num ano em que o Produto Interno Bruto (PIB) terá um crescimento fraco, na casa de 1,5%. O grande trunfo é sem dúvida o mercado de trabalho aquecido, como mostrou a PME de outubro, divulgada ontem. A ocupação cresceu 3% em relação ao mesmo mês de 2011 e o rendimento médio, 4,6% acima da inflação. O IPCA em 12 meses, por sua vez, tem rodado num nível relativamente incômodo, acima do centro da meta, de 4,5%, mas bem abaixo dos mais de 7% registrados há cerca de um ano.

Combinados, os dois indicadores reforçam a percepção das famílias de que a situação econômica é positiva, ainda que o crescimento tenha empacado. O desemprego está nas mínimas históricas e os índices de preços não estão em trajetória explosiva.

Quando Dilma foi eleita, no fim de 2010, o índice de miséria estava na casa de 12 pontos. No quarto trimestre daquele ano, o desemprego oscilou entre 6,2% e 6,4% e o IPCA em 12 meses, entre 5,2% e 5,9%. Em 2010, porém, o PIB cresceu 7,5%.

O indicador foi criado pelo economista americano Arthur Okun no começo dos anos 70, com o nome de índice de desconforto. Na eleição de 1980, o republicano Ronald Reagan, que concorria com o então presidente democrata Jimmy Carter, o rebatizou como índice de miséria.

O número, claro, é uma simplificação. Precisa ser visto com cautela. Um resultado baixo não necessariamente reflete uma situação de bem-estar. É possível ter um índice de miséria comportado num cenário em que a inflação é baixa, mas o desemprego é muito alto, como ocorre hoje nos Estados Unidos. Desde abril, o indicador americano está abaixo de dez pontos, com a inflação em 12 meses variando entre 1,4% e 2%, e a taxa de desocupação entre 7,8% e 8,3%.

No Brasil, as previsões para a taxa de desemprego e para a inflação em 2013 sugerem que o índice de miséria vai continuar próximo do nível atual. Bancos e consultorias projetam que a desocupação ficará igual ou até um pouco abaixo da taxa deste ano. Para a inflação, as instituições consultadas semanalmente pelo Banco Central estimam um IPCA de 5,39% em 2013, próximo dos 5,45% previstos para este ano. Se concretizado, é um cenário que contribuirá para sustentar a elevada popularidade da presidente.

A exuberância do mercado de trabalho parece contratada também para 2013. A atividade econômica voltou a ganhar força, ainda que o ritmo não seja dos mais empolgantes. Há falta de trabalhadores qualificados em vários setores e a transição demográfica em curso no país reduz a oferta de mão de obra. Esses fatores devem garantir a manutenção da taxa de desemprego na casa de 5,5%.

Indicador combina inflação e taxa de desemprego

No caso da inflação, há mais incertezas. A esperada redução das tarifas de energia elétrica poderá tirar algo como 0,6 ponto porcentual do IPCA no ano que vem, mas há outras possíveis fontes de pressão sobre os preços. Se a tendência recente de desvalorização do câmbio persistir, haverá impacto sobre a inflação. Os preços de serviços continuam a subir na casa de 8% em 12 meses. Com o mercado de trabalho aquecido, eles tendem a seguir pressionados.

A percepção mais ou menos disseminada hoje é de que o Banco Central não se incomoda se a inflação ficar entre 5% e 5,5%, reagindo apenas se houver o risco de o IPCA chegar perto de 6%. Em 2011 e 2012, o mau desempenho da economia global e o crescimento fraco do PIB brasileiro ajudam a justificar por que o BC não buscou a ferro e fogo a convergência da inflação para o centro da meta, de 4,5%.

As projeções, contudo, sugerem que o alvo tampouco será atingido no próximo ano. Desse modo, a inflação acumulada entre 2010 e 2013 ficará em mais de 25%, considerando na conta as estimativas do Boletim Focus do BC para o IPCA deste ano e do ano que vem. É uma alta não desprezível, que acarreta aumento de custos na economia. Afeta empresas e trabalhadores que não conseguem ganhos reais de salários, ainda que hoje esses sejam minoria.

A inflação mais pressionada também corrói a desvalorização do câmbio em termos reais, porque os preços brasileiros aumentam mais rápido do que os dos principais parceiros comerciais. Para a própria competitividade da economia, seria importante que o IPCA convergisse para o centro da meta, o que também manteria o índice de miséria em níveis confortáveis.

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