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14 Novembro 2012

"Na Semana da Cultura Negra que vai de 14 a 20 de novembro em que já os negros costumam celebrar seu herói maior Zumbi que arregimentou os escravos nos quilombos para a grande arrancada da libertação, neste ano de 2012, em que está sendo lançado o Ano da Fé-2013, decidimos, que, na catedral metropolitana de Porto Alegre, realizaremos uma celebração ecumênica com nossos irmãos negros, celebrativa dos Mártires de Porongos, que sofreram a morte por degola, vítimas dos vilões farroupilhas que lhes haviam prometido a liberdade caso lutassem por eles na malsinada guerra dos grandes fazendeiros cognominada guerra dos farrapos", escreve Antonio Cechin, irmão marista e miltante dos movimentos sociais, autor do livro Empoderamento Popular. Uma pedagogia de libertação. Porto Alegre: Estef, 2010.

Segundo ele, "na catedral metropolitana de Porto Alegre, em lugar da missa costumeira, dia 14 de novembro, às 19 horas, teremos uma celebração ecumênica afro-brasileira tendo como pano de fundo os que foram para uma frente de batalha tangidos por generais de pijama, a fim de para si e para seu povo negro, garantir liberdade neste país em que devemos ser todos irmãos sem distinção de cor ou de nacionalidade".

Eis o artigo.

Até quando nossos irmãos do povo negro terão de aguentar esse falso tradicionalismo avassalador que, entra ano sai ano, tende a ocupar sempre mais espaços e que os grandes meios de comunicação não se cansam de badalar como nossa cultura gaúcha por excelência?

No ano de 1977, a serviço do empoderamento das Comunidades Eclesiais de Base, escrevemos uma brochurinha intitulada “São Sepé Tiaraju, rogai por nós!” O bispo Dom Pedro Casaldáliga que, junto com outro bispo, Dom Tomás Balduíno, estava à frente do CIMI, tendo tomado conhecimento da figura do herói-santo assim reconhecido pelo povo guarani e agora retomado pelos movimentos populares nascentes, decidiram aproveitar o nosso fervor rio-grandense em torno da figura popular de Sepé, a fim de proclamar o ano de 1977 como o Ano dos Mártires Indígenas de toda a América Latina, em preparação da grande Assembleia de Puebla, como marco comemorativo dos 10 anos da primeira grande assembleia realizada em Medellin, que funcionara como uma adaptação das conclusões do Concílio Vaticano II para a realidade do continente Ameríndio.

Justificava Dom Pedro: “Nós cristãos estamos habituados a reconhecer e a celebrar somente os mártires que os outros nos fazem. Ignoramos tranquilamente os muitos mártires que nós, descendentes de europeus, fazemos aos outros”.

Foi lançada então a Missa da Terra Sem Males como uma liturgia penitencial nossa, de europeus e de descendentes de europeus, como um pedido de perdão aos milhões de índios que foram chacinados ao longo da história e sem solução de continuidade até os dias de hoje como está acontecendo neste exato momento, no estado do Mato Grosso com o povo guarani kaiová. Em carta à nação, pedem estes índios hoje, que venha o poder desde Brasília, que os extermine a todos de uma vez; com trator abra uma única grande cova a fim de enterrá-los absolutamente a todos, na terra que sempre foi sua porque de seus antepassados desde milênios.

Três anos atrás, outro grande amigo dos povos indígenas, José Roberto de Oliveira, pesquisador e escritor, nos legou um livro que, de certa forma retoma o espírito da Missa da Terra Sem Males. A obra vem com o título “Pedido de Perdão ao Triunfo da Humanidade”. De novo vem enfocado o desconhecimento e o consequente descaso que nós, os rio-grandenses do sul, temos a respeito da rica experiência guarani-missioneira dos Sete Povos das Missões, declarados que foram pelo conhecido iluminista da revolução francesa Voltaire, contemporâneo das Missões Jesuíticas da América Latina, que declara o jeito de viver sócio-econômico-político-cultural dentro de um regime eminentemente solidário, a ponto de causar-nos verdadeira inveja a nós que a cada ano nos reunimos em Fóruns Sociais Mundiais e nos impregnamos de toda uma ânsia de um mundo diferente e solidário, quando tudo isso que refletimos hoje já foi vivido há quatrocentos anos atrás nas Sete lindas cidades que são designadas como os Sete Povos.

À Missa da Terra Sem Males ligada aos povos indígenas, seguiu-se a construção da Missa dos Quilombos em relação aos negros, por sugestão de Dom Hélder Câmara.

Aqui no Rio Grande do Sul estamos em dívida, como cristãos, com o povo negro que, com grande esforço está recuperando sua história heroica perante todas as discriminações de que foram vítimas durante séculos de escravidão.

Na Semana da Cultura Negra que vai de 14 a 20 de novembro em que já os negros costumam celebrar seu herói maior Zumbi que arregimentou os escravos nos quilombos para a grande arrancada da libertação, neste ano de 2012, em que está sendo lançado o Ano da Fé-2013, decidimos, que, na catedral metropolitana de Porto Alegre, realizaremos uma celebração ecumênica com nossos irmãos negros, celebrativa dos Mártires de Porongos, que sofreram a morte por degola, vítimas dos vilões farroupilhas que lhes haviam prometido a liberdade caso lutassem por eles na malsinada guerra dos grandes fazendeiros cognominada guerra dos farrapos.

Será um pequeno gesto, mas verdadeiro pedido de perdão a todos os que sofreram a escravidão aqui nestas terras do sul. Resgataremos também a dimensão dos santos inocentes que foram as crianças negras escravas das quais o Negrinho do Pastoreio, consagrado por Simões Lopes Neto como uma figura emblemátira. Sabemos que o cientista francês Auguste de Saint-Hilaire que atravessou todo o nosso Rio Grande teve calafrios visitando as charqueadas tendo mesmo deixado uma pequena descrição do sofrimentos desses anjinhos inocentes quando narrou:

"Il y a toujours dans la salle un petit nègre de 10 à 12 ans, qui se tient debout prêt à aller appeler les autres esclaves, à donner un verre d'eau et à faire toutes les petites commissions nécessaires pour le service intérieur de la maison. Je ne connais pas une créature plus malheureuse que cet enfant. Il ne s'assied point, jamais on ne lui sourit, il ne joue jamais, il passe sa vie tristement appuyé sur la muraille et est souvent martyrisé par les enfants de son maître. Quand la nuit vient, le sommeil le gagne, et quand il n'y a personne dans la salle, il se met à genoux pour pouvoir dormir; cette maison n'est pas la seule où l'on ait ainsi l'usage d'avoir toujours un petit nègre auprés de soi pour s'en servir ainsi en cas de besoin". (Auguste de Saint-Hilaire. Voyage à Rio Grande do Sul. Orléans, H. Herluison, Libraire-Éditeur, 1887, p. 102)

"Há sempre na sala um negrinho de 10 a 12 anos, que se conserva de pé, pronto a ir chamar os outros escravos, a alcançar um copo de água e fazer todos os mandaletes, necessários ao serviço da casa. Não conheço criatura mais desgraçada que esta criança. Não se assenta nunca, nunca se lhe sorri, nunca brinca, passa a sua vida tristemente encostado a parede e muitas vezes é martirizado pelos filhos do seu senhor. Quando chega à noite, o sono o vence, e se ninguém existe na sala, ele se põe de joelhos para poder dormir; esta casa não é a única em que se conserva o uso de ter sempre, um negrinho perto de si, para dele assim se utilizar, em caso de necessidade." (Trad. de Alberto Coelho da Cunha. Antigualhas de Pelotas. Pelotas. Opinião Pública. 10.10.1928)

Na catedral metropolitana de Porto Alegre, em lugar da missa costumeira, dia 14 de novembro, às 19 horas, teremos uma celebração ecumênica afro-brasileira tendo como pano de fundo os que foram para uma frente de batalha tangidos por generais de pijama, a fim de para si e para seu povo negro, garantir liberdade neste país em que devemos ser todos irmãos sem distinção de cor ou de nacionalidade.

Em conchavos realizados entre federalistas e republicanos do sul, todos grandes fazendeiros, a fim de evitar o grito de libertação dos escravos que irromperia por todos os rincões desta enorme nação que é o Brasil, decidiram mandar tudo para as calendas gregas. Fato que só aconteceu legalmente mas não de verdade a 13 de maio de 1888. Em consequência, o Brasil passou para a história como o último país do mundo a realizar a libertação do povo negro. Povo que, hoje ainda está lutando por quotas nas universidades, na espera de poder-lhe fazer suceder outras cotas, em diversos outros setores absolutamente necessários até que possa recuperar na íntegra, sua dignidade como etnia.