23 Outubro 2012
Na Igreja nascente, Paulo se opôs a Pedro, que aceitou as críticas e que, por sua vez, observou como os escritos de Paulo requeriam uma leitura com discernimento e sabedoria. Tudo isso ocorreu no conflito, sim, mas sem "maldade". Ao invés, o que tivemos que ver e ler por ocasião da morte de Martini foi também a "maldade" de tantos que se dizem católicos, que se sentem Igreja com uma arrogância que gostaria de excluir da Igreja quem não pensa como eles.
A opinião é do monge italiano Enzo Bianchi, fundador da Comunidade de Bose, em artigo publicado na revista Jesus, de outubro de 2012.
Eis o texto.
"Apocalipse" não significa o que se entende na linguagem corrente, mas sim a operação com que se tira o véu, é revelado algo que estava escondido, se compreende com evidência o que antes não era possível ver. Muitas vezes, na vida cristã, há "apocalipses", seja em nível eclesial, seja em nível pessoal. Ora, a morte do cardeal Carlo Maria Martini foi um apocalipse sobre ele e sobre a Igreja italiana nos seus vários componentes.
De fato, foi extremamente significativo que a sua sepultura tenha ocorrido no dia da festa litúrgica de São Gregório Magno, o bispo de Roma que nos deixou um modelo exemplar de serviço de comunhão na Igreja como "servo dos servos de Deus".
Carlo Maria Martini gostava muito desse padre da Igreja que exerceu o ministério em um momento escuro da história do Ocidente, conservando um espírito pleno de esperança na história guiada pelo Senhor do universo mesmo quando a crise de um mundo – o romano – já era grave. Gregório foi o bispo que continuou sendo assíduo à leitura orante da palavra de Deus: "A Escritura cresce com quem a lê" foi a experiência que ele transmitiu aos seus irmãos e, munido dessa luz, não se assustou nem diante dos bárbaros, nem diante da vastidão da missão que se abria com relação a eles e nas suas terras distantes.
A Regra Pastoral escrita por Gregório foi o primeiro livro meditado por Martini depois da sua inesperada eleição a bispo. Desse texto, ele retirou o seu lema episcopal – Propter veritatem adversa diligere – e a essa Regra Martini voltava frequentemente para obter iluminação e inspiração para o seu ministério.
Apocalipse, dizíamos, pela feliz coincidência da memória do padre da Igreja, quase como um selo sobre a vida de Martini, uma "revelação" daquilo que ele representava para a Igreja, para aquele povo que sentiu a necessidade espontânea de desfilar diante dos seus restos mortais e de querer vê-lo e abraçá-lo enquanto se celebrava o seu funeral, o seu êxodo deste mundo ao Pai.
Bento XVI escreveu sobre Martini as palavras mais verdadeiras e discretas: foi "um homem de Deus". Não há honra e qualificação maior na vida cristã! Homem de Deus porque totalmente confiado, oferecido a Deus e à sua senhoria, única força capaz de determiná-lo nos seus pensamentos, nos seus sentimentos, nas suas ações. Como todo homem, Martini certamente também opôs as suas resistências à vontade de Deus, mas, pelo que a Igreja viu, ele tentou estar sempre e somente ao seu serviço e ao de nenhum outro, sem nunca buscar táticas ou estratégias, nem eclesiais, nem eclesiásticas.
Podemos dizer: no seu serviço pastoral, o cardeal Martini não buscou consensos fáceis e não fez batalhas contra ninguém. Na hora do conclave, como cristão sobretudo e com a determinação do jesuíta que não ambiciona cargos, não praticou estratégias nem antes nem durante o período para a eleição do papa, na confiança de que o Espírito Santo pode influenciar mais do que qualquer estratégia dos cardeais eleitores, quando estes não opõem resistência ao seu agir.
Martini foi assim: evangélico porque nunca comprometido com cálculos ou maquinações de astúcia eclesiástica e política. E nisso ele sabia que era compreendido por Bento XVI, que o estimava justamente pela sua transparência.
Mas o apocalipse ocorreu também para os opositores de Martini. Assim como para todos os pastores, é fisiológico que haja opositores, pessoas que não compartilham atitudes e escolhas pastorais de um bispo: faz parte da lei da comunhão que, para ser tal, sempre precisa das diferenças, das diversidades. Além disso, está escrito: "Ai de vocês, se todos os elogiam" (Lc 6, 26). Um pastor que não tenha oposições deveria se interrogar seriamente sobre o motivo: depende do fato de que incute medo e impede aos outros a crítica, ou da sua capacidade de seduzir todos ou de comprar o consenso de mil maneiras, ou por que não tolera a contradição? Ou por que não anuncia o Evangelho e Jesus Cristo, mas só o que agrada aos "idólatras" presentes na Igreja e no mundo?
Na Igreja nascente, Paulo se opôs a Pedro, que aceitou as críticas e que, por sua vez, observou como os escritos de Paulo requeriam uma leitura com discernimento e sabedoria. Tudo isso ocorreu no conflito, sim, mas sem "maldade". Ao invés, o que tivemos que ver e ler por ocasião da morte de Martini foi também a "maldade" de tantos que se dizem católicos, que se sentem Igreja com uma arrogância que gostaria de excluir da Igreja quem não pensa como eles.
Sim, foi a revelação dessa "maldade" da qual sempre somos mais testemunhas, ao menos há alguns anos: uma "maldade" que parece reinar de direito na Igreja e até agradar a alguns que, na Igreja, também ocupam altos cargos. Aqueles que espalham "maldades" em toda intervenção denunciaram a "heresia bonista" daqueles que simplesmente pensam que na Igreja a crítica sempre deve ser feita com respeito pelas pessoas! A opinião pública na Igreja – embora gravemente faltante – cria-se através do debate, da crítica também dura entre posições diferentes, mas, para ser eclesial, deve ocorrer sem "maldade", no respeito pelas pessoas e no reconhecimento da comum referência a Cristo, Senhor da Igreja.
Ao invés, não! Ou, melhor, esse "devorar-se mutuamente" – como deplorou Bento XVI – parece agradar cada vez mais a alguns eclesiásticos já que não falta quem se sinta encorajado... Basta ver como hoje são tratados alguns bispos na Igreja italiana: são denunciados, desprezados, acusados de não serem cristãos, de não terem a fé católica... E esses críticos se professam católicos. Portanto, perguntemo-nos: estão convencidos da objetividade cristã expressa em uma comunidade da qual os bispos são legítimos e eminentes pastores, sucessores dos apóstolos e postos pelo Espírito Santo para apascentar a Igreja de Deus? Que tristeza!