08 Outubro 2012
Com João XXIII, começou o maior e mais feliz evento do século XX e certamente também da minha vida pessoal.
A opinião é do cientista político e jornalista italiano Luigi Pedrazzi, publicada no jornal Europa, 06-10-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Eis o texto.
Eu tinha 32 anos quando o Concílio Ecumênico foi anunciado pelo Papa João XXIII em 1959, e 38 quando Paulo VI o concluiu em 1965. Eu senti um grande interesse por esse evento, tão notável e surpreendente na Igreja Católica, por aquele seu falar favoravelmente de ecumenismo. E de atualização no modo de comunicar e transmitir a tradição cristã. Ficou-me mais claro do que nunca como "fases" do passado que eu havia percorrido, importantes na minha vida de fé, mas também separadas umas das outras, eram impulsionadas pelo Concílio a se soldarem melhor entre si, a crescerem em significado e atualidade. Eu fiquei orgulhoso com isso, embora nenhum mérito fosse meu, mas só a sorte ou, mais exatamente, providência e graça dos tempos, que a fé judaico-cristã crê serem "governadas por Deus".
Eu me senti, então, pessoalmente mais agradecido: e mais seguro, no presente e também para o futuro, porque – lembrava-me de tudo muito bem – eu havia sido um menino que, na paróquia, se sentia melhor do que nos encontros da Opera Balilla [organização juvenil fascista]: um jovem que depois havia achado mais mais interessantes as atividades de uma congregação mariana dirigida pelos padres jesuítas do que aquelas oferecidas pela Juventude do Littorio.
Na Itália, o fascismo havia sido, aos meus olhos, uma farsa e muito prejudicial; eu tinha visto a monarquia Savoy acabar no "nulismo" de rei e príncipe, enquanto a Igreja havia se revelado muito mais sólida na sua equipe, presente na ajuda a muitos italianos nos problemas e bastante capaz de julgá-los sensatamente em dolorosas confusões também.
Nós havíamos ouvido com alegria o pontífice Pio XII, nas mensagens radiofônicas dos dois últimos anos de guerra, dizer que a democracia é o modo de governar mais respeitoso aos direitos humanos: agora, com teses elaboradas no Concílio, víamos o magistério de papas e bispos ir mais longe ao apontar formas e modos pacíficos que reconheciam justiça e liberdade de pensamento e de ação para pessoas e para grupos sociais e nacionais.
Fiquei muito feliz por ter visto um papa incomum em amabilidade e familiaridade, mas tão tradicional e tradicionalista em convicção e santidade a ponto de saber governar tão hábil e docemente uma grande Igreja pré-conciliar nas suas estruturas de formação e de governo curial. Eu tive a oportunidade, recém-terminado o Concílio, de ter sido convidado gentilmente por Gabrio Lombardi, que era presidente dos licenciados católicos, de proferir no seu congresso nacional uma conferência sobre a minha alegria e sobre o que eu pretendia fazer, pessoal e familiarmente, para me adequar a essa maravilhosa atualização e redescoberta de fontes antigas um pouco perdidas ao longo dos séculos.
Depois de meio século, eu já tinha 81 anos, quando chegou o 50º aniversário da eleição de Roncalli como Papa João XXIII: ficou claro para mim, quase de repente, que, com ele, de fato, começara o evento que foi o maior e mais feliz do século XX e certamente também da minha vida pessoal. Pareceu-me subitamente claro que eu devia fazer como que uma peregrinação dentro do Concílio, mês a mês: um pouco para conhecê-lo mais, muito para agradecer e bastante também por penitência, porque, apesar do encorajamento recebido dos textos conciliares, eu certamente não fiz muito para aumentar a sua recepção e a sua vontade de favorecer a sua implementação.
Por isso, com cerca de 50 amigos, decidimos nos escrever entre nós e enviar a amigos que no-la pedissem, uma carta por e-mail, todos os meses, que, como objeto, indicaria "O nosso 1958", sendo a eleição de Roncalli a pontífice (no dia 28 de outubro de 1958) a condição que se tornou absolutamente necessária para ter (nós e todos) aquela alegria e aquela grande ajuda para viver, fôssemos ou não conscientes e agradecidos.
Por amizade, isso encontrou desenvolvimentos comunicativos discretos, primeiro por e-mail e depois impressos. As cartas mensais aconteceram pontualmente, e a Pax Christi de Bolonha, em seu sítio, reúne o seu arquivo. Duas editoras nacionais (Claudiana e Mulino) publicaram até agora quatro volumes delas, com o título geral “Vaticano II in rete” (onde "rede" significa a distribuição eletrônica em rede, economizando o custo insustentável para nós de muitos selos; mas a "rede" de amigos que conosco se correspondem, com cartas e documentos, também merece ser aqui lembrada).
Os quatro volumes já publicados trazem os seguintes títulos: “Il nostro ’58” (2010), “Conservare le tradizioni poteva bastare?” (2011), “Migliorare e cambiare: come e perché” (2012), “Una lunga preparazione andata in fumo?” (2012). Os primeiros três volumes são editados por mim; o quarto, com uma organização mais sistemática editada por Sandra Mazzolini, propõe uma antologia dos esquemas preparatórios mais importantes, rejeitados ou abandonados no Concílio (o que aconteceu com todos, exceto com aquele referente à reforma litúrgica).
A série prevê ao menos outros três volumes, embora apenas três cartas mensais anuais darão conta do trabalho do "canteiro de obras do Concílio em São Pedro", e outras nove cruzarão também contribuições e reflexões sobre temáticas relacionadas à recepção ocorrida e ainda em curso. Sobre os conteúdos dos livros publicados e sobre os projetos dos que estão programados, poderemos falar, eventualmente, em outra ocasião. A atualidade do Vaticano II, por mais problemática que se considere, seguramente é crescente, e não faltarão oportunidades para tentar aprofundar o seu significado e o seu valor.