12 Setembro 2012
Desde o funeral de Martini, na imprensa católica oficial se seguiu uma série de intervenções cujo única finalidade foi desvigorar o conteúdo desestabilizador das análises martinianas sobre o sistema de poder da Igreja atual. Preste-se bem atenção: não sobre a Igreja, mas sobre o seu sistema de poder e a consequente mentalidade cortesã.
A opinião é do teólogo italiano Vito Mancuso, ex-professor da Università San Raffaele, de Milão, em artigo publicado no jornal La Repubblica, 09-09-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Eis o texto.
Com um zelo tão inigualável quanto previsível, começou na Igreja a operação-anestesia com relação ao cardeal Carlo Maria Martini, o mesmo tratamento recebido por crentes incômodos como Mazzolari, Milani, Balducci, Turoldo, despotencializados da sua carga profética e apresentados hoje quase como inócuos coroinhas.
A partir da homilia de Scola para o funeral, na imprensa católica oficial se seguiu uma série de intervenções cujo única finalidade foi desvigorar o conteúdo desestabilizador das análises martinianas sobre o sistema de poder da Igreja atual. Preste-se bem atenção: não sobre a Igreja (que, ao contrário, na sua essência evangélica teria só a ganhar com isso), mas sobre o seu sistema de poder e a consequente mentalidade cortesã.
Refiro-me à situação assim descrita pelo próprio Martini durante um curso de exercícios espirituais na casa dos jesuítas de Galloro em 2008: "Certas coisas não se dizem porque sabe-se que bloqueiam a carreira. Esse é um mal gravíssimo da Igreja, principalmente naquela ordenada segundo hierarquias, porque nos impede de dizer a verdade. Busca-se dizer aquilo que agrada aos superiores, busca-se agir segundo o que se imagina que seja o seu desejo, fazendo assim um grande desserviço ao próprio papa".
E ainda: "Infelizmente, há padres que se propõem a se tornar bispos e conseguem. Há bispos que não falam, porque sabem que não serão promovidos a sedes maiores. Alguns que não falam para não bloquear a sua própria candidatura ao cardinalato. Devemos pedir a Deus o dom da liberdade. Somos chamados a ser transparentes, a dizer a verdade. É preciso uma grande graça. Mas quem consegue é livre".
O que é relevante nessas palavras não é tanto a denúncia do carreirismo, muitas vezes realizada também por Ratzinger tanto como cardeal quanto como papa, mas sim a terapia proposta, isto é, a liberdade de expressão, o ser transparente, o dizer a verdade, o exercício da consciência pessoal, o pensar e o agir como "cristãos adultos" (para retomar a conhecida expressão de Romano Prodi às vésperas do referendo sobre as questões bioéticas de 2005 que lhe custou o favor do episcopado e pesadas consequências para o seu governo).
É precisamente esse convite à liberdade da mente que fez de Martini uma voz fora do coro no ordenado rebanho do episcopado italiano e que inquieta ainda hoje o poder eclesiástico. Dizia ele nos Diálogos noturnos em Jerusalém: "Angustiam-me as pessoas que não pensam, que estão à baila dos eventos. Gostaria de indivíduos pensantes. Isso é importante. Somente então se fará a questão se são crentes ou não crentes".
Eis o método-Martini: a liberdade de pensamento, ainda antes da adesão à fé. Certamente, trata-se de uma liberdade que nunca é um fim em si mesma e sempre está estendida à honesta busca do bem e da justiça (porque, continuava Martini, "a justiça é o atributo fundamental de Deus"), mas só se chega a essa adesão ao bem e à justiça mediante o laborioso exercício da liberdade pessoal.
É esse o método que fascinou a consciência secular de todo ser pensante (seja crente ou não crente) e que, ao contrário, inquietou e inquieta o poder, particularmente um poder como o eclesiástico, baseado ao longo dos séculos na obediência acrítica ao princípio de autoridade . E é justamente por isso que os intelectuais orgânicos a ele estão tentando diluir o método-Martini.
Para se dar conta disso, basta ler as argumentações do diretor da Civiltà Cattolica segundo o qual "encerrar Martini na categoria liberal significa matar o porte da sua mensagem", e ainda mais o artigo no jornal Avvenire de Francesco D'Agostino, que apresenta uma perigosa distinção entre a bioética de Martini definida como "pastoral" (porque leva em consideração situações concretas das pessoas) e a bioética oficial da Igreja definida como teórico-doutrinal e, portanto, a seu ver, forçosamente "fria, dura, severa, cortante" (querendo suavizar a dose, o autor acrescenta entre parênteses "felizmente nem sempre", mas não se dá conta de que piora coisas, porque o equivalente a "nem sempre" é "na maioria das vezes").
Ora, se há uma coisa pela qual Jesus pagou com a vida é justamente o fato de ter lutado contra uma lei "fria, dura, severa, cortante" em favor de um horizonte de incondicional acolhida a todo ser humano na concreta situação em que se encontre. Martini praticou e ensinou a mesma coisa, tentando ser sempre fiel à novidade evangélica, por exemplo quando, em janeiro de 2006, após o caso Welby (a quem um mês antes havia sido negado o funeral religioso em nome de uma lei "fria, dura, severa, cortante"), escreveu que "não pode ser ignorada a vontade do doente, pois a ele compete – até mesmo do ponto de vista jurídico, salvo exceções bem definidas – avaliar se os tratamentos que lhe são propostos são eficazmente proporcionais".
Essa centralidade da consciência pessoal é o princípio central da única bioética coerente com a novidade evangélica, nunca "fria, dura, severa, cortante", mas sempre escrupulosamente atenta ao bem concreto das pessoas concretas.
Martini reiterou isso também na última entrevista, obviamente diminuída por Andrea Tornielli no jornal La Stampa, por ter sido "concedida por um homem cansado, fatigado e no fim dos seus dias", mas na realidade decisiva por causa da importância do interlocutor, o jesuíta austríaco Georg Sporschill, o coautor de Diálogos noturnos em Jerusalém.
Eis as palavras de Martini: "Nem o clero nem o Direito eclesial podem substituir a interioridade do ser humano. Todas as regras externas, as leis, os dogmas nos foram dados para esclarecer a voz interior e para o discernimento dos espíritos". Esse é o método-Martini, esse é o ensinamento do Vaticano II (veja-se Gaudium et Spes 16-17), esse é o núcleo do Evangelho cristão, e é paradoxal pensar em quantas críticas Martini tenha tido que suportar na Igreja de hoje para afirmar isso e em como nela se trabalha sistematicamente para ofuscá-lo.