''Martini antipapa? Na Igreja, a multiplicidade é uma riqueza''. Entrevista com Gianfranco Ravasi

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06 Setembro 2012

"Martini era fiel à doutrina tradicional, tinha uma fé rochosa e forte. Sobre a bioética, a atenção do cardeal era a de ver se não havia alguma faceta que merecesse ser considerada de maneira mais atenta...". O cardeal Gianfranco Ravasi, presidente do Pontifício Conselho para a Cultura, pouco antes de entrar no Duomo de Milão para o funeral do arcebispo Martini, respondeu às perguntas do Vatican Insider.

A entrevista é de Andrea Tornielli, publicada no sítio Vatican Insider, 03-09-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

Por muitos anos, o cardeal Martini se contrapôs ao Papa Wojtyla. E ultimamente também a Ratzinger. O que o senhor pensa?


Eu penso que é um modo de interpretar a realidade com base em esquemas tendencialmente políticos, uma chave de leitura midiática e da cultura de massa. Na realidade, existe uma multiplicidade de abordagens – é a riqueza da Igreja – à única verdade. Mesmo dentro do Novo Testamento, temos a teologia de Tiago e a de Paulo, que são diferentes. Portanto, eu não consideraria isso que você cita como contraposições, mas sim como iridescência das mesmas cores. Eu mesmo encontro consonâncias na mensagem de Bento XVI, assim como na mensagem de Martini.

Na última entrevista, Martini disse que a Igreja está 200 anos atrás...

Diversos julgamentos históricos sobre os contextos são legítimas. A Igreja é semper reformanda, portanto sempre a caminho. Em uma estrutura tão grande e em um horizonte tão vastos, há percursos que estão mais adiante, outros que estão mais à espera, com passos ainda a serem dados. A própria Igreja abrange não só todos os territórios, mas também, paradoxalmente, tempos diversos, porque nem mesmo a sociedade contemporânea é toda igual, e há âmbitos culturais que ainda estão parados.

Mas o senhor não vai negar que o cardeal Martini, no campo bioético, sobre a origem e sobre o fim da vida, apoiou publicamente posições que, às vezes, pareceram ser um contraponto com relação às posições oficiais da Igreja.

Eu acredito que neste caso também estamos diante de alguém que tinha bem clara no seu coração a fidelidade à doutrina tradicional. O coração de Martini era fiel. Depois, há a declinação concreta de uma multiplicidade de aspectos: e estes também podem admitir às vezes contrapontos. Pode haver diversidade, quando se trata de circunscrever inteiramente o problema.

Mas repito: Martini tinha uma grande fé, muito rochosa, forte, sólida. O horizonte em que a verdade se insere é um horizonte em que há muitas dimensões. Tomemos, por exemplo, os aspectos científicos. A atenção do cardeal era a de ver se havia alguma faceta que merecesse ser considerada de maneira mais atenta. Sem necessariamente mudar a substância: as suas palavras contra a eutanásia demonstram isso claramente.

Chamou a atenção a grande participação popular destes dias, mesmo depois de 10 anos da sua partida de Milão. Como o senhor explica isso?

A sua figura às vezes era considerada fria. Mas o que conta, em um deserto de grandes personalidades como foi o tempo em que ele viveu, não é apenas a sua mensagem e a sua palavra, mas também a sua pessoa como tal. Ele marcou acima de tudo como pessoa, e esse rastro ainda permanece. Quantas figuras cinzentas, que talvez também tiveram algum sucesso midiático, vemos desaparecer no esquecimento. No caso de Martini, ao invés, encontramo-nos diante de uma pessoa que ainda fala.