Martini e as quatro estações. Artigo de Gianfranco Ravasi

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03 Setembro 2012

Martini soube apresentar tanto o Deus glorioso do Sinai e da Páscoa, mas – também e sobretudo com o seu episódio final – até mesmo o Deus mudo do Calvário que não responde nem ao Filho.

A opinião é de Gianfranco Ravasi, cardeal presidente do Pontifício Conselho para a Cultura, em artigo publicado no jornal Il Sole 24 Ore, 01-09-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o artigo.

Na obra muito árdua de compor um retrato não só histórico-eclesial do cardeal Carlo Maria Martini poderia ajudar uma espécie de parábola indiana cara a ele, porque ele teve a oportunidade de evocá-la mais de uma vez.

Ela é substancialmente uma metáfora da própria existência humana, dividida em quatro estações fundamentais.

Acima de tudo, há o momento do aprender e da escuta, quando somos discípulos e começamos, levados pela mão, ao longo dos percursos do conhecer, do aprender, do estudar. Foi essa a etapa primária de Martini, quando ele teve que seguir o longo itinerário da formação na Companhia de Jesus, um arco cronológico nada breve, que se assomava aos estudos escolares precedentes e que desembocava no horizonte da espiritualidade inaciana, para depois escalar ao longo dos caminhos acadêmicos. Estes lhe ofereceram todo o equipamento científico para cultivar aquela disciplina que seria uma característica típica da sua personalidade, isto é, a exegese bíblica.

Foi justamente dessa etapa que derivou espontaneamente a segunda, a que o apólogo indiano define como o tempo do ensinamento, do comunicar a outros o que se adquiriu, reelaborando-o, aprofundando-o e tornando-o mais pessoal e original. Martini, como se sabe, foi por muito tempo professor em Roma de crítica textual bíblica. Dessa maneira, Martini se tornou um dos maiores especialistas em nível internacionais, a ponto de ser cooptado para um restrito núcleo de estudiosos de outras nacionalidades e até mesmo de diversas confissões cristãs para preparar o Greek New Testament, uma rigorosa edição crítica do texto grego neotestamentário, resenhando-o e selecionando o imenso patrimônio de papiros, códices e textos diversos que nos transmitiram as sagradas escrituras cristãs.

Foi justamente exercendo essa disciplina que floresceu nele não só o amor pela Palavra divina, mas também pelas palavras humanas concretas em que ela se expressa, termos a serem examinados filologicamente, mas também a serem redescobertos na sua rica potencialidade semântica.

É é justamente dessa estação, da qual também este que escreve estas linhas foi testemunha como aluno, que nasceu quase de improviso uma ulterior atuação da sua função de mestre. A partir do fim de dezembro de 1979, por mais de "três semanas de anos", como ele gostava de dizer, até 2002, ele foi de fato pastor, pai e mestre de uma das Igrejas mais vastas e mais importantes do mundo, a de Milão.

Foi esse o centro da sua existência, um ministério de bispo que – no estilo de Santo Ambrósio – se alargava a toda a cidade, à sua frenética cotidianidade, à sua viva cultura e operosidade, mas também aos seus problemas e aos seus dramas, pontuados por anos muitas vezes atormentados em que, na queda das vozes das outras instituições e agências públicas, se elevava alta mas pacata, severa mas serena, forte mas delicada, incisiva mas discreta a voz desse verdadeiro mestre e guia. Uma voz que ressoava também além das fronteiras da diocese, em tantas outras nações onde a sua presença era esperada e apreciada.

Dessa fase, a mais conhecida e estudada, restam milhares de testemunhas: é emblemático, por exemplo, o "Meridiano" que a editora Mondadori dedicou no ano passado aos escritos do cardeal, em que, mesmo na seleção textual, se abriu um verdadeiro mapa da ação pastoral, magisterial e cultural de Martini.

Mas sobretudo permanecem as múltiplas iniciativas implementadas, a partir daquela "Cátedra dos Não Crentes" que criou um verdadeiro modelo de debate com o mundo "secular". Crentes e não crentes, embora plantados em territórios diferentes, eram convidados a não se encerrar em um isolacionismo sacro ou secular, ignorando-se ou, pior, adotando a atitude da rejeição fundamentalista recíproca.

Florescia, assim, em Milão, a flor do diálogo em torno de temas capitais do ser e da existência, nos quais todos estão envolvidos e às vezes até mesmo sacudidos. Bastaria percorrer os títulos daquelas "Cátedras" para descobrir um verdadeiro arco-íris de iridescências temáticas que ainda hoje constituem o programa sobre o qual deve se confrontar tanto a Igreja quanto a sociedade.

Mas a terceira estação já estava à porta: no fim dos 75 anos, o cardeal Martini decidiu que, para ele – assim como para aquele texto sapiencial indiano – iniciava uma nova experiência, aquela sugestivamente chamada do "bosque", isto é, o retiro no silêncio. Um silêncio não "preto", pura e simples supressão de palavras e de atos, mas sim "branco", em que as experiências e as realidades vividas recebiam uma nova luz, alimentada pela reflexão, pela contemplação, pela oração.

Foi esse o breve mas intenso período de estada na terceira cidade amada, depois de Roma e de Milão, isto é, Jerusalém. Lá, Martini reencontrava as próprias raízes da fé límpida e profunda; lá, ainda sentia ecoar as vozes dos profetas, mas sobretudo compartilhava o pulsar da presença de Cristo. Na faixa transversal do seu brasão episcopal, estão encrustados três corações: poderíamos idealmente imaginar que eles são os símbolos das três cidades que, no desejo do cardeal, teriam selado todo o arco da sua existência até aquele túmulo nas encostas do Monte das Oliveiras, diante do vale de Josafá, onde ele queria esperar a parusia, a vinda plena e definitiva do Cristo para concluir a história.

Em vez disso, lhe esperava a quarta estação daquela parábola, ou seja, o tempo "do mendicante", marcado idealmente pelas palavras que Jesus dirige a Pedro, o primeiro dos apóstolos: "Quando você era jovem, você se vestia sozinho e ia para onde queria. Mas quando você ficar mais velho, estenderá as suas mãos, e outro te vestirá e o levará para onde você não quer ir" (João 21, 18). Foram os últimos anos em que a doença o havia tornado "mendicante", isto é, necessitado dos outros, sobretudo daqueles que haviam sido o ventre das suas origens, ou seja, os jesuítas.

Foi assim que ele escolheu como espaço extremo de espera pelo momento do encontro pleno e direto com Deus, "face a face", como escrevera o apóstolo Paulo, a comunidade religiosa de Gallarate. O seu crepúsculo não foi esmaecido e inerte; a sua voz, já flébil, ainda ressoava; a sua palavra continuava sendo para muitas pessoas, cristãs ou não, um ponto de referência; as suas palavras escritas através das teclas leves de um computador ou através das mãos de quem estava ao seu lado continuavam consolando, mas também provocando, inspirando confiança, mas também inquietando as consciências torpes. Ele ainda continuava sendo uma presença insubstituível, cujo vazio será percebido durante muito tempo.

Havia um texto da tradição judaica particularmente caro ao cardeal Martini, a tal ponto de ter feito dele o título de uma das "Cátedras dos Não Crentes". É uma passagem do livro bíblico do Êxodo que diz assim: "Quem é como tu entre os deuses?" (15, 11). Trata-se de uma solene e poderosa profissão de fé no Onipotente Salvador. Pois bem, curiosamente, o midrash, isto é, a explicação da tradição judaica, oferece uma surpreendente e até mesmo desconcertante variante. Mi kamoka ba-'elim, "quem é como tu entre os deuses?" se transforma em um mi kamoka ba-'illemim, "quem é como tu entre os mudos?". Deus conhece também os silêncios abissais, e é um testemunho atônito e gritante disso.

Martini soube apresentar tanto o Deus glorioso do Sinai e da Páscoa, mas – também e sobretudo com o seu episódio final – até mesmo o Deus mudo do Calvário que não responde nem ao Filho. Ele indicou aos homens e às mulheres de boa vontade o Deus da palavra luminosa e o Deus silencioso que muitos acreditam estar ausente ou inexistente, enquanto ele é só um mistério altíssimo a ser descoberto.