Felipe Milanez: Jornalismo em defesa da floresta e dos direitos indígenas

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04 Agosto 2012

Felipe Milanez é, atualmente, um dos principais nomes do jornalismo brasileiro quando o assunto é Amazônia.

Em 24 de maio de 2011, o deputado Sarney Filho (PV-MA) interrompeu a sessão na Câmara para ler a matéria intitulada “Zé Claudio e a Majestade“, escrita por Felipe Milanez. Nessa mesma manhã, o ambientalista entrevistado, José Claudio Ribeiro, foi brutalmente assassinado ao lado de sua esposa, Maria do Espírito Santo.

A reportagem é de Marjorie Ribeiro e publicada pelo Portal Aprendiz e reproduzida por Amazonia.org.br, 03-08-2012.

Foi Felipe Milanez quem trouxe à tona, por meio de reportagens, a história de luta do casal para combater o extrativismo ilegal de madeira no sudeste do Pará e as ameaças de morte que sofriam pelos madeireiros da região. O caso teve grande repercussão internacional e, por conta disso, o jornalista foi indicado ao prêmio da ONU de “Herói da Floresta”.

O gaúcho de 34 anos é, atualmente, um dos principais nomes do jornalismo brasileiro quando o assunto é Amazônia. Já foi editor das revistas National Geographic e Brasil Indígena, da Funai (Fundação Nacional do Índio), tem matérias publicadas na Carta Capital, Rolling Stones, Trip, Terra Magazine, Vice, e dirigiu o documentário “Toxic Amazon”, sobre a morte anunciada de José Claudio e Maria.

Além de denunciar as atrocidades que ocorrem em terras longínquas dos grandes centros urbanos, seus relatos valorizam a cultura de povos que muitas vezes são esquecidos pelo resto do país. Prova disso é que uma de suas reportagens foi protocolada e está sendo usada juridicamente em um processo que pede o reconhecimento de tribos indígenas da Amazônia.

Primeiros contatos

Com 14 anos, Milanez saiu de Porto Alegre e foi morar na capital paulista, onde vive até hoje. Depois de se formar em Direito na PUC-SP, fez mestrado em Ciências Políticas na Universidade de Toulouse, na França. Foi lá que conheceu obras de autores que lhe influenciaram pelo resto da vida, como os antropólogos Claude Lévi-Strauss, Pierre Clastres e o sociólogo Pierre Bourdieu.

Durante a estadia no exterior, leu muito sobre o Brasil e teve contato com movimentos sociais ecologistas, que o instigaram a retornar e explorar o tema em sua terra natal. Cinco meses após voltar ao país, foi trabalhar como assessor do consultor jurídico do Ministério da Justiça, em Brasília.

“Lá eu vi os processos da Funai e li histórias incríveis de contato com os índios Paracanã. Pensei na hora que queria ir para lá”, conta Felipe Milanez. Pouco tempo depois, foi chamado para montar o projeto da revista Brasil Indígena, da Funai. Começou então a fazer expedições em áreas isoladas, onde viviam grupos de diversas etnias.

O contato direto com os povos indígenas fez com que o jornalista percebesse o quão preconceituosa é a sociedade brasileira.

Uma dessas viagens foi à Raposa Serra do Sol, em Roraima, área de intensos conflitos de povos indígenas que lutam pela demarcação de terras, mas sofrem com a invasão de fazendeiros, grileiros e garimpeiros. Foram 20 dias convivendo com pessoas que eram ameaçadas de morte, em um lugar onde a violência chega muito mais rápido que as notícias dos jornais.

Enquanto a maior parte da grande mídia relatava o assunto superficialmente, privilegiando a visão dos proprietários de terra, Milanez escreveu uma matéria em que dava voz a quem não tinha sido ouvido, revelando o “outro lado” da história. “Mostrei o quão preocupados os índios estão com o futuro deles, desenvolvendo alternativas de educação indígena que Paulo Freire iria se surpreender”, explica.

A aproximação com aqueles povos mudou completamente sua visão de mundo. “O trabalho na Funai arrebentou a minha cabeça”, admite. “Assim como a maioria dos brasileiros, nunca tinha visto um índio antes”, complementa.

O contato com dois índios isolados, sobreviventes de um genocídio, no noroeste de Mato Grosso, também foi um fato marcante na carreira e na vida do jornalista. A árdua tarefa foi contada na reportagem “Sombras da selva”, publicada na National Geographic, finalista do Prêmio Abril de 2007 – anos depois seria demitido pelo grupo empresarial por criticar a maior publicação da casa, a revista Veja, pela matéria intitulada “A farra da antropologia oportunista”, que criminalizava a luta dos índios pela delimitação de terras.

Outro texto de sua autoria, que teve grande repercussão, foi o “Faroeste Caboclo”, que saiu na revista Rolling Stones. Cenas descritas cinematograficamente e um relato em primeira pessoa que aproxima o leitor passam a sensação de estar em Colniza (MT), cidade que foi agraciada com o título da mais violenta do Brasil. Foi ali que escutou de um madeireiro, que o intimidou em um bar, uma frase que nunca mais sairia de sua cabeça: “Na Amazônia, terra não tem dono, mulher não tem honra, homem não tem palavra e árvore não tem raiz”.

Enquanto a Veja publicava uma matéria intitulada "A farra da antropologia oportunista", Milanez escrevia "Medo e tensão" sobre a situação dos índios.

A terra que não tem dono

Milanez explica que o desmatamento na Amazônia caiu de 27 mil/km² para 5 mil/km² e que, em contrapartida, os conflitos fundiários aumentaram 15%. Para ele, a questão social precisa ser inserida na discussão ambiental, já que ambas estão completamente atreladas.

“A violência na Amazônia é um projeto de governo e um processo estrutural, da própria ocupação local. Existe violência em todo arco do desmatamento, não é coincidência”, explica. Ele conta que já sofreu intimidações por parte de fazendeiros enquanto fazia investigações para suas reportagens, mas nada que tenha afetado seu trabalho.

Milanez ressalta a grande importância geopolítica que o Brasil tem no mundo por conta da Amazônia. “Se um índio guarani no Mato Grosso do Sul for morto, não tem a mesma repercussão como teria se fosse um castanheiro da Amazônia”. E acrescenta: “Com tanta biodiversidade, ninguém é bobo de não se importar com a região. Só o Brasil, que só pensa em produzir energia e arrebentar com o Xingu, Tapajós e Altamira”, lamenta.

A aproximação com diversas etnias durante todos esses anos fez com que ele percebesse o quão preconceituosa é a sociedade brasileira em relação aos indígenas: o pouco conhecimento que se tem é deturpado. Para ele, isso é fruto dos próprios livros de história e da literatura que, por muito anos, insistiram em mostrar um índio sempre folclórico, uma Amazônia como uma selva distante e inabitada; e uma São Paulo como sujeito da história do país. “A educação tem um papel fundamental para mudar essa visão”, enfatiza.

A vontade de mudança se mistura ao coração já calejado de tanto ouvir relatos dolorosos e de ver as injustiças cometidas com os que lutam pelos seus direitos e pela preservação da mata. “Ano passado, foi muito difícil para mim, meu amigo foi assassinado e eu sentia diariamente o medo de morrer”, revela, fazendo referência à morte de José Claudio Ribeiro, com quem acabou criando laços de amizades que extrapolaram o exercício da profissão.

Felipe Milanez conviveu de perto com os ambientalistas José Claudio e Maria, assassinados em 2011.

Mas o brilho nos olhos reaparece em qualquer descrição daquelas terras distantes e cheias de vida.  “A Amazônia é um lugar fascinante!”, exclama enchendo o peito, com a certeza de que ainda irá respirar muito ar puro daquela floresta que abriga tantas riquezas de fauna, flora e, sem dúvida alguma, de seres humanos.

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