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Comissão da Verdade deve apurar caso madre Maurina

A prisão da madre Maurina Borges da Silveira, em Ribeirão Preto, durante o regime militar (1964-1985), e o sofrimento a ela causado antes do exílio merecem investigação da Comissão da Verdade, criada para examinar violações aos direitos humanos.

A reportagem é de Araripe Castilho e publicada pelo jornal Folha de S. Paulo, 29-07-2012.

A avaliação é do brasilianista (estrangeiro especializado em assuntos do país) Kenneth Serbin, professor de história na Universidade de San Diego (EUA), escritor e um dos principais estudiosos das relações entre Igreja Católica e regime militar.

A Comissão Nacional da Verdade vai estudar nos próximos dias quais providências podem ser tomadas para o caso, segundo o ministro do STJ (Superior Tribunal de Justiça) Gilson Dipp disse à Folha.

Para Serbin, o episódio envolvendo Maurina (1924-2011), integrantes do grupo guerrilheiro de Ribeirão Faln (Forças Armadas de Libertação Nacional) e o ex-delegado Renato Ribeiro Soares - responsável pela prisão da madre e que morreu na semana passada, aos 86 anos - é simbólico para a história.

"O caso da madre é muito importante porque mostra que a ditadura no Brasil não diferenciava ninguém. Até uma freira, que trabalhava pelo bem das pessoas, podia cair na rede da repressão."

Embora não tivesse ligação com a guerrilha, Maurina foi presa por abrigar integrantes e materiais das Faln no Lar Santana, onde ela vivia. A religiosa ficou detida durante um ano em São Paulo e depois foi exilada no México, onde ficou dez anos.

A madre relatou ter sido torturada no Brasil, mas nunca deu detalhes, mesmo após retornar do exílio.

Já o ex-delegado Renato Soares, que chegou a ser excomungado e depois absolvido pela Igreja Católica, negava ter praticado qualquer violência contra Maurina. "Só cumpri meu trabalho", disse à Folha em 1997.

"A Comissão da Verdade precisa ir a fundo nesse assunto, entrevistando pessoas envolvidas, levantando documentos e provas que possam estar hoje em poder de familiares", disse Serbin.

Outro delegado da época, Miguel Lamano, também está ligado ao caso. Ele também foi excomungado e nunca falou sobre o caso à imprensa.

O brasilianista diz que, em suas pesquisas para o livro "Diálogos na Sombra: Bispos e Militares, Tortura e Justiça Social na Ditadura", achou no Arquivo Nacional do Rio uma carta da madre a Alfredo Buzaid, ministro da Justiça entre 1969 e 74. Nela, a religiosa pede que sua expatriação fosse revista. "Ela não queria ser banida do país", disse Serbin.

VIRADA HISTÓRICA


O caso envolvendo a tortura sofrida por madre Maurina na prisão inspirou religiosos importantes da Igreja Católica a se engajar na luta contra o governo militar.

Alguns, inclusive, eram simpatizantes da ditadura. O cardeal arcebispo Paulo Evaristo Arns, por exemplo, apoiou o golpe de 1964, mas passou a lutar contra a tortura após o caso da madre - era amigo do então arcebispo de Ribeirão, Felício César da Cunha Vasconcellos.

Na região, um grupo de Franca se organiza para levantar violações a direitos.

Grupo busca histórias 'secretas' da ditadura

Casos como o da madre Maurina Borges da Silveira e o da enfermeira Áurea Moretti - uma das principais líderes da Faln (Forças Armadas de Libertação Nacional), presa em outubro de 1969 e torturada na prisão - tiveram grande repercussão.

Mas não foram as únicas violações aos direitos humanos ocorridas na região de Ribeirão Preto na época do regime militar (1964-1985).

Para identificar outras histórias, sejam de ex-resistentes ou ex-militares, um grupo de historiadores e universitários montou, em Franca, um coletivo político que promete investigar casos desconhecidos da região.

A missão do Coletivo Político "Áurea Moretti" não é fazer um trabalho "inquisitório", mas de documentação dos casos, disse um dos membros do grupo, o professor de história Pedro Russo.

A ideia, de acordo com ele, é produzir um livro com as informações levantadas.

O foco será regional e o trabalho respeitará a vontade das pessoas de falar sobre o assunto, afirmou. "Tem gente que quer esquecer o assunto, que a família nem sabe".

Outro objetivo do coletivo é ajudar a Comissão da Verdade com dados e até auxiliar ex-perseguidos políticos que eventualmente não tenham sido anistiados a obter o pedido de perdão do Estado.

IMPARCIAL


Para o historiador e professor da UFSCar (Universidade Federal de São Carlos) Marco Antonio Villa, iniciativas como a do grupo organizado em Franca são positivas, mas precisam ter imparcialidade.

"O equilíbrio é fundamental. Tem de ouvir todos que queiram falar, não pode fazer julgamentos e, obviamente, tem de dar divulgação a tudo que for levantado", afirmou.

Ainda segundo ele, iniciativas regionais de investigar o período são "um dedo na ferida", porque "muitas pessoas se valeram de qualquer pequeno poder que tinham para perseguir adversários [que não necessariamente tinha ligações com guerrilheiros]".

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