Massacre no cinema. “A pessoa tem de ser um vencedor a qualquer custo”

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23 Julho 2012

"Temos visto que algumas características que nos diferenciam dos demais animais (valores humanos como a capacidade de pensar e a intimidade), têm perdido espaço para aparência e ação. A equação de poder e força como sinônimo de felicidade leva muitas pessoas a se distanciarem do que mais nos caracteriza como humanos, que é a cultura e o afeto, diminuindo muito, então, a consideração pelo outro", afirma Renato Piltcher, membro da Associação de Psiquiatria do Rio Grande do Sul, analisando as possíveis motivações de ataques como o de sexta-feira nos Estados Unidos, em entrevista publicada pelo jornal Zero Hora, 22-07-2012.

Eis a entrevista.

Os EUA têm um histórico de episódios semelhantes ao de sexta-feira. Como podemos contextualizar isso?

A humanidade têm um histórico de episódios de violência. Os EUA são um protagonista maior da ideia de que, onde ‘se não é como eu acho que tem de ser, tenho direito de ir lá, entrar e intervir para que fique como eu acho que tem de ser’. Muitas vezes, esse ‘acho’ é imposto em nome da democracia, mas os interesses não são apenas libertadores. A cultura norte-americana tem seus bons e maus aspectos. Tanto ou mais que em outros países, lá vemos a ideia do “vencedor” versus “perdedor” – e a pessoa tem de ser um vencedor a qualquer custo. Como psiquiatra, não posso analisar este caso sem saber detalhes, mas se conhece avaliações de alguns desses atiradores nos quais não se constatou doença mental psicótica clássica, como esquizofrenia, e sim a intenção de ser um “vencedor”, dentro de uma lógica na qual ter alguns minutos de atenção, ou “fama”, traria isto. Levado ao extremo, isso tem trazido atuações graves como esta.

O fato de o crime ter ocorrido no cinema, em um filme do Batman, pode ter algum significado?

Não necessariamente uma relação direta, causal, mas nos permite tecer algumas considerações. Temos visto que algumas características que nos diferenciam dos demais animais (valores humanos como a capacidade de pensar e a intimidade), têm perdido espaço para aparência e ação. A equação de poder e força como sinônimo de felicidade leva muitas pessoas a se distanciarem do que mais nos caracteriza como humanos, que é a cultura e o afeto, diminuindo muito, então, a consideração pelo outro. Isso relativiza e, a meu ver, empobrece a noção de valor da vida. De forma concreta ou simbólica, esses indivíduos estão se matando junto ao cometerem um ato assim.

Episódios semelhantes ao de sexta-feira nos EUA têm ocorrido em lugares diferentes, como na Noruega, no ano passado, e até no Brasil, em 1999 e em 2011.

Isso nos traz o problema da massificação, o problema de achar que todos têm de ser do mesmo jeito: sempre rindo, ter tal altura, cor da pele, etc. Não tolerar as diferenças. E a globalização, cada vez mais, têm querido dizer isso. As mesmas marcas, personagens, atitudes... isso pressiona por uma intolerância à diferença. A globalização tem piorado isso ao pressionar as pessoas para que rotulem e sejam rotuladas como ‘vencedoras” ou “perdedoras” .