17 Julho 2012
O Vaticano recentemente contratou um jornalista norte-americano, Greg Burke, como seu novo czar das comunicações. Presumivelmente, parte do mandato de Burke será desarmar potenciais bombas de relações públicas antes que elas explodam, ao invés de tentar limpar os destroços depois, como tem sido, até agora, o modus operandi do Vaticano. Um lembrete para Burke: uma dessas potenciais bombas-relógio está em contagem regressiva exatamente agora na Eslováquia.
A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada no jornal National Catholic Reporter, 13-07-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
No dia 2 de julho, o arcebispo Róbert Bezák (foto), de Trnava, o tradicional berço da fé nesse país esmagadoramente católico de 5,4 milhões de habitantes, foi deposto pelo Papa Bento XVI. O Vaticano não deu nenhuma explicação para a medida, que se seguiu a uma investigação em nome do papa por um bispo tcheco em janeiro.
Os moradores se uniram em defesa de Bezák. No dia 6 de julho, centenas de eslovacos compareceram a uma manifestação em apoio do prelado deposto, carregando flores e fotos de Bezák, que foram colocadas na praça no centro da cidade de Trnava. Um abaixo-assinado online em apoio de Bezák já foi assinado por mais de 6.700 pessoas, e alguns párocos teriam oferecido a sua renúncia em protesto. Observadores na Eslováquia descrevem que os católicos locais estão "confusos, feridos e crescentemente irritados".
Na ausência de qualquer justificativa oficial, o moinho de boatos começou a girar. Privadamente, os católicos simpatizantes de Bezák levantaram uma teoria que, se for verdadeira, seria profundamente embaraçosa para Bento XVI e o Vaticano em um momento crucial.
Bezák foi nomeado em abril de 2009 para substituir o antigo arcebispo Ján Sokol, que reinava em Trnava há 20 anos. Sokol era um líder forte, mas controverso, conhecido por suas visões teológicas e políticas profundamente tradicionais. Dentre outras coisas, Sokol era um vigoroso defensor de Jozef Tiso, padre católico e presidente da Eslováquia durante a Segunda Guerra Mundial, quando o país era um Estado satélite da Alemanha nazista. (Com os soviéticos, Tiso foi condenado por crimes de guerra e executado.)
Amigos de Bezák, que em geral é visto como uma figura mais moderada, dizem que Sokol continuou sendo uma presença importante na arquidiocese depois da sua renúncia, mantendo supostamente uma residência no palácio do arcebispo. Eles também dizem que, quando Bezák começou a analisar os livros da era Sokol, ele descobriu graves irregularidades financeiras.
No dia 6 de julho, promotores públicos anunciaram uma investigação sobre uma suposta malversação de fundos da Igreja na época de Sokol. Notícias dizem que a decisão se baseou, em parte, nos achados de Bezák.
A suspeita entre os aliados de Bezák é que Sokol quis encerrar essa revisão ao prejudicar o seu sucessor, e que Sokol alistou com sucesso seus amigos da Congregação para os Bispos do Vaticano para fazer isso.
À distância, eu não tenho como saber que mérito pode haver nessas acusações, embora alguns veteranos observadores da Igreja parecem levá-las a sério.
Se essa teoria for confirmada, isso obviamente seria uma má notícia para o Vaticano sob quaisquer circunstâncias. No momento, porém, o momento não poderia ser pior.
Agora, o Vaticano está tentando desesperadamente convencer o mundo de que ele virou uma nova página na transparência financeira e na prestação de contas. No dia 18 de julho, uma avaliação do Vaticano deve ser divulgado pelo Moneyval, o braço europeu da Força-Tarefa de Ação Financeira, o principal órgão intergovernamental do mundo na luta contra a lavagem de dinheiro. Isso marca a primeira vez em que o Vaticano se submeteu a tal crítico escrutínio externo, e como se espera que o Vaticano passe pelo exame – no sentido de evitar um processo de revisão especial para as nações problemáticas – isso equivale a uma notícia basicamente boa para a campanha de transparência de Bento XVI.
Se, no entanto, as histórias deveriam estourar em torno do mesmo tempo em que Bento XVI demitiu um bispo reformador que queria limpar a casa e que o papa assim o fez a pedido de outro prelado que presidiu um regime financeiramente corrupto (e que, de quebra, tem uma história de defesa dos católicos com simpatias nazistas), não é preciso ser um gênio em relações públicas para prever que nenhuma boa notícia pode estar presente na tempestade resultante.
Exatamente agora, a história de Bezák não está provocando muitas ondas fora da Eslováquia, em grande parte porque ainda não há como confirmar ou negar as suspeitas que foram levantadas pelos seus aliados. Burke e outras altas autoridades vaticanas, no entanto, deveriam ser bem aconselhados para ir até o fim da questão rapidamente e, no mínimo, fornecer uma explicação convincente para a remoção de Bezák. Caso contrário, os rumores simplesmente irão entrar em metástase.
O problema das bombas-relógios em contagem regressiva é que, mais cedo ou mais tarde, elas têm o hábito de explodir.