02 Julho 2012
Indignemo-nos (contra o "inaceitável", exorta Stéphane Hessel), mas sem perder de vista a lei. Sem que o ressentimento, como adverte René Girard, torne-se a via mestra do bode expiatório.
A opinião é do jornalista e escritor italiano Antonio Gnoli, em artigo publicado no jornal La Repubblica, 01-07-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Eis o texto.
O relevo que a indignação está assumindo na nossa sociedade, sob a forma de protesto moral, tem correlatos, mas nem tão imprevisíveis, nas primeiras décadas do século passado. É bastante claro que todo período de forte crise relança e desencadeia uma tempestade de emoções contra quem detém o poder.
Exatamente há um século, Max Scheler terminava de escrever o ensaio sobre o ressentimento, e, em 1938 – às vésperas da Segunda Guerra Mundial –, Svend Ranulf (sociólogo dinamarquês) recolhia as suas reflexões sobre a indignação e sobre as suas causas (Indignação e psicologia da classe média foi agora publicado pela editora italiana Medusa).
Pode-se dizer que a indignação é o lado nobre do ressentimento. Um é tanto o resultado de um mal-estar de impotência e frustração (capaz de desencadear ódio e inveja), quanto a outra é o fruto de uma expectativa moral desatendida ou traída.
Diferença que Ranulf põe a fogo escrevendo que a indignação moral (do qual a pequena burguesia é o motor) é "uma tendência desinteressada a infligir punições". A frase, um pouco enigmática, indica no entanto os perigos que a indignação provoca quando se subvertem os velhos valores.
O nazismo subiu ao poder alavancando o ressentimento de uma classe despojada dos seus sonhos. Mas geriu o seu resultado endurecendo arbitrariamente as penas contra o crime. Embora justa, a indignação moral corre o risco, observa Ranulf, de provocar excessos e novos desequilíbrios.
Indignemo-nos (contra o "inaceitável", exorta Stéphane Hessel), mas sem perder de vista a lei. Sem que o ressentimento, como adverte René Girard, torne-se a via mestra do bode expiatório.