O resultado do texto da Rio+20 é um vazio declaratório que terá que ser preenchido pela sociedade civil e pelas empresas. A avaliação é da equatoriana Yolanda Kakabdse, presidente mundial de uma das mais conhecidas ONGs ambientalistas do mundo, o WWF. Yolanda coordenou a participação da sociedade civil em 1992, para a Rio92. Foi presidente e membro do conselho de entidades ambientalistas importantes e ex-ministra de meio ambiente do Equador. Vê as diferenças entre aquela conferência e esta, e o que não aconteceu.
A entrevista é de Daniela Chiaretti e publicada pelo jornal Valor, 22-06-2012.
Ela diz que os negociadores poderiam ter ido mais fundo no texto final da Rio+20 e que 24 horas antes de o documento ser fechado, havia verbos de ação. "Agora é um texto declaratório."
Eis a entrevista.
Qual a sua avaliação dos resultados da Rio+20?
Os resultados me parecem pobres. Não porque todos os conceitos importantes não estejam no documento final. Estão todos lá, mas não há nenhum chamado à ação. São chamados à reflexão que dão um tom totalmente declaratório ao texto. Eu não creio que há uma relação custo-benefício, de um investimento de US$ 100 milhões, provavelmente, em dois anos de reuniões preparatórias, refletida neste documento-final. Participei da conferência de 92, fui parte da secretaria das Nações Unidas que organizou a conferência. Agora era o momento dos governos tomarem decisões muito concretas de o quê fazer e como fazer e não ficar apenas nas declarações.
Fala-se que o documento abre processos para o futuro e...
Sim, o documento diz "iremos fazer isso", mas não diz "vamos fazer isso". O resultado é um vazio, e este vazio tem que ser preenchido. Se os governos não foram capazes de preenchê-lo e cumprir com a sua missão, então terá que ser preenchido com ações da sociedade civil e do setor produtivo. E o que estamos vendo, e talvez seja o mais bonito desta conferência é que, sim, há coisas acontecendo. Há movimentos importantes na sociedade civil e no setor produtivo, a bola está rolando. Empresas sustentáveis, o uso da biodiversidade sem destruir a floresta, novas tecnologias para a água e energia são iniciativas que as empresas e a sociedade civil já estão fazendo. E com este vazio que os governos deixaram, irão fazer mais.
E os marcos regulatórios?
Claro, tem que se trabalhar muito aí. Por exemplo, na transparência da informação do custo ambiental da produção, é uma função dos governos.
Como se segue agora? Qual o futuro depois da Rio+20?
Vamos continuar trabalhando, estimulando parcerias entre a sociedade civil e o setor produtivo. Vimos, por exemplo, iniciativas interessantes como a do Banco Mundial, em que há mais de 80 países prontos a levar adiante o conceito "beyond GDP", ou seja, "além do PIB", de tornar transparentes os custos ambientais e informar sobre os processos de produção. E isso é uma decisão ótima, e não está na declaração dos governos. Esta é a parte lamentável do processo.
Qual o ponto mais importante deste debate, em sua opinião?
Acho que também é importante o assunto da segurança, da mudança climática e da destruição dos ecossistemas. Não é só um tema de pobreza e deterioração e impactos. É um assunto de vida ou morte. A segurança humana está ameaçada, sobretudo nas comunidades mais vulneráveis, entre as crianças e os mais velhos, os pobres. Já estão sendo afetados e serão mais ainda pela falta de ações concretas a nível intergovernamental e também dentro dos governos, de medidas que garantam o desenvolvimento sustentável.
A senhora acredita que os negociadores poderiam ter ido mais longe do que foram?
Mas claro. Há três dias, no tópico de oceanos, diziam que iram fazer coisas e o retiraram. Era a única ação proposta e sumiu em 24 horas. E nos deixaram aí, também, com uma declaração. Ali havia um verbo de ação, agora não.

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