Lefebvrianos: o último obstáculo

Mais Lidos

  • De Rerum Novarum a Leão XIV: não era o vapor, mas a ética; não são os dados, mas a dignidade. O que vale não é mensurável. Artigo de Paolo Benanti

    LER MAIS
  • Deus Trindade: circularidade-encontro-amor. Comentário de Adroaldo Palaoro

    LER MAIS
  • Juventude e novas direitas, para além dos estereótipos e dos extremos. Entrevista com Beatriz Besen

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Aceleracionismo Amazônico

Edição: 559

Leia mais

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

18 Junho 2012

A última milha do complicado caminho de diálogo e de debate entre a Santa Sé e a Fraternidade São Pio X, fundada pelo arcebispo Marcel Lefebvre, corre o risco de ser também a mais difícil, e o resultado final ainda não está dado. Isso fica claro a partir de uma frase contida no comunicado que a própria Fraternidade divulgou depois do encontro entre o superior lefebvriano, o bispo Bernard Fellay, e o cardeal William Levada, prefeito do ex-Santo Ofício e presidente da Comissão Ecclesia Dei. O encontro ocorreu na tarde do dia 13 de junho.

A reportagem é de Andrea Tornielli, publicada no sítio Vatican Insider, 17-06-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

No dia seguinte, uma nota da Sala de Imprensa vaticana informava que, nas duas horas de conversa, as autoridades vaticanas apresentaram a avaliação da Santa Sé sobre a proposta de preâmbulo revista e corrigida por Fellay, e se concluía com a notícia referente à proposta de sistematização canônica, oferecendo "as oportunas explicações e esclarecimentos". Para atrair a atenção, no comunicado vaticano, estava a notícia da proposta de transformar a Fraternidade em uma prelazia pessoal.

Depois da Sala de Imprensa vaticana, a Fraternidade também publicava no seu boletim oficial um comunicado que dizia: "Ao longo desse encontro, Dom Fellay ouviu as explicações e os esclarecimentos do cardeal Levada, ao qual apresentou a situação da Fraternidade São Pio X e expôs as dificuldades doutrinais que o Concílio Vaticano II e o Novus Ordo Missae apresentam. A vontade de esclarecimentos suplementares poderia significar uma nova fase de discussões".

É essa referência à "nova fase de discussões", com relação às "dificuldades doutrinais" sobre o Concílio e sobre a liturgia que surgiu da reforma pós-conciliar, que representa o indicador de uma dificuldade ainda existente. Não fossem essas palavras, no caso o preâmbulo doutrinal – proposto pela Santa Sé, modificado por Fellay, discutido pelos cardeais do ex-Santo Ofício e, finalmente, revisto pelo papa –, ele teria sido considerado satisfatório pelo superior da Fraternidade.

Esclarecedoras, a esse respeito, foram as palavras proferidas pelo diretor da Sala de Imprensa vaticana, padre Federico Lombardi, na coletiva de imprensa do dia 14 de junho: o texto do preâmbulo entregue ao superior lefebvriano "não é a resposta pura e simples que chegou de Fellay em abril, mas sim o fruto de reflexões posteriores sobre ela. Agora, a resposta depende deles. Não é exatamente o que eles já tinha escrito, ou não haveria necessidade de apresentar mais uma reflexão de aprofundamento. É claro que a bola agora está no campo da Fraternidade".

É evidente que o papa, na sua decisão, levou em conta indicações, sugestões e modificações ao texto sugeridas pelos cardeais e membros da Congregação para a Doutrina da Fé, que se reuniram no dia 15 de maio. Bento XVI quer chegar a uma reconciliação. Na sua carta aos bispos que acompanhava a publicação, em julho de 2007, do motu proprio Summorum Pontificum, o papa, olhando para a história, lembrava: "Tem-se continuamente a impressão de que, em momentos críticos quando a divisão estava a nascer, não fora feito o suficiente por parte dos responsáveis da Igreja para manter ou reconquistar a reconciliação e a unidade".

Em 1988, como cardeal prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, Ratzinger viveu em primeira pessoa a negociação e depois a separação com Lefebvre, que, depois de ter assinado um acordo doutrinal com a Santa Sé, no último momento, mudou de ideia e, não confiando em Roma, consagrou ilegalmente quatro novos bispos. Naquela época, a fratura ocorreu não sobre o acordo doutrinal, mas sim por causa da parte mais prática a respeito das garantias para o idoso arcebispo de ter um sucessor que continuasse a sua obra.

Hoje, no entanto, o obstáculo permanece ligado ao preâmbulo doutrinal. Bento XVI fez todo o possível para ir ao encontro das demandas exigidas pela Fraternidade: liberou a missa antiga, revogou as excomunhões ainda pendentes sobre as cabeças dos quatro bispos lefebvrianos, autorizou o início de um diálogo doutrinal entre a Santa Sé e o grupo tradicionalista.

Também é conhecido o quanto o papa fez para propor uma leitura e uma interpretação do Concílio Vaticano II à luz da tradição anterior (hermenêutica da reforma na continuidade), contra as arbitrárias interpretações que gostariam de transformá-lo em um superdogma ou no início de uma nova Igreja.

Mas ninguém pode pensar que o papa – teólogo no Vaticano II – pode aceitar a ideia de que o último Concílio, conduzido à meta praticamente por unanimidade por Paulo VI, em unidade com os bispos de todo o mundo, seja removido e ignorado, diminuído no seu porte ou até mesmo agravado com a suspeita de erros doutrinais, embora os seus documentos tenham um valor diferente uns dos outros e, com relação a alguns pontos, nenhum deles proíba a discussão, a pesquisa e também a coexistência de pontos de vista interpretativos diferentes. O mesmo vale para o Novus Ordo Missae.

A fase que se abriu, portanto, parece ser a mais delicada. É possível que Dom Fellay, que assegurou às autoridades vaticanas uma resposta em "tempos razoáveis", queira submetê-la ao Capítulo Geral da Fraternidade, previsto para a primeira semana de julho. Em todo caso, aquela referência do comunicado à "vontade de esclarecimentos suplementares", que evidentemente não foram resolvidos nas duas horas de conversa da semana passada, assim como a menção à possível "nova fase de discussões" deixam entender que a meta ainda não foi alcançada.