Arroz e feijão perdem espaço na mesa do brasileiro

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21 Maio 2012

O desemprego historicamente baixo, com marido, mulher e filhos trabalhando fora, mudou a rotina das famílias e também o prato típico: o feijão com arroz. Cada vez mais os brasileiros estão comendo menos grãos nas refeições feitas em casa e optando por carnes e pratos prontos.

A reportagem é de Márcia de Chiara e publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, 20-05-2012.

Nos últimos três anos, a participação do arroz com feijão no gasto com alimentação dentro de casa caiu 4 pontos porcentuais. Em 2008, a fatia do arroz com feijão na despesa com comida no domicílio era 11% e, no ano passado, recuou para 7%, revela a pesquisa HolisticView da Kantar Worldpanel. Para mapear o consumo de alimentos dentro de casa, semanalmente são visitados 8,2 mil domicílios no País, localizados em cidades com mais de 10 mil habitantes.

Também no ano passado, de 15 grupos de despesas com alimentos no domicílio pesquisados, houve queda de 5% no desembolso com grãos em relação ao ano anterior, mesmo com deflação no arroz (-5,08%) e no feijão carioca (-2,74%) em 2011, segundo o índice oficial de inflação (IPCA), calculado pelo IBGE.

Com a queda nos preços, a tendência seria de aumento do consumo desses itens. "Mas, em 2011, foi a primeira vez em três anos que houve queda nos gastos com arroz e feijão em relação ao ano anterior", observa a gerente de marketing da Kantar Worldpanel, Patrícia Menezes.

A pesquisa mostra que o recuo na participação do gasto com grãos na alimentação no domicílio entre 2008 e 2011 foi generaliza, porém mais abrupta nas Regiões Centro-Oeste, Sul, Leste (Minas Gerais e Espírito Santo) e interior do Rio de Janeiro.

A contrapartida da queda na fatia do gasto com arroz e feijão na alimentação dentro de casa foi o aumento da participação de carnes, pratos prontos e panificados no mesmo período. Entre 2008 e 2011, o desembolso com proteína animal (carnes, ovos, aves e peixes) passou de 25% para 28%; nos pratos, a fatia no gasto subiu de 2% foi para 3%; nos pães e bolos, evoluiu de 9% para 10%. Também houve aumento nos desembolsos com esses produtos em todas as regiões do País, mas o destaque foi para o Centro-Oeste, Leste e interior do Rio de Janeiro.

Na opinião de Patrícia, a mudança na composição do prato do brasileiro reflete a melhor situação econômica do País, com ganhos de renda, maior empregabilidade e avanço da participação da mulher no mercado de trabalho.

Já o economista da Faculdade de Economia e Administração da USP, Heron do Carmo, que por mais de 20 anos coordenou o Índice de Preços ao Consumidor da Fipe e acompanhou as mudanças de hábitos de consumo do paulistano da hiperinflação à estabilidade, diz que o fator fundamental para a mudança na alimentação dentro de casa é situação de pleno emprego e o aumento no número de mulheres trabalhando fora.

Isso reduziu o tempo para o preparo das refeições dentro de casa, especialmente os mais demorados, como arroz e feijão. "Essa mudança não reflete simplesmente o aumento da renda, mas o desemprego mínimo", pondera o economista.

Além disso, ele observa que houve, no período, o aumento da formalização do emprego, que significa maior uso de vale-refeição, redução no tamanho das famílias e envelhecimento da população, que contribuíram para essas mudanças.

Carmo ressalta que a leitura dos dados não permitem deduzir que a população está comendo menos arroz e feijão de forma geral, mas sim dentro de casa.

Comida pronta não substitui a convivência


O empresário Marcos Oliveira dos Santos e sua mulher, Maria Beatriz, fazem um esforço quase "ideológico" para manter a família reunida à mesa na hora das refeições. "Fomos educados com as nossas mães cozinhando diariamente arroz e feijão", conta.

Até agora, o casal, que tem três filhos, Guilherme, de 10 anos, e os gêmeos Fernando e Francisco, de 8 anos, conseguiu manter esse hábito, porém o cardápio das refeições mudou. O arroz e o feijão, que até quatro anos atrás eram preparados diariamente, tiveram a frequência reduzida a duas ou três vezes na semana. No lugar do trivial brasileiro, entraram os pratos semiprontos, as batatas congeladas, os sucos de caixinha.

"Viramos montadores de pratos", compara o empresário, fazendo referência ao aumento do consumo de batatas descascadas e congeladas prontas para fritar, bifes comprados já temperados, suco de fruta que basta abrir o lacre da caixinha para ser consumido, lanches prontos e verduras para salada já lavadas. "Mesmo tendo comida prática em casa, a família continua reunida em torno da mesa."

A falta de tempo da mulher, também empresária, para se dedicar às tarefas domésticas é apontada por Santos como a principal razão para a alteração do cardápio das refeições da família. Mas ele acrescenta que os filhos também pedem para comer fora de casa.

Santos conta que a família aumentou a frequência da ida a restaurantes. "Antes só comíamos fora nos fins de semana. Agora são três a quatro dias por semana", diz o empresário, ressaltando que as crianças cresceram e começaram a pedir para comer fora. Com isso, o peso do gasto com alimentação em restaurante foi multiplicado por dez. Três anos atrás era 3% das despesas, e hoje subiu para 30%.

Enquanto as famílias estão reduzindo o consumo de grãos, como arroz e feijão, que dão trabalho para ser preparados em casa, Santos nota que o brasileiro continua comendo esse prato tradicional nos restaurantes de empresas. Ele faz essa observação com conhecimento de causa porque a sua empresa é especializada em administrar restaurantes corporativos.

"Meu cliente come arroz, feijão todos os dias, peixe e frango uma vez por semana, carne , frutas e verduras e têm uma dieta equilibrada", conta Santos, que não notou queda no consumo de arroz e feijão. "A cada refeição, uma pessoa consome 200 gramas de arroz e entre 80 e 100 gramas de feijão. Essas quantidades vêm sendo mantidas", diz ele.

Mais uma vez, o empresário aponta a falta de tempo para o preparo como o principal fator para a redução de consumo de grãos. "Quando o prato é oferecido pronto no restaurante não há queda."

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