Hollande, o lado oposto de Sarkozy

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Por: Jonas | 18 Mai 2012

François Hollande iniciou seu mandato sob uma série de contratempos. A chuva e o vento acompanharam seu percurso, num carro conversível, pela Avenida Campos Elíseos, depois um raio atingiu o avião que o levava para Berlim, para se encontrar com a chanceler alemã Angela Merkel. Hollande precisou voltar e trocar de avião. Quando já estava na capital alemã, Merkel e Hollande tropeçaram várias vezes no tapete vermelho, encharcado pela chuva. A viagem do presidente eleito à Alemanha foi o primeiro encontro de importância internacional com a interlocutora Merkel, a quem Hollande enfrentou com a proposta de mudar a política de austeridade, promovida pela chanceler alemã, em toda a Europa, como poção curativa da crise.

A reportagem é de Eduardo Febbro, publicada no jornal Página/12, 16-05-2012. A tradução é do Cepat.

Pela manhã, durante o discurso pronunciado em sua cerimônia de posse, François Hollande colocou-se numa posição de ruptura com o seu antecessor, o conservador liberal Nicolas Sarkozy. Sóbria, breve, sem a presença de seus quatro filhos e da sua atual companheira, Valérie Trierweiler, a cerimônia de posse esteve anos-luz do estilo protagonizado por Sarkozy. Até nos mínimos detalhes procurou-se marcar diferença. O chefe de Estado prometeu lutar contra todas as discriminações e incitou a criação de “um novo caminho para a Europa”. Tudo o que disse o líder socialista foi uma espécie de negação do sarkozismo. François Hollande prometeu um “Estado imparcial” e fixou três eixos da democracia como orientação de seu mandato: a democracia social – de negociação com os atores sociais -, a democracia local – de incremento dos poderes locais – e a democracia cidadã – dar vez às iniciativas da sociedade civil.

Como manifestou, durante a campanha eleitoral, François Hollande fez da juventude e da justiça dois rumos irrenunciáveis de seu mandato e da reconfiguração política da Europa uma meta essencial. “Na Europa, nos esperam e nos observam, e vou propor aos meus parceiros europeus um pacto que una a necessária redução do déficit com o indispensável estímulo para a economia”, disse o presidente. O mandatário não negou os problemas arrastados pelo país: “Uma dívida massiva, um crescimento débil, um desemprego elevado, uma competitividade degradada, uma Europa que sofre para sair da crise”. No entanto, ressaltou que não existe “fatalidade”.

Um extenso capítulo, de uma década de presidentes liberais conservadores, se encerrou ontem com a posse de um homem que chegou ao topo do poder sem que alguém, um ano atrás, pudesse imaginar ou apostar em vê-lo entrar no Palácio do Eliseu, como presidente da República. Hollande sempre se apresentou como um homem “normal”, em contraponto ao exibicionismo de Sarkozy. François Hollande é o sétimo presidente da Quinta República e o segundo socialista que chega à chefia do Estado, depois de François Mitterrand (1981-1995). O novo chefe de Estado tem uma particularidade: assume o cargo sendo solteiro. Não se casou nem com Ségolène Royal, nem com Valérie Trierweiler. A branda solenidade da cerimônia, o comedimento nas palavras e os escassos aparatos nos atos começaram a desenhar outro país, na simplicidade crua das imagens. Ao contrário de Nicolas Sarkozy, Hollande enfatizou a ideia do Estado “exemplar” e disse: “Implantarei as prioridades, mas não decidirei tudo e por todos. O Parlamento, o Governo e a Justiça serão independentes. O poder será exercido com escrupulosa sobriedade. O Estado será imparcial. Defenderei sempre o laicismo e lutarei contra o racismo e o antissemitismo”. O novo presidente destacou que o país necessita de “reconciliação e união”.

A formação do recente governo será conhecida nesta quarta-feira (16-05), mas a nomeação do primeiro ministro foi oficializada no mesmo dia da posse. Trata-se de Jean-Marc, um político moderado, muito conhecedor da Alemanha e pouco conhecido pela opinião pública. O chefe de governo não é um adepto da ostentação. “Não tenho complexos sociais, mas em Paris me incomoda certa forma de elitismo e condescendência”, disse. Filho de um operário, Jean-Marc Ayrault é deputado desde 1986 e desde 1987 passou a ser o presidente da bancada socialista na Assembleia Nacional. Ele não pertence a nenhuma das grandes instituições educativas que formam as elites do Estado. Achegado de François Hollande, é, à sua maneira, uma espécie de dublê na humildade.

Antes de seguir para a Alemanha, em seu discurso, Hollande antecipou os planos que formulou rumo a uma Alemanha guardiã da austeridade. “Necessitamos de solidariedade, de crescimento e de um novo pacto para reduzir a dívida, estimulando nossas economias e acordos comerciais para que respeitem a reciprocidade”, disse. O encontro do líder socialista, com Merkel, foi o seu primeiro passo chave. O confronto, que ameaçava as relações entre Paris e Berlim, encontrou um ponto de consenso que varreu todos os rumores e especulações sobre a saída da Grécia do euro. Durante a coletiva de imprensa em Berlim, dada por Merkel e Hollande, eles foram claros: “Queremos que a Grécia permaneça no euro”, disse Merkel. Eles não expuseram suas profundas divergências. Hollande e Merkel disseram que estavam dispostos a “refletir” sobre medidas que favoreçam o crescimento – algo defendido por François Hollande -, mas não passaram disto. É evidente que a harmonia constatada em torno da crise grega e a necessidade de que Atenas não se afaste do euro não foi a mesma quando se tratou da questão do crescimento. A fala de Hollande provoca caretas em Merkel: “Sou a favor da seriedade orçamentária e isso quer dizer a favor do crescimento, porque sem crescimento, sejam quais forem os nossos esforços, não alcançaremos nossos objetivos”.

Neste primeiro encontro, Merkel e Hollande optaram pelo pragmatismo. Não apareceram as diferenças entre os dois. Distantes, suaves, muito calmos, tenazes, mas sem poses e nem aparências exageradas, ao menos, ambos parecem compartilhar a mesma inclinação pelo comedimento e a brandura. A jornada inicial, da presidência de François Hollande, começou com o presidente encharcado até ossos e um raio que obrigou seu avião aterrissar com urgência. Um dia convulsivo, à imagem e semelhança de uma Europa sacudida pelas turbulências dos mercados.

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