23 Fevereiro 2012
Gauck, Kässmann, Huber, Göring-Eckardt, Kauder: um número surpreendente de cristãos professos estavam em discussão para a presidência da república alemã, antes que a escolha recaisse sobre o pastor Joachim Gauck. Alois Glück, político da CSU e presidente do Comitê Central dos Católicos Alemães, fala nesta entrevista sobre fé e política.
A reportagem é de Verena Tröster, publicada no sítio Domradio.de, 21-02-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Eis a entrevista.
Um protestantismo político faria bem aos alemães?
O senhor Gauck foi nomeado para o cargo de presidente com base em seu status de militante dos movimentos pelos direitos humanos, de homem político e, naturalmente, também com base em sua personalidade. Não porque ele seja pastor evangélico e nem com relação à sua religião. Mas, ao mesmo tempo, é uma coisa boa que alguém que professa a sua fé e reconhece o seu pertencimento à Igreja seja escolhido para o cargo. E, evidentemente, isso não constitui motivo de exclusão. Seria um secularismo estranho se as características religiosas e a prática religiosa
constituíssem motivo de exclusão.
Você diria então que homens e mulheres da Igreja podem mostrar melhor uma autoridade moral, seja em geral, seja nesse cargo?
Não, eu não diria que, em geral, podem fazê-lo melhor. Seria uma pretensão excessiva. Nós não devemos exagerar nisso. Mas eu acredito que isso também corresponde a um desenvolvimento na nossa sociedade, em que a religião tem um valor totalmente diferente. Refiro-me à religião em geral. Em um momento em que, provavelmente como nunca, muitas pessoas estão em busca de sentido e de orientação. Tanto para a sua vida pessoal, quanto para a da sociedade. Se há pessoas que encontram aprovação geral e talvez até projetem uma certa imagem, pessoas que caminharam em suas vidas sempre com convicção, embora com rupturas ou com aspectos contraditórios, essas pessoas também podem oferecer uma orientação.
Nos últimos tempos, tem-se falado, surpreendentemente, de muitos teólogos evangélicos. Entre os possíveis candidatos, falou-se de Margot Kässman, por exemplo, de Kathrin Göring-Eckhardt e de Wolfgang Huber. Como você explica isso? Os católicos comprometidos não se destacaram tanto.
Acredito que isso tem menos a ver com o fato de serem evangélicos. Certamente, o bispo Huber e a senhora Kässman são conhecidos pelos seus cargos eclesiais e justamente, pelo fato de estarem diretamente envolvidos em funções eclesiais, encontraram a rejeição por parte de alguns grupos. Na realidade, também se disse que era preciso estar alerta contra uma união excessiva da função eclesial e da função política. Mas, em geral, as confissões não desempenham um papel importante. Nos fatos concretos, ocorre que, no âmbito evangélico, talvez uma personalidade ou outra atualmente aparecem mais na mídia. Por outro lado, também se falou do presidente do Parlamento, Norbert Lammert, que, como presidente do parlamento, está no segundo posto da República Federal da Alemanha. E Norbert Lammert é um católico comprometido e praticante. Então, não se pode dizer que não havia católicos.
Então, você vê a situação também em sentido ecumênico?
Penso que seria tolo se, justamente na época do ecumenismo, começássemos com invejas confessionais. É uma coisa boa que os cristãos sejam chamados a tais cargos e que, assim, possam demonstrar que os cristãos também dispõem ou podem dispor dos requisitos necessários para altos cargos estatais, em um estado naturalmente neutro do ponto de vista da concepção de mundo, em uma sociedade que precisa de orientação sobre os valores. Precisamente no sentido da afirmação de Böckenförde: "O Estado vive de pressupostos que ele mesmo não pode criar".
Se considerarmos agora o novo candidato, você acredita que aquilo que encontraremos na política será uma espécie de santo?
Joachim Gauck certamente se recusaria a ser classificado dessa forma. Ele não pode sê-lo porque não quer sê-lo. Justamente o excesso de expectativas com relação a ele é um risco para o seu cargo. Certamente, com certos posicionamentos, ele provocará irritação, mas, por outro lado, eu penso sempre se poderá notar que, independentemente do que se diga, se trata de uma pessoa que se ocupa dos vários temas de forma séria e profunda. Independentemente do fato de se estar ou não de acordo com ele.
Agora, seu companheiro de partido Norbert Geis espera que Gauck esclareça a sua situação familiar, já que não vive com a sua esposa. Não é demais?
Estou muito preocupado que ainda dirijamos sobre a vida privada um olhar impiedoso. Ainda deve haver uma vida privada. Caso contrário, o efeito poderia ser o de desencorajar eventuais aspirantes a cargos públicos.