Consistório: a sombra das divisões no Vaticano

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17 Fevereiro 2012

Há uma incógnita aninhada no pano de fundo das relações entre o Vaticano e os Estados Unidos. Não é óbvio, na verdade, que o atual núncio em Washington, Carlo Maria Viganò, poderá permanecer por muito tempo em seu posto depois das duas cartas dadas como alimento ao público, com as quais ele denunciava a corrupção do Governatorato por ele presidido: uma medida destinada a pôr em dívida homens muito próximos do secretário de Estado, Tarcisio Bertone.

A reportagem é de Massimo Franco, publicada no jornal Corriere della Sera, 11-02-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O conflito se concluiu, por enquanto, com uma dura, embora tardia, autodefesa coletiva das pessoas postas em causa. É claro que, para que Viganò seja o interlocutor do episcopado norte-americano e da Casa Branca em um ano de eleições presidenciais sem ter a confiança do Vaticano, será nada menos do que complicado.

Oficialmente, o problema não se coloca. No dia 7 de fevereiro, o L'Osservatore Romano divulgou a notícia do "início da missão" de Viganò nos EUA, uma sede estratégica: embora com menos destaque do que a do núncio no Uzbequistão. O problema é o que vai acontecer se, no fim, ele tiver que voltar para Roma.

Uma hipótese agita a Cúria: que o ex-chefe do Governatorato, fortalecido com os documentos em sua posse e ulteriormente exacerbado, possa citar em juízo as pessoas que ele considera que o enviaram a Washington para removê-lo. Significaria fazer vir à tona alguns dos assuntos menos confessáveis da Santa Sé e deslegitimar a cúpula vaticana. Além disso, a impressão é de que o núncio em Washington é apenas um dos habitantes de um formigueiro caótico do qual cartas anônimas e relatórios confidenciais saem aos borbotões.

Trata-se de comportamento não incomuns em um papado considerado em sua fase final. Mas a explicação parece ser redutiva. O mais surpreendente é que ninguém parece ser capaz de controlar um jogo de massacre que de repente saiu do controle. A safra de fofocas e revelações mais ou menos confiáveis que está aflorando não surpreende pelo conteúdo das notícias: algumas soam tão clamorosas quanto inverossímeis, como a de um complô para matar Bento XVI.

A verdadeira novidade é que elas vazam, e ninguém parece capaz de frear a sua difusão. Ainda em setembro, soube-se de uma carta anônima para Bertone, em que lhe era desejado "um funeral de primeira classe". A resposta oficial foi a de explicar que missivas desse tipo são frequentes. E se subestimou o fato de ela ter acabado nos jornais.

Ultimamente, foram publicadas algumas notas confidenciais sobre o modo de evitar que a Igreja Católica italiana seja acusada de evadir da ICI [imposto sobre as propriedades] alguns imóveis. E depois a história dos 180 milhões de euros transferidos aos bancos alemães pelo IOR, o Instituto para as Obras de Religião, o "Banco do Vaticano". Os esclarecimentos que vieram do outro lado do Tibre foram imediatas, ressentidas e circunstanciadas.

Mas não conseguiram apagar totalmente a sensação de uma tentativa desesperada de conter ataques provenientes, em primeiro lugar, de dentro da Cúria. É um desvio que, nas últimas semanas, aumentou os rumores sobre uma substituição de Bertone antes do fim de 2012: perspectiva acalentada há muito tempo pelos seus adversários, mas considerada impossível até recentemente, por causa das relações entre o pontífice e o seu secretário de Estado.

Já está ficando claro que o "primeiro-ministro" do papa é um elemento nada secundário de divisão e de conflito interno. A degeneração das relações pessoais e da luta pelo poder, porém, não pode ser explicada apenas pelo papel desempenhado por Bertone nos últimos anos: embora seja muito relevante o fato de que não está claro o quanto Bento XVI o apoiou ou o padeceu.

Será possível ter alguns ecos no próximo dia 18 de fevereiro, na abertura do Consistório. Chegarão todos os cardeais do mundo para assistir à imposição de outros 15 "chapéus" cardinalícios, dos quais sete são italianos. E encontrão um Vaticano mais imerso do que nunca nas rixas do subpoder curial; "italianizado", no sentido mais provincial e duro do termo, aos olhos de episcopados que estão enfrentando desafios que causam calafrios para a Igreja universal.

No fundo, em 2005, quando foi eleito o alemão Joseph Ratzinger, o objetivo também era o de evitar que as divisões do episcopado italiano se descarregassem sobre pontificado. Ao invés disso, em torno da figura hierática e frágil de Bento XVI, consumam-se acertos de contas e ambições pessoais por trás dos quais não se veem grandes estratégias, mas sim pequenas vinganças.

É uma situação opaca que torna plausíveis até as cartas mais improváveis e que leva a entender que agora qualquer um, nas salas vaticanas, se sente livre de vínculos de confidencialidade e de lealdade. Não são apenas convulsões em vista de um futuro conclave. Os rumores que tendem a queimar supostos sucessores de Bento XVI levam a pensar em manobras sem uma direção qualquer, na sua transversalidade, inclinadas a desacreditar de modo arbitrário. São o produto de um feroz jogo de "esconde-esconde", destinado a endurecer-se nos próximos meses.

Talvez, seria preciso tentar entender quando e por que isso aconteceu; qual foi o ponto de ruptura psicológica que levou membros de uma instituição bimilenar, respeitada e maníaca perante suas próprias históricas secretas, a expô-la na praça sem remorso. Alguém remonta o rasgão ao fim do verão [europeu] de 2009, quando o então diretor do Avvenire [jornal dos bispos italiano], Dino Boffo, foi posto na mira e obrigado a renunciar com um documento falso e difamatório publicado pelo Il Giornale. Dizia-se que era uma vingança de Silvio Berlusconi, porque Boffo tinha ousado criticar os hábitos privados do primeiro-ministro.

Mas, atrás do Palazzo Chigi [palácio do primeiro-ministro italiano], alguém adivinhou o perfil de pessoas ligadas à Secretaria de Estado vaticana decididas a atingir um homem de ponta da CEI [Conferência dos Bispos da Itália] por questões de poder.

Talvez seja um exagero. Mas se realmente tudo partiu de lá, isso explicaria porque os "corvos" vaticanos se multiplicaram de modo tão rápido e devastador.

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