Na França, o desespero dos velhos padres ''desobedientes''

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09 Fevereiro 2012

Aos 78 anos, padre Paul Flament não está mais na sua primeira tentativa e, apesar do silêncio cortês com acolheu as suas iniciativas anteriores, ele não se desespera de ser ouvido mais cedo ou mais tarde. Com outros 16 padres da sua diocese de Rouen, o religioso recém assinou o Apelo à desobediência, publicado na primavera [europeia] por diversas centenas de padres austríacos para pedir reformas na Igreja Católica.

A reportagem é de Stéphanie Le Bars, publicada no jornal Le Monde, 05-10-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Os padres normandos aderem a "quase" todas as reivindicações dos seus coirmãos austríacos: ordenação de homens casados e de mulheres; comunhão aos divorciados em segunda união; maior importância ao papel dos leigos, até mesmo para o sermão... Só um ponto lhes causa incômodo: a "solidariedade" manifestada pelos austríacos com relação aos padres que vivem em concubinato. "Tornando-me padre, eu assumi um compromisso. O celibato estava no contrato", é a posição do padre Flament.

Mas, com relação ao restante, estão plenamente de acordo. "Em alguns pontos, se desobedece há anos, e isso é do conhecimento e está diante dos olhos de todos", testemunha o padre. "Nós damos a comunhão aos divorciados em segunda união, deixamos que os leigos, incluindo as mulheres, façam a homilia!". Uma forma de responder à "situação cada vez mais dramática" da Igreja perante a falta de padres.

Essas práticas, embora proibidas oficialmente, por enquanto nunca foram punidas. "Dizemos em voz alta aquilo que outros fazem sem dizê-lo, incluindo alguns bispos", garante seriamente o padre Flament.

No entanto, não se pode dizer que o posicionamento dos padres de Rouen tenha encontrado eco entre os seus coirmãos franceses. Jovens ou velhos, eles seriam "muito legitimistas", "muito conservadores", "muito medrosos", "muito clericais", "muito desiludidos" ou "muito alinhados com Roma" para manifestar solidariedade com a velha guarda "revolucionária" de Rouen.

Alguns representantes das geração de padres mais jovens até ironizam a idade dos contestadores, que "realmente não representam o futuro da Igreja". "A idade média dos signatários é de cerca de 70 anos. O mais jovem tem 58", reconhece o padre Flament. "O fato é que, na Igreja, os velhos são os mais revolucionários. Mas há pessoas mais jovens, particularmente entre os fiéis, que estão conosco", afirma.

Na Áustria, os seus coirmãos são apoiados por 71% da população. Para o velho padre, "aqui, é a palavra desobediência que não é aceita. Ao invés disso, às vezes, é preciso saber desobedecer: o próprio Jesus fez isso!".

Ainda em 2007, com um pequeno punhado de coirmãos da diocese, ele havia interpelado os bispos franceses sobre essas questões. Em vão. Os padres alertavam o episcopado com relação aos riscos de um "cisma" silencioso, provocado pela separação da Igreja de grande parte da população. Quatro anos depois e "enquanto o Vaticano se esforça para reabsorver o 'cisma de extrema direita [de Dom Lefebvre]', o 'cisma progressista' avança em toda a Europa", lamenta o padre Flament. "O drama é que essas pessoas não vêm mais à Igreja".

A postura dos padres de Rouen foi ecoada pelos grupos Jonas, membros dos Réseaux du Parvis, que representam uma ala progressista dos católicos, e que recentemente publicaram um texto em que asseguram: "Muitos católicos rejeitam o movimento de restauração que se instaurou na sua Igreja. Assistimos a um verdadeiro movimento de emancipação diante dos argumentos de autoridade e de tradição, e a uma reivindicação da liberdade de pensar e de crer".

No seu discurso ao Bundestag, em Berlim, no dia 22 de setembro, Bento XVI, citando o antigo teólogo Orígenes, exaltou "a resistência dos cristãos a certas normas jurídicas" que consideram "injustas". Mas ele aludia às leis dos Estados. Não às da Igreja.