''O ser humano é maior do que seus pecados'', afirma Martini

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15 Fevereiro 2012

"O ser humano é maior do que o seu pecado, o ser humano é maior do que os seus erros, o ser humano, por mais culpado que seja, continua sendo ser humano".

O jornal italiano Corriere della Sera publicou uma resposta do cardeal emérito Carlo Maria Martini a uma pergunta de um leitor, 29-01-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a carta.

Caro cardeal Martini, vivo na Toscana civil, próximo de Florença. Eu desconhecia a existência do hospital psiquiátrico forense de Montelupo Fiorentino até ter lido em um jornal local uma breve notícia. Um rapaz de 28 anos, da Ligúria, havia cometido suicídio inalando gás. Meu filho tem a mesma idade: a minha mente de mãe logo imaginou um rapaz frágil, paralisado pelo medo, sozinho em uma prisão. De fato, eu pensava que se tratasse de uma vítima da prisão, mas, ao contrário, descobri que era vítima de algo pior, de um manicômio criminal. Não sabendo o que era um hospital psiquiátrico forense, comecei a me informar e me deparei na Internet com um vídeo gravado por uma comissão do Senado [italiano]. Não consegui ver tudo, porque a desolação e o desconforto tornaram-se muito pesados. As paredes descascando, os chuveiros imundos e austeros, o ar lúgubre das celas úmidas onde jaziam enrolados muitos homens de ar apático ou desesperado. Talvez uma vez foram crianças e jovens "normais", com a família, amigos, escola, livros. Acredito que nenhum crime pode justificar que uma pessoa seja humilhada e privada de dignidade e cuidado. A essas pessoas, infligiu-se uma punição inexorável, sem possibilidade de resgate. De repente, eminência, me senti suja e culpada: como podemos continuar vivendo tranquilos quando sabemos que, no nosso país, existem antros de horror como esses? Não deveríamos nos comprometer, todos, em todos os níveis, para apagar uma vergonha como essa?

Eis a resposta.

A senhora expressa os sentimentos que todos sentiriam em seu lugar diante de cenas semelhantes. Nunca estive pessoalmente em um hospital psiquiátrico forense, porque, na diocese de Milão, havia unicamente penitenciárias. A descrição que a senhora faz em sua carta me impressionou muito. Parecem-me cenas vistas nos campos de concentração da Segunda Guerra Mundial e me parece impossível que ainda hoje existam lugares tão terríveis. Mas, se existem, é evidente que ainda existem homens e mulheres que não são considerados como tais. Cujos crimes são considerados maiores do que a sua própria dignidade humana. Gostaria de gritar mais uma vez que o ser humano é maior do que o seu pecado, o ser humano é maior do que os seus erros, o ser humano, por mais culpado que seja, continua sendo ser humano. As suas fragilidades, os dramas que o habitam, as monstruosidades que pode ter cometido ofuscam, desbotam, mas não apagam a sua dignidade que, ao contrário, a sociedade é chamada a reconstruir, a limpar, a educar, a medicar. Jesus diz: "As pessoas que têm saúde não precisam de médico, mas só as que estão doentes. Eu não vim para chamar justos, e sim pecadores" (Marcos 2, 17). E se a sociedade tem o dever da justiça, ela é destinada a recuperar todo o possível do humano que há em cada ser humano, todo o bem que nele permaneceu. Quem deixa o ser humano na sua culpabilidade, quem o esculpe dentro dela, não é muito diferente do próprio culpado. Desejo que o mundo sintonize o seu coração com o deste que escreve e que jamais ocorra, por questões de dinheiro ou de simples desinteresse, que homens e mulheres sejam abandonados aos seus erros e às suas doenças.