Plebiscito no Pará revela dois tipos de separatismo

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11 Dezembro 2011

O plebiscito de hoje vai mostrar um Pará dividido em três, mesmo que sejam derrotadas as propostas de criação dos Estados de Tapajós, no oeste, e Carajás, no sul - o cenário mais provável, segundo admitem os próprios separatistas.

A reportagem é de Daniel Bramatti e publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, 11-12-2011.

Não há dúvidas de que a proposta de separação sairá vitoriosa por larga margem nas áreas que formariam novas unidades autônomas na Federação. É o eleitorado de Belém e arredores, muito mais numeroso, que deve impedir a separação - o que pode amplificar a sensação de "marginalidade" dos moradores das demais regiões do Estado.

A campanha mostrou que as áreas periféricas do Pará não se sentem economicamente atendidas pelo governo, nem são culturalmente identificadas com a capital. Mas Carajás e Tapajós também têm pouco em comum - são dois separatismos muito diferentes.

O sul, cuja "capital" é Marabá, é uma área de colonização recente, que começou a inchar a partir da construção da rodovia Transamazônica, nos anos 70, e que continua a atrair imigrantes. Tem hoje uma elite que veio de fora e que vê na criação de um Estado a oportunidade de ganhar influência política e gerenciar a exploração dos recursos naturais abundantes na região.

O oeste, por sua vez, tem uma população com raízes de mais de 300 anos e uma história de diversos conflitos com o poder central. Há registros de debates sobre a criação da Província de Tapajós já no século XIX. Santarém, a principal cidade da região, tem muito mais vínculos com Manaus do que com Belém.

Enquanto Carajás vislumbra um boom de investimentos em mineração, siderurgia e agronegócio, Tapajós tem como principal aposta de viabilidade econômica repasses de recursos federais.

História

Tapajós é a palavra que mais se fala na casa do professor Jackson Rêgo Matos. Não apenas porque ele é militante da causa separatista, mas porque hospeda alguns parentes da leva de sete integrantes da família Tapajós - entre eles a mãe, Iolanda Tapajós Rêgo - que viajaram desde Manaus para votar no plebiscito.

A casa de Jackson fica em Alter do Chão, às margens do Rio Tapajós. Ao fazer uma obra no quintal, ele encontrou cacos de cerâmica de índios tapajós - tribo da qual sua mãe é descendente. O pai, João Otaviano Matos, falecido, já nos 50 participava de reuniões nas quais se discutia a autonomia de Tapajós. "Nunca tivemos nada a ver com Belém. É para Manaus que as pessoas vão quando precisam trabalhar, estudar ou tratar da saúde."

O tio de Jackson, Silas Tapajós Rêgo, é um exemplo: mudou-se para a capital do Amazonas depois que os filhos foram cursar a universidade lá. "Aqui está tudo parado, não tem emprego", afirma, enquanto caminha por seringueiras remanescentes do último grande empreendimento na região: Fordlândia, uma fazenda de exploração de látex, fundada pelo americano Henry Ford nos anos 20, e que faliu em 1945.

Indústria

Se os santarenos reclamam da estagnação, os marabaenses mal conseguem medir o volume de investimentos na cidade e região, estimados em US$ 32,8 bilhões até 2014, principalmente da Vale, nos setores de mineração e siderurgia.

Enquanto os trabalhadores e desempregados de Marabá são majoritariamente do Maranhão, empresários e fazendeiros são de Goiás, Minas e outros Estados nordestinos - entre eles estão o baiano Duda Mendonça, que comandou o marketing separatista, e o deputado Giovani Queiroz (PDT), mineiro, um dos líderes do movimento pró-Carajás.

Com vínculo recente e frágil em relação ao Pará, esse eleitorado tem ainda menos motivos para querer manter laços com a capital Belém.

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