Crise grega sacode Igreja ortodoxa

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09 Dezembro 2011

Poupada, talvez... mas até quando? Recentemente, o ministro da Justiça grego expressou publicamente reservas com relação ao status da Igreja Ortodoxa, afirmando que o clero helênico – ricamente dotado, segundo a opinião pública – deve assumir suas próprias responsabilidades diante da crise que paralisa o país.

A reportagem é de François-Xavier Maigre, publicada no jornal La Croix, 06-12-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Quando ficou sabendo dessas críticas, o padre Theodoros, capelão das duas prisões da região de Volos, na Tessália, no centro do país, não pôde se conter e enviou-lhe uma carta: "Só em 2010, a associação "O Crucificado’, que eu fundei com muitos voluntários, doou 36 mil euros para apoiar os 400 detentos com os quais nos ocupamos, assim como suas famílias", explica ele, sem animosidade. "Distribuímos alimentos, colchões e roupas, o que a administração prisional não é mais capaz de fazer".

Certamente, o exemplo é muito local, e a soma mencionada é ridícula [em comparação com a dívida pública grega]. Mas, para o padre Charilaos Papageorgiou, muito comprometido com a solidariedade em Volos, o fato é sintomático "das relações paradoxais" entre o Estado grego e a Igreja Ortodoxa, que, em sua opinião, se encarrega "de uma grande parte da ajuda social" no lugar dos poderes públicos. Acima de tudo, isso revela a separação que muitos gregos sentem com relação a uma instituição que não dá a impressão de ter mudado o seu modo de vida, enquanto eles são duramente atingidos.

Regularmente, há personalidades políticas que fazem piadas sobre a opulência da Igreja, especialmente depois do escândalo imobiliário do mosteiro de Vatopedi, que, em 2008, sacudiu a opinião pública. Mas, de fato, parece quase impossível avaliar esse patrimônio, dado que a Grécia não possui nenhum inventário. A essa indeterminação administrativa, acrescenta-se a complexidade canônica de uma igreja extremamente fragmentada por causa da sua história.

"As riquezas que nos são atribuídas são um mito. Desde a independência e até os anos 1950, entregamos ao Estado 96% das nossas propriedades", afirma Mons. Gabriel, secretário do arcebispo de Atenas. "Era necessário construir a nação, e fizemos o que devíamos fazer". Esse patrimônio havia sido formado ao longo de quatro séculos de ocupação otomana. De fato, a autoridade da Igreja Ortodoxa era reconhecida pelos sultões no marco do sistema dos millyets (termo turco que indica as minorias religiosas protegidas), e as suas propriedades não podiam ser confiscadas.

"Muitas famílias gregas, temendo que suas terras fossem confiscadas, as entregaram para a Igreja", resume Pantelis Kalaitzidis, diretor da Academia Teológica de Volos. Essa situação só reforçou a estreita ligação entre o sentimento nacional e o pertencimento à ortodoxia, herdada da tradição bizantina.

"Cultivamos uma verdadeira osmose entre a Igreja e o Estado. As pessoas não são a favor de uma separação dos poderes. A ideia segundo a qual um verdadeiro grego deve ser ortodoxo está amplamente generalizada", declara o filósofo ateniense Thanos Lipowatz. "Quanto àqueles que criticam a Igreja, não é improvável que os encontremos na paróquia, nos dias de festa!".

Giorgos Diellas, conselheiro científico do Ministério do Trabalho, faz uma constatação idêntica: "Até os anos 1990, 98% dos gregos se declaravam ortodoxos. Com a imigração, essa proporção diminuiu ligeiramente. Mas a religião recai na ordem do inato, embora nem sempre seja profundamente enraizadas". Para se convencer disso, basta parar na frente de uma igreja: chama a atenção ver tantos transeuntes, de todas as idades e de todos os lugares, fazer o sinal da cruz na rua. Na Grécia, a fé está em toda a parte.

"A nossa Constituição, no artigo primeiro, faz da Igreja Ortodoxa uma pessoa jurídica de direito público", afirma Giorgos Diellas. "Assim, o Estado grego não é laico, no verdadeiro sentido da palavra". O metropolita Ignatius de Demetrias declara que "a ortodoxia sempre desempenhou um papel de coesão social para o povo grego". Não surpreende, portanto, que os membros do clero sejam considerados como funcionários e remunerados como tais. "Esse status foi acordado como contrapartida das nossas múltiplas doações", defende Mons. Gabriel, em Atenas. "Os nossos salários são os mais baixos do serviço público, e sofremos cortes importantes, da ordem dos 10%".

Quanto aos impostos, afirma, a Igreja os paga em total transparência. "Em 2010, a diocese de Atenas alocou 1,3 milhão de euros de um orçamento total de 2 milhões, excluindo os salários. É quase o de uma cidade pequena". E o novo imposto sobre os imóveis, introduzido em setembro, com base nas contas de energia elétrica, também tem consequências financeiras para a Igreja, mesmo que os edifícios para o culto sejam isentos. Quanto às ações depositadas no Banco Nacional da Grécia, "eles já não têm nenhum valor", afirmou o bispo.

Se a Igreja grega, neste período, tem um déficit, é em matéria de imagem. Daí surgiu a decisão de comunicar publicamente a sua obra social. É verdade que a distribuição de alimentos, organizada em todo o país, é exemplar. Nesse dia, em um dos bairros mais desfavorecidos de Atenas, no fim de uma rua cheia de barracas de especiarias e povoada por pequenos traficantes, foram distribuídas 600 cestas básicas: "Três anos atrás, ajudávamos sobretudo os migrantes. Mas vemos cada vez mais gregos que caem na pobreza", testemunha Maria, leiga ortodoxa à frente do projeto. Em Atenas, todos os dias, são distribuídos pela Igreja 10 mil refeições, em um orçamento anual de 5 milhões de euros. E, no país, 200 mil cestas básicas diárias.

Para algumas pessoas, esse compromisso deve ir mais longe: "Desde 2008, a Igreja grega publicou três textos sobre a crise. O problema dessas análises é que elas permanecem no nível da filantropia, sem entrar verdadeiramente a fundo nos problemas", lamenta Stelios Tsompanidis, professor da Faculdade de Teologia de Tessalônica, na Macedônia. Para outros, o problema está no próprio status do clero: "Parece-me uma coisa cada vez mais problemática que o clero seja pago pelo Estado", critica Stavros Zoumboulakis, editor-chefe da revista intelectual Nea Hestia. Em algumas cidades, os padres, que também são professores ou agricultores, recebem dois salários, sem contar as retribuições que recebem pelos sacramentos. "As pessoas entendem cada vez menos essa situação".

Além disso, segundo uma fonte diplomática, a riqueza da Igreja teria sido consideravelmente "reconstituída" nestes últimos anos, em particular graças a heranças. "Ainda dispomos de recursos importantes", admite um padre, próximo das finanças do arcebispo de Atenas. "Continuaremos apoiando o Estado, mas queremos ter a garantia de que o que doamos seja mais bem gerido do que tem sido até agora".

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